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Lima Barreto, homenageado da Flip de 2017
Lima Barreto, homenageado da Flip de 2017

PROCURAMOS GRANDE AUTORES, NÃO SÓ DIVERSOS

 

ENTREVISTA COM JOSELIA AGUIAR – Curadora da FLIP 2017

 

Jornalista especializada na área cultural, Josélia Aguiar foi anunciada em outubro de 2016 como a nova curadora da Festa Literária Internacional de Paraty. Sua participação à frente do evento se dá na sequência de uma polêmica que marcou a edição anterior da festa, a manifestação, antes e durante o evento, de artistas e intelectuais a respeito da ausência de negros na programação. Na lista de convidados para este ano, dois dos principais nomes são Marlon James e Paul Beatty, autores negros vencedores do Man Booker Prize em 2015 e 2016, respectivamente. Mas a jornalista baiana radicada em São Paulo, também com formação em história, vem tentando afastar o rótulo de uma Flip ativista que vem sendo construído desde a divulgação dos nomes.

- Pode parecer que é só uma reação, mas é, na verdade, um percurso que eu já vinha fazendo – diz ela, que vem, desde 2011, trabalhando numa biografia de Jorge Amado para a editora Três Estrelas.

 

A Flip de 2016 foi criticada pela falta de escritores negros. Este ano, Lima Barreto é o homenageado e dois dos convidados principais são Marlon James e Paul Beatty, autores negros. É uma programação que responde às críticas?

 

A diversidade é tão falta de costume que se tornou a primeira notícia do programa da Flip. Se você for ver, estamos destacando o fato de que nesta edição temos mais literatura e interação entre as artes. Alguns veículos falaram em “maioria de mulheres”, quando na verdade temos 24 a 22. Dizer que a Flip é “feminina e negra” é um exagero que, de novo, só posso pensar como falta de costume, ou também porque alguns setores ficaram felizes e assim escreveram para comemorar. Temos 30% de autores negros, não dá para dizer que a Flip é negra. É uma Flip paritária e com autores negros que, em geral, não são encontrados nos eventos literários brasileiros, o que devia ser mais espantoso. Na Flip de Lima Barreto, não era possível deixar de pensar nisso.

 

Você parece evitar o rótulo de uma Flip “ativista”.

 

De novo, há aí um mal-entendido. Eu disse que tinha escutado os ativismos, mas não disse que faria ativismo no programa. Na verdade, temos uma mesa apenas sobre racismo e uma mesa sobre ativismo, ambas relacionadas a Lima Barreto. As outras tratam de muitos assuntos. O que notei desde que virei curadora é que o fato de que estava procurando autoras mulheres e negros os fazia pensar que faria uma Flip mais próxima de um simpósio sobre racismo ou um simpósio sobre feminismo. Esses eventos acontecem em universidades, think thanks etc. Na Flip, estamos tratando de literatura, com grandes autores do momento que ainda não tinham sido apresentados totalmente ao Brasil. Quero que os leitores que forem a Paraty se interessem pelos livros.

 

Na programação, há mesas que discutem jornalismo, autoficção, ficção histórica, mitologia, viagens. É um panorama do mundo literário?

 

Sim, mas isso tudo passa pelo fato de que nosso homenageado é o Lima Barreto. Ele nos permite levantar muitos dos debates literários, depois que se começou a falar tanto de autoficção, depois que Svetlana Aleksiévitch, com seu jornalismo, venceu um Nobel e depois que o Bob Dylan, com sua letra de música, venceu um Nobel. Depois que cresceu o debate do lugar de um nome como Carolina de Jesus nas letras brasileiras. Depois que a poesia concreta completou 50 anos, depois que floresceram as performances poéticas e o slam/sarau das periferias. Lima Barreto nos permite isso tudo. Ele fez conto, romance, sátira, memória, diário, critica literária. Inovou em todas as frentes.

 

A programação também abre o leque do que se discute por literatura?

 

Completei esse ano a biografia de Jorge Amado, um projeto que me fez acompanhar um século de vida literária brasileira. A sensação que tenho é que o leitor nunca é informado de que a ideia do que é literatura não é consensual. Alguns ficam com o que foi estabelecido no século 19, outros questionam essa formulação, retornando à antiguidade e mesmo incorporando ideias contemporâneas. O leitor precisa ser informado disso, senão ele não vai compreender o que os resenhistas dizem e por que divergem. Mesmo a definição dos grandes nomes é bem problemática, e ano passado tinha gente discutindo se Ana Cristina Cesar era “menor” ou “maior”, um tipo de comentário muito atrasado, a meu ver.

 

Passa por isso o fato de que a programação tem poucos nomes conhecidos?

 

Nós temos grandes nomes nesta edição, apenas não são conhecidos ainda do leitor brasileiro. Mas isso a Flip sempre fez. Procuramos sempre grandes autores, não só diversos. Marlon James e Paul Beatty são ganhadores do Man Booker Prize. Deborah Levy foi finalista várias vezes e quase ganhou no ano passado. William Finnegan é repórter da New Yorker e ganhador do Pulitzer. Sjón, letrista de Bjork, é o “grande romancista do norte”, traduzido em dezenas de países. Luaty Beirão é um rapper/ativista que foi notícia por causa da greve de fome que fez ano passado. Scholastique Mukasonga tem toda a obra publicada pela Gallimard. Note que os grandes nomes que existem hoje, atração de muitos eventos literários, foram trazidos primeiro pela Flip.

 

Fonte: ZeroHora/Carlos André Moreira (carlos.Moreira@zerohora.com.br) em 08/06/2017.