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Paulo Freire, por Thiago Ingrassia Pereira
Paulo Freire, por Thiago Ingrassia Pereira

O QUE PAULO FREIRE TERIA A DIZER?

 

Para alguns e algumas, Freire representa o que temos de melhor na teoria educacional brasileira. Para outros e outras, passa por esse autor as nossas mazelas educacionais reveladas a cada levantamento dos sistemas de ensino. A notoriedade de Freire produz posições de adesão e resistência ao seu pensamento. Assim como acontece com outros autores e autoras de relevo, há muitos e muitas freireanos(as) que nunca leram, de fato, Freire. Assim como existe muita gente que não gosta de Freire e nunca se prestou a ler algumas páginas de sua extensa obra. Em tempos de “pós-verdade” e de extrema circulação virtual de informações, precisamos ir construindo o hábito de ter cuidado com as fontes que sustentam nossas posições.

 

O livro PEDAGOGIA DO OPRIMIDO, que nesse ano completa 50 anos de sua escrita, é considerado uma das principais obras da filosofia da educação do século XX. Talvez isso explique sua tradução para mais de 40 idiomas e as sucessivas edições utilizadas como referências nas principais universidades do mundo. Contudo, a obra de Freire vai muito além, sendo reconhecida internacionalmente com muitos títulos de Honoris Causa, distinção acadêmica outorgada a quem obtém notório destaque em sua área de atuação. Paulo Freire é um autor identificado com a construção de um método de alfabetização de adultos e adultas que parte do pressuposto que a “leitura de mundo precede a leitura da palavra”, ou seja, que o processo de alfabetização deve considerar o universo cultural (dos(as) alfabetizandos(as). Partir da realidade dos(as) estudantes não significa ficar nela, pois o processo de ação cultural deve proporcionar repertório suficiente para uma compreensão sofisticada da realidade.

 

Estamos diante de um autor que construiu uma pedagogia de síntese, se servindo de fontes teóricas diversas como a fenomenologia, o existencialismo, o humanismo e o materialismo histórico-dialético. Além disso, Freire assume seu cristianismo católico e se aproxima do movimento chamado teologia da libertação. O pensamento freireano, assim, antecipa tendências interdisciplinares e da própria teoria da complexidade. Tenho como pressuposto que as ideias pedagógicas de Paulo Freire seguem atuais. Sigo na linha que o próprio Freire indicava acerca da necessária reinvenção de seu pensamento pedagógico. Ao repetir o que Freire escreveu, ao citar frases soltas ou chavões e copiar passagens atribuídas ao autor que circulam pela internet, podemos não ser freireanos(as) ao achar que somos. Ser freireano(a) não é criar a “igrejinha” ou o “clubinho” do Freire, mas é assumir pressupostos políticos, epistemológicos e metodológicos. Em outras palavras, é assumir uma determinada postura como educador(a), pesquisador(a) e militante.

 

Ciente das polêmicas em torno desse autor, escrevi um pequeno livro, A ATUALIDADE DO PENSAMENTO PEDAGÓGICO DE PAULO FREIRE (Porto Alegre: CirKula, 2018), com uma grande e ousada intenção: fazer-nos pensar sobre Paulo Freire. A partir de minha experiência em estágio de pós-doutorado na Universidade de Lisboa e da participação anual no Fórum de Estudos: Leituras de Paulo Freire, evento itinerante sediado em universidades gaúchas, apresento para o debate três conceitos-chave do pensamento freireano: inacabamento (perspectiva antropológica), dialogicidade (perspectiva metodológica) e transformação social (perspectiva política).

 

Freire é um autor comprometido com o enfrentamento da desigualdade social, por isso, não descola de sua teoria do conhecimento um projeto de sociedade. Dessa forma, práticas participantes de pesquisa encontram nesse autor importante referência, assim como processos educativos emancipatórios que visam à autonomia dos sujeitos.

 

Para além de debates simplistas e preconceitos, estudar um autor brasileiro com grande notoriedade internacional pode ser uma saída aos impasses atuais de nossa educação. Pelo menos, saber ao certo por que Freire não serviria é algo interessante, assim como tentar compreender por que esse autor é referência para muitas experiências de ensino exitosas mundo afora. Seja a favor ou contra Paulo Freire, o debate educacional passa por esse autor nordestino e do mundo. Conhecer um pouco do que ele tem a nos dizer pode nos fazer acreditar que santo de casa faz milagre sim.

 

Fonte: Correio do Povo/caderno de Sábado/Thiago Ingrassia Pereira/Sociólogo, doutor (UFRGS) e pós-doutor em Educação (Universidade de Lisboa). Professor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) Campus Erechim em 12/01/2019