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A Invenção do Ódio
A Invenção do Ódio

A INVENÇÃO DO ÓDIO

 

A polarização política chegou ao museu. A convidada do primeiro debate de um ciclo sobre o tema, que se inicia terça-feira na Fundação Iberê Camargo, comenta as origens do instinto agressivo que se faz presente, hoje, na vida cotidiana do país.

 

Por Marcia Tiburi

Filósofa e escritora, autora de RIDÍCULO POLÍTICO, entre outros livros.

 

Há muitos modos de explicar a presença e a intensificação do ódio na sociedade atual. Nas teorias que definem o ódio como uma espécie de afeto básico, ele estaria ao lado do amor em uma suposta estrutura emocional, como uma potência psicológica natural. Normal seria ora amar, ora odiar.

 

Em outras teorias, o ódio é efeito do medo, ou seja, é produzido em função de situações, pessoas ou coisas das quais surge a necessidade de se proteger. Por meio dessa visão, explicam-se as posturas paranoicas em cujo fundo está a aversão ao outro em uma potência doentia. Não é uma teoria sem fundamento. Ao contrário, é até mais interessante do que a primeira, pois parece apontar para além do essencialismo daquela. No entanto, substitui o ódio pelo medo e não resolve muita coisa.

 

Por meio dessas explicações as pessoas se esforçam por entender o fenômeno do ódio e, desse modo, suportá-lo. Se é possível que haja algum prazer, ainda que miserável, no ódio, é possível também que o odiador sofra com ele, que seja vítima do seu próprio ódio, pois às vezes o ódio é como um emprego infeliz, um casamento fracassado, uma impotência de ser que não se pode curar.

 

Essas teorias, contudo, não tratam de um aspecto fundamental do ódio, bem como do amor, ou de qualquer outro afeto. Ora, não há afetos que surjam fora da linguagem, ou que se sustentem para além dela. Instintos e pulsões podem ser trazidos à discussão para explicar o ódio, mas também são interpretados e ressignificados por meio da linguagem, sua única substância concreta.

 

Podemos objetar a isso que o ódio é um afeto praticamente carente de linguagem. Que ele tem mais chance de surgir em situações nas quais se verifica seu empobrecimento. Há jogo corporais e verbais que envolvem retóricas e mistificações de todo tipo, em um processo de deturpação da linguagem. Quantas vezes a linguagem é, mais do que empobrecida, violentada? Os meios de produção da comunicação e da informação em nossa época não administram essa violência?

 

O ódio produz efeitos e reproduz a si mesmo afetando a todos. Materializado em palavras e atos, evidencia sua relação direta e íntima com a violência. Ele é a energia de destruição e aniquilamento. Em seu cerne, a ideia de uma verdade como algo absoluto e a falta de dialética que torna o odiador incapaz de perceber o lugar e os direitos dos outros.

 

O ódio é a prótese emocional da violência. Funciona como um princípio antiético. Declarado como caráter decisivo e impositivo nos discursos, o ódio é uma operação linguística contra a qual apenas o diálogo tem força.

 

O diálogo, como experiência em aberto, é fundamentalmente ligado ao jogo de linguagem do amor, enquanto o discurso, a fala pronta, é de algum modo ligado ao jogo da linguagem do ódio. É como se o que nos aparecesse hoje na forma de ódio estivesse já contido como uma potência da linguagem – corporal ou verbal – que não dimensiona o outro; antes, tenta eliminá-lo.

 

Nesse sentido, enquanto fala pronta, todo discurso seria, de algum modo, apto ao ódio, e toda “expressão de ódio” teria algo de contraditória, pois o ódio é a morte da expressão e da comunicação que, quando realizada de maneira excelente, é sempre não violenta.

 

O ódio faz parte dos discursos religiosos de todos os tempos e continua lá, sustentado em dogmas, preconceitos e delírios. Basta lembrar da misoginia, da homofobia e do ódio ao sexo presentes na história do cristianismo, ou da xenofobia e do racismo bem conhecidos dos discursos políticos. No discurso econômico neoliberal, o ódio se manifesta com tranquilidade na defesa de uma sociedade em que há vencedores e vencidos, enquanto, nas redes sociais, o culto ao ódio divide espaço com o culto ao capital. Nas comunidades espectrais não se consegue ver essa diferença.

 

Todos esses discursos, de maneira astuciosa, jogam com o amor, pois ninguém suporta o ódio a seco e por muito tempo. Mas, para que o amor não se torne um puro manipulado da astúcia do ódio, teria que expandir-se como força realmente revolucionária.

 

Essa é a alquimia política necessária ao momento infeliz que atravessa o nosso país.

 

SERVIÇO: Ódio Sem Fio: Fascistas Racistas, Haters e Outros Bichos da Internet

 

Trata-se do primeiro de um ciclo de debates sobre a polarização ideológica do país, a ser realizado mensalmente no átrio da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, sempre com um convidado diferente – nesta edição, que aconteceu na terça-feira,dia 23, a partir das 19h30min, Marcia Tiburi. A curadoria é de Marco Antônio Valério.

 

Fonte: ZeroHora/Caderno doc em 21/01/2018.