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Da Lama ao Palco
Da Lama ao Palco

DA LAMA AO PALCO

 

Peça premiada e cercada de expectativas, CARANGUEJO OVERDRIVE, da Aquela Companhia de Teatro, com direção de Marco André Nunes, chega ao Festival Palco Giratório.  A montagem experimental foi produzida com orçamento modesto e tornou-se a maior surpresa da cena carioca.  O espetáculo ocorre (ocorreu) na Sala Álvaro Moreyra.

 

O ponto inicial é a inspiração no livro HOMENS E CARANGUEJOS, publicado em 1967 pelo escritor pernambucano Josué de castro, que também serviu de base para o movimento manguebeat, do músico Chico Science, na década de 1990.  “Josué de Castro é o primeiro pensador brasileiro a desnaturalizar a questão da fome.  Antes, se falava que ela acontecia por um certo determinismo geográfico – ele vai dizer que ela é um fenômeno social de concentração de riqueza”, explica o dramaturgo Pedro Kosovski, enfatizando que o livro ainda é extremamente atual, já que, no Brasil, somente a partir dos anos 1990 houve políticas públicas que tentaram exterminar a fome.

 

Soma-se a isso a questão da memória: a peça é ambientada em plena Guerra do Paraguai (1864 e 1870) e foi escrita para os 450 anos do Rio de Janeiro.  O espetáculo conta a história de um catador de caranguejo do Rio de Janeiro, Cosme, que é convocado para lutar na Guerra do Paraguai e, ao retornar, anos depois, se deparar com a construção do canal do Mangue e as mudanças da cidade.

 

Em cena, estão cinco atores atuando ao redor ou dentro de uma caixa de lama e areia.  “Abordamos também como as atuais disputas de territórios no Rio, em decorrência das Olimpíadas, afetam a vida das pessoas”, comenta Kosovski.

 

O texto é apenas uma parte da peça, que ganha destaque também pela forma como é contada.  As transformações passam pelos corpos dos atores.  Kosovski conta que o ator Fellipe Marques fica 20 minutos imóvel em uma posição de caranguejo.  A peça pretende, portanto, levar o teatro político a uma nova direção.  “Ocorreu uma repolitização do teatro após junho de 2013.  Entre os anos 1960 e 1970, teve um teatro político contundente.  Atualmente, estamos tentando ver de que modo conseguimos ser políticos sem fechar em um tipo de bandeira, a questão agora é como fazer e não para que fazer”, relata o dramaturgo e um dos fundadores da companhia, ao lado do diretor Marco André Nunes.

 

A montagem dá continuidade à pesquisa artística da Aquela Cia de Teatro, que se baseia na criação de uma dramaturgia própria e na ampliação do gênero musical – a trilha sonora é realizada ao vivo e flerta com o punk e o manguebeat.  O grupo, que comemorou 10 anos, esteve, em diversas ocasiões, em Porto Alegre – a última delas foi no ano passado, apresentando o espetáculo EDYPOP.

 

No entanto, CARANGUEJO faz um retorno aos primeiros trabalhos do grupo, feitos para uma plateia menor e, conforme Kosovski, dialoga diretamente com outro espetáculo da companhia: CARA DE CAVALO, que esteve na Capital em 2014.  A montagem também trabalhava a questão da memória, tendo como ponto de partida a história do bandido que lhe empresta o título e o cerco policial que redundou em sua execução com mais de 100 tiros em Cabo Frio, em 1964.

 

CARANGUEJO OVERDRIVE deu a Kosovski e a Nunes todos os grandes prêmios do ano nas categorias texto e direção: Cesgranrio, Shell e APTR.  Além deles, Carolina Virgüez levou o Shell e o ATPR de melhor atriz por seu papel na peça.  Também estão em cena Alex Nader, Eduardo Speroni e Matheus Macena. 

 

 

Fonte:  Jornal do Comércio/Caderno Viver/Michele Rolim em 22 de maio de 2016.