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Entrevista com Isabel Allende
Entrevista com Isabel Allende

ENTREVISTA COM ISABEL ALLENDE

 

Donald Trump vai passar”

 

Para Isabel Allende, é preciso ver a adversidade como oportunidade para criar um futuro: “Estão nos dando chance para sonhar”.

 

A escritora latino-americana que mais vende livros, já acima da casa dos 70 milhões de exemplares, completou 75 anos e acrescentou mais um título à sua extensa bibliografia. MUITO ALÉM DO INVERNO (Bertrand, 294 páginas) nasceu do fim de seu casamento de 28 anos e de sua preocupação com o aumento do drama dos refugiados em um hemisfério Norte cada vez mais conservador.

 

Fruto da extensão de seu trabalho na fundação criada em homenagem a Paula, a filha que morreu em 1992 com apenas 29 anos, o livro é centrado em três personagens: o acadêmico Richard, de origem judaica, que fala português fluentemente e viveu no Rio; a intelectual chilena Lucíare e a fugiada guatemalteca Evelyn. Lucía tem muito da curiosidade e energia incansável da própria Isabel, Richard é inspirado no irmão da escritora e Evelyn é um amálgama de jovens cujos destinos se aproximaram dos da autora no norte da Califórnia, região que escolheu para viver. O destino os une em uma aventura que atravessa o continente americano, do Canadá ao Chile, passando pelo Brasil e México.

 

Prima do ex-presidente Salvador Allende (1908-73), que morreu no golpe militar que desencadeou a ditadura do general Augusto Pinochet (1915-2006), Isabel viveu, ela mesma, as amarguras de ser uma refugiada política, primeiramente na Venezuela, depois nos Estados Unidos. “Escrevo sobre o que sei, o que sinto, o que acredito compreender”, diz.

 

Leia, a seguir, a entrevista com a autora dos celebrados A CASA DOS ESPÍRITOS e PAULA:

 

 

Richard, um dos protagonistas de MUITO ALÉM DO INVERNO, viveu no Rio. Lá ele se casa, inicia uma família, vive uma tragédia e parte da trama se dá tanto na capital fluminense quanto na Bahia. Por que decidiu passear por solo brasileiro desta vez?

Adoro o Brasil e o Rio, especificamente, mas foi tudo fruto das necessidades da trama. Richard fala português e precisava voltar às raízes de sua família. Seu pai escapou do Holocausto por umas das rotas possíveis à época, via Lisboa, onde conheceu a mãe de meu personagem. Richard cresceu em Portugal, aprendeu a língua e se tornou professor de estudos latino-americanos, algo fundamental para a trama. Foi assim que fui parar no Brasil desta vez.

 

 

A senhora já passou pelo Brasil muitas vezes. Usou de sua memória para criar os personagens brasileiros, como Anita e a família Farinha?

Sim. O espírito dos cariocas, por exemplo, é algo de que jamais me esquecerei. A cultura também. Criatividade, originalidade, alegria de vida, são valores muito especiais que um gringo percebe logo ao chegar à cidade. Claro, o sertão é muito diferente do Rio, e eu sei disso. Não quis criar uma caricatura desse Brasil que aparece no livro. Quando falo do Brasil, no hemisfério Norte, as pessoas tendem a pensar no seu país como “aquele lugar tropical”. Bem, não é [risos]. O Brasil é bem mais complexo do que essa noção de imensidão nos trópicos.

 

 

Evelyn é guatemalteca. Lucía é chilena. A geografia é crucial para se entender a trama de MUITO ALÉM DO INVERNO?

Sim, por isso os capítulos indicam onde estamos em cada momento da narrativa. Mas cada personagem me chegou de modo diverso. Evelyn foi a mais fácil, ela é baseada em uma série de jovens com quem trabalhei na minha fundação voltada para a ajuda de imigrantes não regularizados nos EUA. Há situações com que lidamos diariamente ainda mais complicadas do que a dela, cuja imigração está relacionada à violência organizada na América Central. Lucía também nasceu de modo orgânico; ela tem traços de minha vida, de minha personalidade. É um outro “eu”, mesclado com algumas amigas próximas, jornalistas que tiveram que deixar o Chile, mulheres que sofreram com o desaparecimento de familiares durante a ditadura. E Richard foi inspirado em meu irmão, um cientista político especializado em América Latina, que tem uma vida muito regrada, com seus quatro gatos e alimentação vegetariana. Foi tentador copiá-lo e trazê-lo para as minhas páginas [risos]. O livro é uma carta de amor a ele…

 

 

Ele passou também pela experiência do exílio. Como a senhora e a fundação reagiram à eleição de Donald Trump em 2016?

Precisamos nos lembrar de que a crise dos refugiados e o avanço do conservadorismo não são problemas exclusivos dos EUA. É muito tentador tratar dos refugiados ou dos imigrantes não regularizados em termos de números, de forma abstrata. Os encaramos como crises políticas ou humanitárias, mas, muitas vezes, deixamos de dar uma face a essas pessoas, de as tratar como os indivíduos que são. A partir do momento que você escuta as histórias dessas pessoas, a coisa muda de figura.

 

 

E é a história de Evelyn que dá ignição ao seu novo livro…

Sim. Escrevo do ponto de vista de alguém que foi, um dia, uma refugiada política e é, ainda, uma imigrante. Documentada, mas também estrangeira. Sei exatamente como é viver longe de sua terra, de sua família, de sua língua, de sua cultura. Escrevo sobre coisas que conheço. E entendo que cada tragédia da imigração é diferente em si. Em geral, elas se unem apenas pelo desespero que motivou decisão tão drástica de se abandonar uma vida em busca de outra. Miséria, violência, perseguição política ou de gênero, guerra. Quando vejo essas pessoas, enxergo a vontade de sobreviver a esses males. Ainda que em geografias tão distantes quanto hostis à chegada deles.

