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Um Castelo nos Pampas
Um Castelo nos Pampas

UM CASTELO NOS PAMPAS.

 

No Município de Pedras Altas, a trinta quilômetros da fronteira com o Uruguai, a paisagem dos pampas acolhe um improvável castelo medieval.  Ele e a granja que o abriga, batizada com o mesmo nome da localidade, nasceram da imaginação eclética e incansável de Joaquim Francisco de Assis Brasil, político, diplomata, agrônomo e pecuarista gaúcho que viveu o entre séculos XIX e XX.

 

 

Mais do que excentricidade de um filho da elite gaúcha, a Granja de Pedras Altas é o lastro material de uma profunda crítica social ao mundo oligárquico.  Inimigo da riqueza preguiçosa, nascida da exploração pouco racional de terras  decaídas da jovem República, ele identifica ainda o vício do favoritismo, que aprisiona a política na órbita dos interesses privados.  Da equação que soma indolência e patronato resulta uma riqueza ilegítima.  Se não condena o acúmulo de bens em si mesmo – visto que a experiência da desigualdade, na perspectiva de um liberal, é inerente ao próprio regime da liberdade – Assis Brasil trata de qualificá-lo: a boa riqueza distingue os homens pelos méritos.  Nada mais distante dos primeiros tropeços republicanos.

 

 

Pois bem, a Granja foi concebida como o avesso da realidade que se tinha sob a vista.  Numa época em que a imaginação da modernidade já se fixava em representações de Paris e grandes cidades europeias, Assis Brasil produzia o elogio do campo.  Contra o estigma de vida rústica, instalou na Granja um complexo sistema de canaletas para aproveitamento de águas pluviais.  Antecipou-se em décadas à noção hoje corrente de sustentabilidade.  Para assegurar conforto nas baixas temperaturas do inverno, concebeu controle térmico com  tecnologias a gás.  E no coração do castelo instalou a Biblioteca de Pedras Altas, de visitação pública, com milhares de exemplares colecionados nas suas viagens pelo mundo.  Além de inovações técnicas, sua experiência de moderno incluía relações responsáveis com os habitantes do entorno e com os trabalhadores da Granja: provia-lhes, tanto quanto possível, instrução.  E somava-se, ele próprio, às rígidas disciplinas da vida no campo, desafiando o preconceito social que preguiçosamente opunha forças bruta e intelectual.

Em linha com sua filiação a um liberalismo de tipo clássico, a um só tempo desonerava o Estado de funções sociais e chamava-as para si.  Abraçava a perspectiva e o ethos liberais na sua íntegra, portanto.  E assim escapava à seletividade liberal tão em voga hoje, isto é, a firme convicção de retração do Estado combinada à atitude negligente face à vida social.  Era um homem de ideias e práticas.

 

 

A Granja deveria ser a prova irrefutável de que terras de extensão modesta poderiam ser tão ou mais produtivas do que latifúndios.  Bastava que homens e mulheres acrescentassem razão e labor à natureza, sempre instruídos por uma medida fundamental: o estudo do contexto, da realidade específica que tinham nas mãos e sob a vista.  E aqui estamos num ponto essencial de afinidade entre as várias vocações de Assis Brasil: não existem receitas a priori para o conhecimento.  Raças de gado, tipos de semente e regimes políticos não são bons ou maus em si mesmos, mas bons ou maus apenas em relação ao meio específico a que se referem.

Seu conhecimento meticuloso sobre o próprio meio, motivado pela paixão por sua terra, não o lançou aos excessos do regionalismo.  Muito pelo contrário, satirizava os homens de referências estreitas.  Era o caso de Borges de Medeiros, “ávido viajante” que se deslocava entre Porto Alegre e Cachoeira.  Diferente dele, no seu exercício diplomático, Assis Brasil colecionou modos de ver e fazer coisas.  De volta ao país, trouxe espécies que julgava passíveis de boa adaptação ao nosso meio.  E quando elas não existiam in natura, providenciava cruzamentos.

 

 

Foi assim que nasceu o Código Eleitoral de 1932, primeiro do Brasil e do mundo, um compósito de fórmulas estrangeiras temperadas por necessidades nacionais.  O proporcionalismo inglês chegou aqui com cláusula de maioria e também com medidas de saneamento das eleições, a saber: o voto secreto e a justiça eleitoral.  A delicada engenharia eleitoral inclui ainda o voto feminino e, com isso, nos antecipou à Bélgica, à Suíça e à França com sua Paris das luzes.  Mais uma vez, Assis Brasil desafiava a geografia do moderno: se seu lugar não era necessariamente na grande urbes, tampouco era próprio de uma ou outra parte do globo.

A memória de tudo isso degrada hoje no que resta da Granja.  Há alguns meses tive a alegria e a tristeza de visitá-la.  A euforia de conhecer o castelo que durante anos de estudo alimentou o meu imaginário sobre o personagem oi dissipada pelo reconhecimento do estado lastimável em que tudo ali se encontra, a despeito do notável zelo de uma de suas netas, que tem a guarda do espaço e o preserva na medida de suas forças e recursos.  Tombada pelo Instituto de Patrimônio Histórico do Rio Grande do Sul e em processo de tombamento nacional, a Granja, patrimônio cultural do país, segue com destino incerto.

 

Fonte:  Correio do Povo – CS Caderno de Sábado/Cristina Buarque de Hollanda (Professora do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do estado do Rio de Janeiro - IESP-UERJ) em 19 de dezembro de 2015.