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O Lugar Escuro: Profunda Artesania
O Lugar Escuro: Profunda Artesania

O LUGAR ESCURO:  PROFUNDA ARTESANIA

 

DIRETOR TEATRAL QUE JÁ MONTOU DE PHILIP ROTH A SÓFOCLES MERGULHA AGORA NA OBRA DE HELOISA SEIXAS.

 

Meu primeiro contato com a obra de Heloisa Seixas aconteceu por curiosidade.  Li uma nota de jornal anunciando o lançamento de O OITAVO SELO, um “quase romance” na definição da autora.  Aquele “quase” aguçou meu desejo de ler o livro, e fiquei absolutamente surpreso com a qualidade do texto.  Transformados ali em personagens ficcionais, o casal Heloisa Seixas e Ruy Castro mergulha fundo, de forma incisiva, em experiências de dor, doença e superação.  A referência ao título do filme bergmaniano, claro, não é por acaso.  Dividido em capítulos onde a fronteira entre vida e morte está sempre em primeiro plano, o livro é arrebatador.  Apresenta, para além de enfrentamentos difíceis e permanentes, um humor insuspeito diante de situações-limite onde, de alguma forma, todos nós, a partir da experiência intransferível de Heloisa, nos reconhecemos na fragilidade de nossa condição básica de seres humanos.  Ânimo e desânimo, esperança e desespero, se mesclam através de uma escrita precisa e elegante.  Surpreso com a qualidade da obra, como sempre me acontece, busquei a obra inteira da escritora.  Fiz bem, pois descobri que sua história literária dialoga diretamente com o teatro, relação amadurecida em diferentes adaptações e montagens.

Entre transposições cênicas com a assinatura da própria autora está O LUGAR ESCURO, livro dilacerante e comovente, construído também a partir de sua experiência pessoal.  Mais uma vez, Heloisa demonstra a possibilidade de transcendência através da arte e da escrita.  Ao relatar a vida de uma mulher nominada simplesmente assim, Mulher, e seu necessário enfrentamento ao Alzheimer da própria mãe, com dificuldades familiares que afloram e machucam, o livro é um relato singular e transformador.  A loucura está presente em todos os movimentos que norteiam as difíceis decisões da personagem central.  O eixo familiar é completado com a matriarca da família, a Avó, e com a caçula da família, a Neta.  Mulheres inominadas, fascinadas com os diferentes porões da alma humana, onde o pertencimento, social e familiar, tem na palavra o papel central.  Em momento confidencial, a Mulher revela ter sido a palavra o instrumento de sua salvação ante o fascínio de tantos doentes/doenças mentais que marcam sua presença no mundo.

 

 

A própria Heloisa assina a adaptação teatral de seu texto.  À primeira leitura, me dei conta do extremo domínio da autora enquanto dramaturga.  Seu trabalho como adaptadora é pensado para a cena, seu comprometimento mira o palco e sua gramática de trabalho é especificamente teatral.  Cenas curtas e densas, quebras temporais e solilóquios sensíveis permeiam a adaptação.  Do início ao fim, estamos diante de um texto que atinge a todos nós.  Os personagens foram mantidos em sua complexidade comportamental, com suas fragilidades e defesas.  Peça para grandes atrizes, espetáculo para quem não tem medo de emoções profundas, sem maniqueísmos ou truques fáceis, O LUGAR ESCURO, para além de méritos teatrais incontestáveis, revela uma dramaturga em plena maturidade, num cenário onde este ofício enfrenta desafios constantes.

O teatro do século XXI não pode ser confundido com um museu de velhas novidades. Não deve.  Essa postura tem levado a experiências de todos os níveis e alcances. Atiram-se no lixo, em nome de necessidades contemporâneas, a própria história teatral do ocidente.  Essa atitude deve ser analisada com firmeza.  Certamente, o homem de hoje não é o homem helênico do século V a.C. e o teatro não pode ficar refém de visões arcaicas e fórmulas testadas à exaustão.  Ao mesmo tempo, instaurar um “vale-tudo” cênico para se contrapor aos desafios que todos enfrentamos é solução mais fácil para atender às questões específicas do teatro atual.

Aprendo muito estudando os grandes autores que fizeram a história do teatro.  Dos trágicos gregos aos multifacetados autores pós-dramáticos, uma só verdade me parece inquestionável: se a dramaturgia não conseguir construir personagens e situações onde o homem se veja representado, o teatro perde sua essência, função e significado.  Observando as regras das unidades aristotélicas ou as desconhecendo por completo, o que não podemos abrir mão, em hipótese nenhuma, é a de colocar o palco a serviço das grandes questões que perturbam o homem moderno e seu tempo fragmentado.  A novidade formal é a cilada mais frequente para essa tarefa.  A atualização das gramaticas teatrais que valoriza apenas a forma está condenada, antecipadamente, ao envelhecimento precoce.

O LUGAR ESCURO é obra de requintada artesania, justamente por não desconhecer que o teatro deve ser o espaço vazio para que, dele, surjam todas as vozes e fantasmas que nos assombram e provocam.  Gosto se discute, sim.  No teatro que me interessa, não há lugar para futilidades ou preconceitos.  No teatro que tento produzir sempre há o espectro das questões sociais que afligem a vida humana.  No teatro que realmente importa, o talento individual sempre estará a serviço da arte coletiva.

 

 

Ao encarar o texto de Heloisa, essas considerações vieram com força.  Para falar de uma doença, o mal de Alzheimer, que trata justamente de memória e da perda das referências que estruturam a história de um ser humano, precisava de companheiros que entendessem a força avassaladora de nossos dramas cotidianos.  Três das melhores atrizes do Rio Grande do Sul, representantes de diferentes gerações que fazem do teatro gaúcho um dos melhores do país, amigas já de muitas aventuras cênicas, aceitaram o desafio: Sandra Dani, Vika Schabbach e Gabriela Poester, não só atenderam meu chamado, mas se entregaram à peça, colocando talento, experiência e visões de mundo a serviço dessas personagens demasiadamente humanas.

O processo de ensaios obedeceu o que acredito perseguir em cada montagem, e lá se vão quase quarenta anos de exercício constante na direção teatral: a análise profunda do texto escolhido, ensaios de mesa que não atravancaram discussões de todas as ordens: cênicas, pessoais, artísticas e sociais.  Só quando essa fase me parece contemplada a contento, começo a pensar na encenação, nas marcações do espetáculo e em todos os diversos elementos que, unidos, resultarão em um espetáculo único.  As atrizes são as grandes e verdadeiras protagonistas dessa montagem.  Todos nós nos emocionamos ante a fragilidade das personagens projetadas por Heloisa, rememorando vivências e projetando cenários comportamentais adequados às situações propostas.

Espero que o público, último e crucial elemento incorporado à qualquer montagem teatral, esteja aberto a reconhecer, através das certeiras considerações cênicas da autora, um pouco de suas vidas e histórias.

Bom teatro, para mim, é aquele que transforma a plateia que o assiste.

 

Fonte:  Correio do Povo – CS Caderno de Sábado/Luciano Alabarse (Diretor teatral.  Espetáculo estreia dia 23, no Janeiro de Grandes Espetáculos, em Recife.  Em Porto Alegre, a estreia será dia 11 de março, no Goethe.