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A Fé Não Está a Venda - Legado de Lutero
A Fé Não Está a Venda - Legado de Lutero

A FÉ NÃO ESTÁ À VENDA

 

Peço omitir meu nome. Não se chamem de ‘luteranos’, mas cristãos. Quem é Lutero? A doutrina não é minha. Também não fui crucificado em favor de alguém. Seria muita pretensão de minha parte, eu que sou um saco de vermes miserável e fedorento, se quisesse que os filhos de Cristo fossem chamados pelo meu nome desastrado.”

 

Herdeiros e herdeiras do reformador Lutero em São Leopoldo resolveram não obedecer a essa determinação de seu patrono, feita nos primórdios do movimento que ele liderou. No acesso à cidade, junto à BR-116, instalaram um relógio que faz a contagem regressiva dos dias até o 31 de outubro de 2017. O mesmo aconteceu em outros municípios do país. No relógio, o adjetivo “luterano(a)” aparece diversas vezes, a exemplo do que fazem hoje cerca de 80 milhões de seguidores e, de certo modo, mais de 400 milhões de protestantes em todos os continentes.

 

O lugar onde está o relógio oportuniza lembrar quando e como herdeiros da Reforma chegaram a estes pagos. Quase às margens do Rio dos Sinos, próximo aos trilhos da via-férrea, junto a mais extensa rodovia brasileira e ao lado da rodoviária municipal, o relógio provoca nossa memória. Ali, em 1824, aportavam veleiros trazendo imigrantes alemães, um primeiro grupo de muitos, composto por 39 luteranos. Seus filhos e netos foram dali a outros lugares, aos vales do Caí, do Taquari. Depois, subiram a Serra e avançaram para o Norte e o Oeste. A ferrovia lembra a chegada, meio século depois, de mais herdeiros: metodistas, presbiterianos, batistas, anglicanos, adventistas e outros. A estação rodoviária traz à memória a chegada dos herdeiros pentecostais da Reforma, vindos do centro do país, a partir de meados do século 20. À frente da rodoviária, está o prédio do Colégio Nossa Senhora da Conceição, fundado por padres jesuítas, cuja ordem é parte da Reforma tridentina, movimento de renovação do catolicismo em interação e tensionamento com a Reforma protestante. Assim, podemos falar também em 500 anos de REFORMAS, que, a exemplo do que ocorreu por todo o mundo, têm deixado sua influência neste Estado e neste país.

 

Ao dizer ‘fazei penitência’ etc. (Evangelho segundo São Mateus 4.17), nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.” Essa é a primeira das 95 teses de Lutero sobre o comércio de indulgências. Há meio milênio, quando surgia o capitalismo, também houve cartas de “crédito espiritual”, Uma carta de indulgência transferia méritos de terceiros a seu comprador. Para Lutero, esse comércio desmobilizava e acomodava a vida cristã.

 

O conteúdo das teses impressiona pela singeleza. Ela trazem duas grandes ênfases. A primeira é ouvir e fazer ouvir a Palavra que realmente importa, aquela que cria, salva e santifica. A segunda é viver na perspectiva de uma fé, recebida gratuitamente e sem mérito algum, que se expressa em ações coerentes com o evangelho. Uma fé que leve as pessoas a parar de olhar para o alto, para o céu e para a eternidade, e direcione seu foco para quem está a seu lado aqui e agora: “Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências (…) que quem vê um carente e o negligencia para gastar com indulgências obtém para si não as indulgências do papa, mas a ira de Deus”.

 

A Reforma foi um movimento religioso em uma sociedade na qual a religião ocupava o centro da cultura. Seu impacto foi marcante na política, no direito, na economia, na educação e nas artes, apenas para citar algumas dessas dimensões.

 

Celebrar seus 500 anos aponta para a necessidade de reavaliar o pensar e, especialmente, o agir nos dias de hoje, o comportamento em relação às pessoas, aos demais seres vivos e ao meio ambiente. Se a fé não está à venda, então as pessoas, os animais e o meio ambiente também não deveriam estar à venda. Ninguém recebe uma herança por merecimento, mas exclusivamente por graça. Daí vem o estímulo para entender a Reforma, não como algo concluído, mas como tarefa permanente.

 

Fonte: ZeroHora/doc/Ricardo Willy Rieth/Vice Reitor da Universidade Luterana do Brasil(Ulbra) em 29/10/2017.