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Teoria Literária: Personagem de Ficção
Teoria Literária: Personagem de Ficção

PERSONAGEM DE FICÇÃO

 

DE GILGAMESH A ALEXANDER PORTNOY:  ESCRITOR E PROFESSOR VERSA SOBRE UM DOS MAIS INTRIGANTES FATOS DA CULTURA, O PERSONAGEM DE FICÇÃO.

 

  1. De todos os fatos da cultura, um dos mais intrigantes é a existência da personagem de ficção. Haverá invento mais esquizofrênico do que esse, e a de dar vida a alguém que não existe?  E mais: atribuir-lhe vontades, falas, ações e, a partir de certo estágio da literatura, pensamentos?  O caso é mais grave:  esse ser fantástico às vezes declina frases em primeira pessoa, como o rei Hamlet a assombrar seu filho com um terrível pedido de vingança, ou o Werther a lamentar seus males sentimentais.  Para cúmulo do nonsense, os leitores fingem que acreditam que esse ser existe, não se importam de pagar por isso e ainda sentem grande prazer em acompanhar suas falsas peripécias.  Mas tudo isso tem uma explicação, ou algumas.

 

  1. Tudo teve início quando o falar de si mesmo – o homem das cavernas ao narrar a caça de um cervo, é exemplo – passou ao estágio de falar de um ser imaginado, um homem, uma mulher, que vivesse peripécias como se fosse uma pessoa. A hipótese mais provável para explicar esse deslocamento antinatural foi a necessidade de criar entidades mágicas que dessem conta do grande arcano da vida e da morte.  As primeiras personagens, assim, foram deuses, como Isis ou Osiris; era um falar num “ela” ou “ele”, distintos dos seres reais, mas que tinham vida própria e se manifestavam como os humanos, amavam, tinham uma vida sexual promíscua, geravam filhos, odiavam, guerreavam-se e, suprema ventura, não morriam.  Os inventores dessas lendas, talvez assustados com a periculosidade de seus atrevimentos, espalharam que todas essas entidades de fato existiam, e que deveriam ser objeto de culto, que deveriam receber sacrifícios – enfim, deram-lhes uma existência “real”, mas, para serem considerados “reais”, deveriam ter comportamentos muitos próximos dos seres humanos, mas não idênticos.  Ganhavam, assim o estatuto de seres possíveis.

 

  1. Podemos apenas especular o trajeto que vai dos deuses ao Alexander Portnoy de Phillip Roth. Se pensarmos nas primeiras histórias em que os humanos apareciam – é lícito evocar o incombustível Gilgamesh – se pensarmos nos protagonistas de todas as lendas, esses seres humanos de existência fictícia misturavam-se a personagens mitológicos.  Foi uma entente cordialíssima, pois umas legitimavam as outras: os seres humanos eram dignificados com o estatuto de participantes de um mundo superior, e os deuses eram aceitos como entes verdadeiros.

 

  1. O desenvolvimento da escrita levou-nos a uma progressiva “humanização” das histórias, no sentido de que as personagens passaram a ser, cada vez mais, pessoas como nós, cujas relações com o divino eram problemáticas, senão francamente catastróficas, e aí está o teatro clássico para demonstrar. Avançando para os tempos em que vivemos, a divindade não é mais um problema para a personagem, mas, sim, a personagem é o problema.

 

  1. É curioso considerar, entretanto, como permanece viva, na generalidade dos leitores, a ideia atávica de que a história envolve sempre alguém que existe ou existiu, em pele e sangue. Desse modo, tem maior prestígio uma “história real” do que uma ficção pura.  O cinema já descobriu isso há muito tempo, e o fenômeno transitou alegremente para a literatura.  Bastante atual, nessa linha de pensamento, é o caso da personagem que fala em primeira pessoa e se aproxima, ou quase se confunde – ou às vezes se confunde de fato – com o autor.  Sempre achei que os fatos da cultura não são bons nem maus; são apenas sintomas, mas não será uma cega reflexão diagnosticar que este já é um gênero em franco declínio, que logo dará espaço à reconquista de um “ele” narrador – que não será o “ele” a que estávamos acostumados, mas algo inesperado, talvez mais cativante do que as chorosas desventuras da primeira pessoa.  Falando com clareza: mais cativante que a autoficção, de que fala Serge Doubrovsky.

 

  1. Penso que tudo pode resumir-se a um sintagma da moda: a zona de conforto. Enquanto as personagens viverem por nós tudo o que há de perigoso, encarando riscos com sobranceria, ganhando ou perdendo, matando ou morrendo, seja em primeira ou terceira pessoa, vale a pena abandonar a lógica e pensar que elas existem.  A personagem ficcional, dentro desse esquema, atua como uma instância substituinte de nossa pouca ousadia e pusilanimidade.

 

  1. Vamos alinhar um conceito: a personagem é uma construção intelectual e deliberada, fruto da mente e das decisões estéticas e narrativas do autor; por isso, fará aquilo que o autor deseja que faça, levando em conta os propósitos da história. Quando bem elaborada, ela necessariamente deve fazer algumas coisas e não pode fazer outras, por uma questão de coerência psicológica e, portanto, de veracidade ficcional; esse aparente determinismo pode sugerir a ideia alucinada de que a personagem “adquire vida própria”, o que é um evidente equívoco, e acreditar nisso significa também crer no coelho da Páscoa ou na mula-sem-cabeça.

 

  1. Seja através das prodigiosas andanças de Gilgamesh, ou pelas obsessões masturbatórias de Alexander Portnoy, o fato é que as personagens enchem nossa vida, e já não podemos viver sem elas. Deixando de ser um deus, para ser uma pessoa, a personagem tornou-se mais próxima de nós, mas ainda nos ganha de longe, pois seus sofrimentos acabam ao volvermos a última página da história; já nós, ao fecharmos um livro, temos pela frente a vida que nos coube viver.  Para esta, não há ficção que resolva.

 

 

Fonte:  Correio do Povo/CS/Luiz Antonio de Assis Brasil (Escritor e professor da PUCRS) em 06/8/2016