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A Sociedade em Rede, de Manuel Castells
A Sociedade em Rede, de Manuel Castells

DE IDIOTA DA ALDEIA A PORTADOR DA VERDADE

 

Jornalista e mestre em Antropologia Social trata da potencialização da fala pelas redes sociais.

 

Por Ariele Cardoso

Jornalista e Antropóloga

 

A simpatia do brasileiro é um mito”. Foi o que disse Manuel Castells após passar pelo Brasil e acompanhar os protestos de junho de 2013. A declaração é de 2015, há mais de dois anos, portanto. Parece uma eternidade em se tratando da contemporaneidade e da nossa administração temporal, mas o debate é cada vez mais atual. Ainda segundo o sociólogo, “a imagem mítica do brasileiro simpático existe só no samba. Na relação entre as pessoas, sempre foi violento. A sociedade brasileira não é simpática, é uma sociedade que se mata. Esse é o Brasil que vemos hoje na internet. Essa agressividade sempre existiu.”

 

É sempre importante lembrar que a internet não é um ser, um ente todo-poderoso que controla nossas emoções, domina nosso cérebro e determina nosso comportamento. É inegável a influência que os conteúdos que acessamos têm sobre nossas personalidades, mas temos que ampliar a consciência de que somos nós, seres humanos, que estamos nos expressando. A internet é reflexo, é amplificação. São nossos parentes, nossos pais e nossas mães, são nossos amigos os que utilizam os meios digitais. São essas pessoas que, conectadas, fazem com que a internet tenha voz. Nenhum texto ali publicado foi escrito por robôs acéfalos. Se bem que, atualmente, não é fácil considerar que muitas das opiniões partem de pessoas que replicam conteúdos como se fossem robôs.

 

A crítica é dura, eu sei, mas não haverá mudança neste quadro se não passarmos essencialmente por duas etapas: desmitificação e conscientização. É preciso escancarar o que somos. E não somos tão bonzinhos quanto imaginávamos. Como disse Castells, “na verdade, a sociedade é bastante má”. Estamos querendo impor nossas crenças e valores ao outro, como se isso fosse possível. Estamos julgando quem pensa diferente justamente por não admitirmos a pluralidade. O contrário e o contraditório não são mais compreendidos como uma fundamental característica da humanidade, mas como um mal a ser eliminado. Estamos agressivos e intolerantes, numa proporção cada vez maior.

 

Em defesa de “valores tradicionais”, da “família” ou do “cidadão de bem”, proíbem-se atrações culturais e artísticas. Calam-se vozes. O encerramento em setembro da mostra “Queer-museu – cartografias da diferença na arte brasileira” no Centro Cultural Santander reacendeu o debate sobre censura, tão característico de tempos que acreditávamos terem ficado no passado. Postagens contrárias à exposição mantinham alto índice de compartilhamento e culminaram com protestos locais. Casos como o do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) e do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp) são reflexos desse primeiro evento em Porto Alegre. No MAM a crítica foi direcionada à performance “La Bête”, releitura da obra “Bicho”, de Lygia Clarck. O compartilhamento de um vídeo onde uma criança interagia com um homem nu deitado no chão deu início a uma onda de julgamentos do que consideraram ser um “incentivo à pedofilia”. No MASP, a mostra “Histórias da Sexualidade” recebeu uma classificação indicativa para maiores de 18 anos, que foi interpretada como uma forma velada de censura, depois de o museu sofrer pressão de grupos conservadores. A classificação, que impedia o acesso de menores, mesmo acompanhados pelos pais,foi revista posteriormente, após críticas e requerimentos judiciais.

 

Outra manifestação originária da internet teve desfecho bastante raivoso “fora” das redes. No dia 7 de novembro, em frente ao SESC Pompeia, alguns manifestantes atearam fogo em uma boneca que representava Judith Butler enquanto gritavam “queimem a bruxa”. O ato presencial ocorreu após diversas publicações em redes sociais requererem o cancelamento da participação da americana no seminário internacional “Os Fins da Democracia”. O principal argumento era o de que a filósofa fazia apologia ao que chamam “ideologia de gênero”.

 

É preciso refletir sobre os limites de expressão e relembrar o que disse o escritor e filósofo italiano Umberto Eco, em junho de 2015: “As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel. O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.”

 

Tempos de liberdade e de censura. Tempos de contradição. Tempos de escancaramento da nossa natureza. Tempos sombrios. É preciso concordar com Castells: “a simpatia do brasileiro é um mito”.

 

Fonte: Correio do Povo/Caderno de Sábado em 09/12/2017.