Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese




ONLINE
3





                                              

                            

 

 

 


Textos Literários e não Literários - Parte 1
Textos Literários e não Literários - Parte 1

Texto Literário e Não Literário

 

Imaginemos que, na comunicação cotidiana, alguém nos diga a seguinte frase:

 

— Uma flor nasceu no chão da minha rua!

 

Conforme as circunstâncias em que é dita, isso é, de acordo com a situação da fala, entendemos que se refere a algo que realmente ocorreu. Corresponde a um fato anterior ao seu enunciado e de fácil comprovação. Mesmo diante de sua transcrição escrita, o que nela se comunica basicamente pertence.

 

Num ou noutro caso, para veicular essa informação, o nosso interlocutor selecionou uma série de palavras do idioma que é comum e, de acordo com as regras que presidem o seu funcionamento e que todos conhecemos, as dispôs numa sequência. A seleção feita e a sucessão estabelecida conferem à frase uma significação que pode ser submetida à prova da verdade em relação à realidade imediata. Como é fácil concluir, é isso que acontece ao nos comunicarmos no dia a dia do nosso convívio social.

 

A nossa frase exemplo depende também, como ato linguístico que é, da gesticulação e da entoação que a acompanharem ao ser enunciada; por força, entretanto, de sua situação nesse conjunto e da associação com as demais afirmações que ela se vinculam, abre-se para um sentido múltiplo, ganha marcas de ambiguidade: no contexto do fragmento transcrito e da totalidade do poema de que faz parte “ A flor e a náusea”, de Carlos Drummond de Andrade, podemos entender essa flor como esperança de mudança, por exemplo.

 

Uma flor nasceu na rua!

 

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.

 

Uma flor ainda desbotada

 

Ilude a polícia, romper o afasto.

 

Façam completo silêncio, paralisem os negócios,

 

Garanto que uma flor nasceu.

 

Sua cor não se percebe.

 

Suas pétalas não se abrem.

 

Seu nome não está nos livros,

 

É feia. Mas é realmente uma flor.

 

 

 

Percebemos, desde logo, que estamos diante de uma utilização especial da língua que falamos. O ritmo que caracteriza o texto, a natureza do que se comunica e, ao chegar até nós por escrito, a distribuição das palavras no espaço do papel justificam essa conclusão.

 

A nossa frase exemplo depende também, como ato linguístico que é, da gesticulação e da entonação que a acompanharem ao ser enunciada; por força, entretanto de sua situação nesse conjunto e da associação com as demais afirmações que ela se vinculam, abre-se para um sentido múltiplo, que ganha marcas de ambiguidade: no contexto do fragmento transcrito e da totalidade do poema de que faz parte “ A flor e a náusea” de Carlos Drummond de Andrade, podemos entender que essa flor como esperança de mudança, por exemplo. Mas esse sentido que o texto a ela confere não produz nenhuma realidade imediata; nasce tão somente do próprio texto. A flor dessa rua deixa de ser um elemento vegetal para alcançar-se à condição de símbolo, ganha uma significação que vai além do real concreto e que passa a existir em função do conjunto em que a palavra se encontra. É claro que os versos remetem uma realidade dos homens e do mundo, mas para além da realidade imediatamente perceptível e traduzida no discurso comum das pessoas. É o que acontece com essa modalidade de linguagem, a linguagem da literatura, tanto na prosa como nas manifestações em versos.

 

 CONTINUA...