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Sócrates em Paraisópolis
Sócrates em Paraisópolis

SÓCRATES EM PARAISÓPOLIS.

 

Durante quase dois anos, dei aulas de filosofia em uma escola em Paraisópolis, aqui em São Paulo.  Descobri, não faz muito, que a comunidade (o que se chamava em outros tempos de “favela”), a segunda maior da capital paulista e uma das mais conhecidas por sua vizinhança com o bairro nobre do Morumbi, é palco e tema de uma novela da Globo.  Em mim, a notícia dessa nova notoriedade evocou recordações e despertou reflexões sobre essa singular profissão que, creio que mais que todas as outras, nos escolhe, e não o contrário:  o magistério.

Seria óbvio falar do choque que foi para mim a primeira vez em que, ao cruzar apenas uma rua, acabava-se a sequência de mansões do Morumbi e começava de pronto a nova paisagem repleta de precariedades que traduz em tijolo e cimento exposto o imoral abismo social do Brasil.  Prefiro falar, no entanto, da incrível experiência que foi ler e debater em sala de aula a genealogia dos deuses gregos que nos apresenta Hesíodo, buscando ver o mundo com os olhos de um grego de seu tempo.  Ou então tentar entender como os primeiros filósofos – aqueles que chamamos de pré-socráticos – criaram novas formas de explicação do mundo, formas tão distantes e tão próximas de nossa experiência ainda hoje.  Ou ainda empreender o esforço de vencer as dificuldades de vocabulário, de contexto e de conceitos para ler a APOLOGIA DE SÓCRATES, de Platão, e apresentar aos alunos um dos textos mais importantes da história da filosofia e que ainda hoje fala tão fundo a todos os que se permitem deixá-lo falar.

 

 

Como em qualquer sala de aula, havia alunos melhores e piores em seu desempenho acadêmico.  Como em qualquer sala de aula, havia alunos mais e menos dedicados ao cumprimento de suas tarefas.  Os êxitos e os insucessos não seriam diferentes na maioria das outras escolas.  E que bom relembrar dos êxitos, que são sempre nossos, coletivos, quando somos professores:  fiquei marcado, até hoje, pela argúcia das perguntas do Fábio, que reconhecia o poder ou as falhas de um argumento em algum texto que estivéssemos lendo;  sigo ainda impressionado com o entusiasmo da Vitória com seu projeto de pesquisa sobre os discursos dos sofistas gregos, comparando-os aos usos da retórica na linguagem publicitária de nossos dias; ainda me emociona a vibração da Sara com a apaixonada defesa que Sócrates nos apresentava de uma vida moralmente justa e intelectualmente digna – e pouco importa que não fosse por meio dessas palavras que ela traduzisse tal vibração:  o sentimento estava nela.

Nunca precisei desconsiderar a realidade e as histórias de vida próprias a esses alunos para apresentar-lhes o mundo da filosofia grega.  Nunca precisei diminuir o apreço que por ventura tivessem pelas coisas do momento para que se dedicassem a entender um conceito platônico.  Nunca Sócrates precisou aparecer-lhes como uma alternativa exclusiva:  “ou o meu mundo e os meus interesses, ou essa tal filosofia grega”.

Lembro disso e penso com tristeza no esboço até agora apresentado pelo Ministério da Educação para uma Base Nacional Comum, especialmente no caso das chamadas humanidades.  Elaborado por especialistas de todas as áreas de ensino – não é um produto preparado e oficialmente apresentado pelo MEC – o escandaloso desaparecimento da história dos gregos antigos, da Europa cristã medieval e mesmo do Iluminismo do ensino de História chamou atenção na semana passada e merece reflexão.  O que pretendem educadores e especialistas que privam nossos alunos da grande oportunidade de ampliar os horizontes do imediato da vida e da chance de se apropriar de mundos e de conhecimentos vários apenas por despeito ideológico?

Caso esta BNC prospere com essas características, restará bloqueada a possibilidade mesma de educar:  a preservação do patrimônio cultural que cria laços de pertencimento, de identidade e de diferença, se os quais sociedade alguma é capaz de se manter e de evoluir; a transmissão de saberes básicos acumulados por incontáveis gerações, sem os quais nenhum pensamento crítico digno desse nome pode surgir; a apropriação original e criativa que as novas gerações fazem do universo cultural e científico que o passado lhes legou e que constitui o núcleo mesmo da  continuidade entre passado, presente e tantos futuros possíveis – eis o que perderíamos.

Perderia o Fábio, que não mais saberia da beleza da TEOGONIA de Hesíodo.  Perderia a Vitória, que não mais se encantaria com o ELOGIO DE HELENA de Górgias.  Perderia a Sara, que não mais se emocionaria com a vida e com a morte de Sócrates.  Perderíamos todos.

 

Fonte:  ZeroHora/Eduardo Wolf-Professor e Tradutor em 18/10/2015.