 

 

Mas a situação dos imigrantes não regularizados piorou ou não nos Estados Unidos depois da eleição de Donald Trump?

A possibilidade de uma reforma do sistema de imigração ficou, sim, bem mais distante. Mas é importante lembrar que sempre houve, aqui nos EUA, o sentimento anti-imigração, racismo, xenofobia. Com Trump, o que mudou foi o megafone por ele oferecido para os grupos, de representação diminuta na sociedade, interessados em propagarem ideias radicais de direita. Não é que os indivíduos racistas se multiplicaram da noite para o dia, mas agora eles fazem barulho. Agora eles saem com suas indumentárias de Ku Klux Klan abertamente nas ruas do país. Alguns gritam palavras de ordem nazistas. A diferença é que eles perderam a vergonha. Mas isso irá passar.

 

 

A senhora acredita que este é um retrocesso momentâneo?

Não tenho a menor dúvida. É mais um movimento do pêndulo da história. Que agora está retornando depois de uma série de avanços. Sou uma senhora de 75 anos. E escrevi alguns romances históricos, passei a vida me debruçando sobre a história. Quando olho para trás, vejo o quanto caminhamos em meu tempo de vida. Evoluímos, é inegável. Andar em círculos ou votar para trás são ilusões, miragens causadas pela velocidade desse pêndulo tão caprichoso. Pense na América Latina. Vivemos nosso longo inverno político e saíamos dele. Quando fui forçada ao exílio, metade da população latino-americana vivia sob regime de exceção. Repressão e todo tipo de atrocidades eram cometidas em nome das ditaduras. E mesmo com as complicações dos dias de hoje, inclusive com as forças progressistas terem compactuado com a corrupção, ainda assim, estamos bem melhores do que na segunda metade do século passado, com ditaduras terríveis. Esse frio há de passar.

 

 

Oque a senhora acha que é possível fazer para enfrentar este “novo inverno”?

Não se render. É preciso resistir, algo que sempre soubemos fazer bem em nosso campo. O desespero só serve para dar munição para os interessados em voltar o relógio do tempo. Nosso tempo é o momento da união, da esperança, do ativismo, de dar as mãos para o outro e seguir em frente, juntos. Uma vez mais precisamos ver a adversidade como oportunidade para criarmos um futuro quase que desde o início. Estão nos dando chance para sonhar de novo. Não dá para fechar a cara e acreditar estarmos lidando com algo inevitável. Não estamos para sempre condenados a viver sob a liderança de figuras como Donald Trump. Vai passar.

 

 

A senhora começa seu novo livro com uma frase de Albert Camus (1913-1960) retirada de um livro cujo título é justamente MUITO ALÉM DO INVERNO, publicado em 1952. Ele escreveu que “no meio do inverno aprendi, finalmente, que havia em mim um verão invencível”. A referência aqui é ligada ao momento em que vivemos ou trata de algo mais pessoal?

No fim das contas escrevo meus livros para mim. Não tenho interesse em fazer peças de propaganda política ou mesmo de passar mensagens, recados específicos para o leitor. Nunca fui ingênua a esse ponto. Tenho muitas dúvidas, poucas respostas e quero contar histórias relevantes para mim a esta altura da vida. É por isso que escrevo. Escrevi um livro sobre a histórica revolta dos escravos no Haiti e demorei anos para descobrir o que interessava tanto naquela narrativa a uma escritora chilena, um país cuja colonização foi poupada do grande latifúndio de caráter escravagista. Ora, era a impunidade dos poderosos e com esse tema eu tinha grande intimidade, assim como uma pessoa negra nas Américas quando parada por um policial nas ruas de uma grande cidade. Prestar contas por seus atos é algo que me interessa profundamente, como escritora, cidadã e pessoa pública.

 

 

A senhora dedica MUITO ALÉM DO INVERNO a Roger Cukras, pelo “amor inesperado”…

Pois é. Depois do fim de um casamento de 28 anos, estava triste e solitária. Por isso foi importante para mim, depois de ler Camus, começar a escrever sobre pessoas que também estavam passando por seus invernos emocionais e haviam encontrado uma maneira de sair deles. Comecei a escrever, como de praxe, no dia 8 de janeiro [data em que ela iniciou seu primeiro livro, uma carta a seu avô, A CASA DOS ESPÍRITOS]. Em maio, o livro já estava bem estruturado, quando um sujeito do Brooklyn me ouviu dando uma entrevista no rádio e ele começou a mandar e-mails para meu escritório. Ele me dava bom-dia, mandava imagens de seu cappuccino e começamos a estabelecer um diálogo. Era um viúvo, não um fã ardoroso, havia lido alguns livros meus apenas, e a coisa toda foi indo em um fluxo bem sereno. Passamo a dar bom-dia e boa-noite por e-mail todos os dias, jamais nos telefonamos. Finalmente, cinco meses depois, nos encontramos quando fui a Nova York a trabalho, no outono. Depois do segundo encontro, a conexão foi tão intensa que iniciamos um caso de amor. Dediquei o livro a ele porque no processo de finalizá-lo encontrei amor uma vez mais. Nos apaixonamos e ele se revelou um sujeito bem corajoso.

 

 

Por que a senhora diz isso?

Ora, aos 74 anos, Roger vendeu a casa dele e está largando toda sua vida na Costa Leste e se mudando para minha casa na Califórnia neste mês [dezembro]. Ele vem apenas com uma bicicleta e algumas roupas. É um risco enorme para nós dois e uma enorme mudança para ele. E estamos felicíssimos.

 

Fonte: Revista Valor / Eduardo Graça em 05/01/2028