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Entrevista com Wole Soyinka
Entrevista com Wole Soyinka

ENTREVISTA COM WOLE SOYINKA

 

SERÁ DIFÍCIL MATAR A LITERATURA”

 

Nascido na Nigéria, primeiro africano ganhador do Nobel de Literatura, em 1986, Wole Soyinka esteve no RS a convite da Bienal do Mercosul (2017), para falar na 63ª Feira do Livro de Porto Alegre. Nesta entrevista para o CS ele trata de tolerância, diversidade, arte de guerrilha e dos métodos que usa para escrever suas obras.

 

 

O senhor defende como escritor e intelectual um mundo de diversidade e tolerância. O momento atual pode ser visto comode retrocesso em relação a esse ideal?

Um pouco de duas coisas. Está retrocedendo, mas também está evoluindo. A maioria das pessoas considera a diversidade como algo bom. Sem diversidade a vida seria muito enfadonha. Mas houve momentos na história em que grupos usavam esse tipo de questão para explorar outros. Havia uma ideia de que eliminar a diversidade equivaleria a suprimir as diferenças de classe, as diferenças sociais. Mas essa ideia é falsa. Quem pensava assim não entendia que as diferenças culturais costumam melhorar a produtividade e o entendimento entre as pessoas. Estamos, porém, retrocedendo em termos de tolerância. É o que se vê, por exemplo, com o islamismo radical.

 

 

O mundo ocidental tem como aceitar essa ideia de pluralidade?

Nas minhas experiências no Brasil, em Cuba e na Colômbia, encontrei pessoas que se identificam com essa cultura pluralista. Há quem retorne à África para se reconectar com esses valores. O sincretismo mostra que se a pessoa está com a mentalidade aberta essa convivência é natural.

 

 

O senhor disse que tem a impressão de que parte dos brasileiros tem essa ligação com a África e que outra parte a ignora. É isso mesmo?

A nossa cultura carrega em si a concepção de diversidade. Entendemos e aceitamos que existam outras visões de mundo, que não são excludentes. Na África, o islamismo e o cristianismo entraram, mas não se foi tentar resgatar os que se converteram. Nossa postura é de convivência e de aceitação das diferenças. Há até quem se converta por loucura.

 

 

O senhor tem apontado o Boko Haram como a grande ameaça na Nigéria. Como foi possível que um grupo extremista islâmico se encravasse numa cultura de tolerância?

O fato é que entre os convertidos ao islamismo radical que mais levam ao pé da letra o que defendem, muito poucos são de origem iorubá. Conheço um líder iorubá, membro do governo, radicalizado que não deixa a esposa receber em casa ninguém que não seja convertido ao islamismo. Tem um membro do governo que usa luvas para não tocar com as mãos nuas em nenhuma mulher nas suas ações oficiais. Mas esses são exemplos raros.

 

 

Escritor político, o senhor esteve preso, critica ditadores e não poupa o autoritarismo. A queda de Robert Mugabe será a libertação do Zimbábue ou apenas mais um capítulo numa longa novela de ditaduras?

Em todas as sociedades existem homens que acreditam ter encontrado o segredo da vida e da morte. O mesmo vale para o poder. Existem homens que acreditam saber como nunca mais perder o poder. Mugabe, no começo, lutou de maneira libertária para livrar seu país da opressão colonialista. Com o passar do tempo, no entanto, alienou-se e passou a praticamente se identificar com as forças coloniais expulsas. Para nossa cultura, porém, não existe poder eterno. A hora de Mugabe teria de chegar. Mugabe não é o fim nem foi o começo de coisa alguma. Ele é apenas mais um capítulo nessa marcha rumo à libertação, uma das últimas figuras a ainda a acreditar na perenidade do seu poder.

 

 

A saída desse tipo de homem muda um país ou é só mais uma ilusão?

Há algum avanço, pois essa saga de Mugabe foi instrutiva no sentido de que a oposição ficou mais madura. Os generais estão tirando-o do poder lentamente de modo a evitar uma ruptura traumática.

 

 

Durante um tempo o senhor dizia fazer teatro de guerrilha. Hoje, consagrado pelo Nobel, ainda faz uma espécie de arte de resistência?

Se eu continuasse a fazer sempre o mesmo teatro, sofreria uma espécie de atrofia mental. O meu teatro também precisa de diversidade. A minha última peça é meio uma farsa que trata do fato de que muitas pessoas se recusam agora a falar a língua iorubá com o sotaque certo. Falar sem esse ritmo, de uma língua tonal, é perder metade da sua força. Como é difícil ficar livre de um hábito, contudo, agora me dou conta de que dentro dessa minha peça tem algumas críticas a governantes.

