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Desconstruindo Paulo Freire, de Thomas G.F. Santos
Desconstruindo Paulo Freire, de Thomas G.F. Santos

NÃO ME HABITUEI A ASSISTIR A JUSTIFICATIVAS TÃO PUERIS ÀS MORTES DE TERCEIROS

 

Os meus detratores não acreditam, mas li sem qualquer resultado prévio cada uma das sílabas dos livros de Paulo Freire que embasam as minhas conclusões sobre a sua realização intelectual. Dessa maneira, conforme demonstro em meu livro DESCONSTRUINDO PAULO FREIRE e em uma série de conferências, concluí que ele foi um homem que não suportava certos tipos de sistemas e pessoas, todavia, ainda hoje é apresentado como um arauto do amor, vetor de “uma imensa capacidade de amar”.

 

Fundamentado na definição de Julien Benda, posso dizer que ele foi mais um intelectual “tipicamente do século 20”: um homem apaixonado por si, que acreditou que o seu fragmento da realidade era capaz de realinhar os princípios mais complexos da existência humana. Deslumbrado na certeza de que detinha um conhecimento singular, paulatinamente, tornou-se incapaz de enxergar a crueldade praticada ao longo de décadas por seus regimes de predileção.

 

Justiça seja feita, o pedagogo nunca omitiu sua sede de sangue. Como todo tirano, Paulo Freire conhecia a realidade segundo seu vocabulário, e nunca segundo a História. Consoante ao que estou comentando, deixo estes dois antônimos frasais: “Esses são exemplos de como Paulo amou. Amou as pessoas independentes de sua raça, de seu gênero, de sua religião, de sua idade ou de sua opção ideológica. Amou a natureza”, escreveu Ana Maria Araújo Freire em PAULO FREIRE – UMA HISTÓRIA DE VIDA. Em A PEDAGOGIA DO OPRIMIDO, sua obra mais disseminada, Paulo Freire escreveu: “A revolução é biófila, é criadora de vida, ainda que, para criá-la, seja obrigada a deter vidas que proíbem a vida”.

 

Percebam que ler Paulo Freire é estar perdido em um labirinto verborrágico. De um lado, encontramos um homem tratado como um espécie de São Francisco do giz de cera, e, no outro extremo, um déspota. Suas ações foram uma dedicada tomada de posição, legitimada pelas justificativas de que há diferentes tipos de homens e há um meio legítimo à realização humana na História. Apesar disso, torna-se paradoxal o encontro – borrifado de naturalidade discursiva – de trechos tão antônimos.

 

O nosso (ainda) Patrono da Educação Brasileira é um homem habitualmente interpretado como profeta. Figura incontestável, intelectual que não pode ter suas frases questionadas. Não estou emitindo provocações. Leiam os principais alfarrábios de seus intérpretes que encontrarão essa ostentação ao seu discurso messiânico. Para não deixar essa acusação simplesmente “no ar”, deixo as palavras de sua principal biógrafa, Ana Maria Araújo Freire: “Paulo, também nisso, foi adivinho, profético”. Essa tentativa de salvar sua aparência externa é uma desafinada cantiga para quem tem familiaridade com os textos de Freire. Estes raros indivíduos sabem que o nosso pedagogo era um apóstolo de seus massacres favoritos, uma vez que Fidel Castro, Ernesto Guevara e Mao Tsé-Tug gozaram de um ardoroso defensor de suas causas.

 

Em vez de palavreados, despeço-me com a máxima de Camus: “Em filosofia como em política, eu sou, portanto, a favor de qualquer teoria que recuse a inocência ao homem, e a favor de toda prática que o trate como culpado”.

 

Fonte: Correio do Povo/Caderno de Sábado/Thomas Giulliano Ferreira dos Santos/Historiador. Autor de DESCONSTRUINDO PAULO FREIRE, em 12/01/2019