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"Oldchella" ou Desert Trip Festival
"Oldchella" ou Desert Trip Festival

OLDCHELLA

 

Imaginem um megaevento de rock em que todos os artistas no palco nasceram antes de o rock ser inventado.  Não por acaso, o festival Desert Trip ganhou o apelido de “Oldchella” (brincadeira com o Coachella, evento realizado anualmente na mesma vizinhança).  Somadas, as idades de Mick Jagger, Roger Daltrey, Pete Townshend, Neil Young, Keith Richards, Paul McCartney, Roger Waters e Bob Dylan contam mais do que cinco séculos em anos – e sabe-se lá quanto em substâncias químicas e fortes emoções.

 

Essa celebração única da incontestável gerontocracia do rock, que levou fãs de todas as idades e de todas as partes do mundo à Califórnia em outubro/2016, ganhou uma nova rodada uma semana depois – quando, entre outros representantes do primeiro escalão da música, sobe ao palco o vencedor do Nobel de Literatura de 2016.  O mais importante evento musical do ano e a maior e mais cobiçada premiação literária do mundo cruzaram caminhos naquela semana graças a Bob Dylan.  É como se a geração que inventou o rock, a revolução sexual e a própria ideia de juventude estivesse celebrando, a um  só tempo, a longevidade criativa de seus ídolos, capazes de ainda atrair plateias gigantescas, e o reconhecimento “do sistema”, simbolizado pela láurea da Academia Sueca.

 

Os milhares de ingressos vendidos para o festival e o prêmio para Bob Dylan são simbólicos, mas a geração que transformou a juventude em um ideal de comportamento e consumo envelheceu (como todas), e a música que um dia foi associada à ideia de rebeldia agora faz parte, oficialmente, do cânone acadêmico.  Nas listas dos artistas mais vendidos no Brasil e nos Estados Unidos, o rock perdeu a relevância.  Letras incisivas, como as que Bob Dylan compôs, agora são embaladas por outros ritmos.  Como Gil, Caetano, Chico e Paulinho da Viola, a realeza sem herdeiros naturais da MPB, os medalhões reunidos pelo festival Desert Trip em outubro talvez sejam os últimos de uma linhagem que não fará sucessores – entre outros motivos porque a indústria fonográfica, os meios de comunicação e o próprio “star system” também já não são os mesmos..

 

Ainda assim – sabemos – as pedras não param de rolar.  E é bom imaginar que aquele garoto que hoje faz uma música que você não entende ou não gosta, vai saber, pode ser um futuro Prêmio Nobel.

 

 

Fonte:  ZeroHora/Cláudia Laitano / claudia.laitano@zerohora.com.br em 14/10/2016