 

 

O senhor disse que não consegue entender os escritores que levantam de manhã e já começam a produzir. É muito difícil escrever?

Não sou um escritor metódico. Gosto de ter bastante tempo para trabalhar. Posso virar madrugadas. Às vezes, dou uma parada, tomo um expresso e, quando me fala inspiração, saio para dar uma caminhada. Quando a inspiração vai embora, é preciso fazer outra coisa, ouvir música, andar, espairecer. É dessa maneira que trabalho.

 

 

Há sempre um grande interesse pela “cozinha” dos escritores. Hemingway dizia trabalhar 12 horas por dia para obter um parágrafo. O senhor consegue produzir grandes fragmentos de texto num único dia de trabalho?

O meu processo é muito parecido com o de um escultor. Quando um escultor começa normalmente ele tem uma ideia de onde quer chegar, mas ao tirar pedaços da pedra vê que sua ideia inicial pode ser redirecionada para outro lugar. Hoje, com o computador, é uma pena não termos mais provas físicas desse trabalho de transformação, desse suor, ver todas as páginas que foram arrancadas e rasgadas, tudo que foi riscado. Eu me sinto assim.

 

 

O escritor francês Michel Houellebecq diz que quando está possuído por uma ideia precisa escrever para se livrar dela. Acontece com o senhor?

Quando sou possuído por uma ideia tenho pena das pessoas à minha volta. Nesses momentos, tudo que não seja escrever, como dar aula ou receber pessoas, vira inimigo. Quando vejo uma modelo rindo numa propaganda como essas de creme dental, com aquele sorriso falso, sei que é exatamente assim que fico quando estou possuído por uma ideia que precisa sair.

 

 

A literatura tem futuro num tempo em que, segundo uma pesquisa, duas pessoas em cada três veem Netflix até mesmo quando estão na rua?

Será difícil matar a literatura não só pelo poder da palavra escrita, mas por causa do livro como objeto. Não sei o que é Netflix. Prefiro ver filmes no cinema. Tento ver no avião, mas acabo dormindo. Trabalho nos aviões e talvez durma rapidamente por já estar esgotado.

 

 

Por que o teatro lhe parecer a forma de expressão mais conveniente?

Nasci num meio muito teatral, com muito teatro de rua e muitas mascaradas, que são espetáculos metade sagrados metade profanos. Cheguei a escrever contos. Na verdade, sou atraído por muitos meios de expressão. Eu me sinto um arquiteto fracassado, um músico fracassado…

 

 

Uma frase sua diz que “o homem morre em todos os que se calam”. Calar não é em certas circunstâncias a única forma de sobreviver?

Nessas circunstâncias é uma estratégia pessoal e cabe a cada um perceber quando é o momento de esperar um pouco, inclusive de aconselhar os outros a esperar. Outra situação que exige o silêncio é quando a gente fala, fala e vê a sociedade fazendo exatamente o contrário do que lhe é dito. É insuportável ficar ouvindo a própria voz cair no vazio. Outro momento para calar é quando surge uma nova geração para assumir certas causas. Dá vontade de deitar a cadeira e pegar uma taça de vinho.

 

 

Um escritor num pais africano ou no Brasil, lugares de muita desigualdade, tem a obrigação de falar, de denunciar, de se engajar?

Não. Eu não vejo qualquer problema em literaturas escapistas como a ficção científica, que são produtos da imaginação, pois elas, às vezes, apontam outros modos de vida não diretamente políticos. O engajamento obrigatório pode resultar em pura propaganda.

 

 

Ano passado, estive em Moçambique. É lindo e chocantemente pobre como muitas partes do Brasil. O senhor consegue imaginar num tempo razoável uma África democrática, desenvolvida e igualitária?

Sim. Estamos a caminho disso, mas muito lentamente. Eu me sinto incomodado quando estou ao volante do meu carro e vejo crianças mexendo no lixo em busca de comida. Machuca a alma e deixa até o que comemos com gosto ruim. A África, porém, não precisa inventar a roda. Coisas já mudaram.

 

 

O Brasil é o décimo país mais desigual do mundo. A África do Sul é o primeiro. A desigualdade tornou-se o principal ponto em comum entre Brasil e África?

Visitei favelas brasileiras. É uma pobreza muito similar à que temos na África. Lembro dos protestos na época da Copa do Mundo para que o evento não acontecesse por causa dessa desigualdade. Apesar disso, não é necessário esperar que todos sejam iguais para que alguns progressos ocorram. Não devemos sobretudo ficar esperando assistencialismo externo.

 

Fonte: Correio do Povo/CS/Juremir Machado da Silva em 25/11/2017.