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Lorde, Cantora Neozelandesa e o sucesso.
Lorde, Cantora Neozelandesa e o sucesso.

UM MISTÉRIO CHAMADO LORDE

 

Cantora neozelandesa Lorde colocou seu pop esquisito e sombrio no topo das paradas. Me tira o sono como uma artista que não se encaixa nos padrões da indústria consegue vencer.

 

Parte do meu trabalho é ficar ligado no mainstream. De qualquer gênero. E na maior parte do tempo, ele segue uma linha óbvia, quase sempre previsível. Mas de quando em quando surge algo fora da curva. Daí, bom, eu fico realmente desgraçado da cabeça. É o caso da Lorde. A Lorde me tira o sono.

 

Vou ser didático: o mainstream trata do que é sucesso, do que é popular. Para ser popular é preciso necessariamente atingir o máximo de pessoas possível. E isso você só consegue com produtos com pouca ou nenhuma personalidade e desprovidos de ambição artística. Logo, está tudo certo quando a gatinha curvilínea ou o rapper marrento da semana figuram nos trend topics do mundo. Lorde, não.

 

Entendo ela ter ganhado atenção por Royals e Tennis Court. Ainda que construídos por colagens eletrônicas pouco convencionais e cantados por uma neozelandesa que não se encaixa nos padrões estéticos de uma popstar, são hinos de autoaceitação salpicados de ironia adolescente. Melodrama é outra história. Suas 11 faixas que, além de manterem o apreço pelo pop eletrônico esquisito, tratam de rompimento, de como ela não entendeu o que aconteceu, de como não sabe como lidar com isso e de como está longe de um final feliz. A única luz no fim do túnel é uma armadilha, como ela canta em Liability: “Eles vão me assistir desaparecer no sol”.

 

Pelo seu conteúdo lírico, Melodrama deveria estar na categoria black metal. Uma mulher sangrando o fim do relacionamento do início ao fim de um álbum? Apenas Adele parecia ter moral para tanto. Mas a Universal, uma gravadora gigante, que te m Demi Lovato, Drake e o cara do Despacito no elenco, bancou Lorde. E ela entregou o cadáver cheio de mágoa do seu amor adolescente em forma de disco. Mesmo quando produz uma faixa orientada para pista de dança, como o single Green Light, a mensagem é clara: “Eu sei o que você fez e quero gritar a verdade / ela pensa que você gosta de praia, mas é um baita mentiroso”.

 

O tom, no entanto, não é de condescendência. De vitimismo, Lorde não se sente vítima de seu infortúnio. Ela sabia que ia acontecer, sentia o inevitável. “Três anos, amei você todo santo dia, me fez fraca, foi real para mim / agora eu vou fingir todo santo dia até não precisar de fantasias, até eu sentir você partir”, diz em Hard Feelings / Loveless.

 

Então voltando: não era para dar certo. Mas com uma semana de lançamento, o disco entrou no topo das paradas de sucesso nos EUA e nos serviços de streaming e sua autora virou headliner de festival de verão. Claro que é bem produzido. Claro que é bem comercializado. Mas a conta não fecha quando se olha para quem está ao redor de Lorde. Ela é um solitário ponto fora da curva. E isso me deixa desgraçado da cabeça – além de satisfeito e feliz por entender que ainda há espaço para quem não se encaixa.

 

Fonte: ZeroHora/2º Caderno/Gustavo Brigatti (gustavo.brigatti@zerohora.com.br) em 04/07/2017.