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Sete Breves Lições de Física, de Carlo Rovelli
Sete Breves Lições de Física, de Carlo Rovelli

PÍLULA CÓSMICA

 

Um teórico italiano levou a divulgação científica até onde ninguém ousara ir: explicou a física quântica em um livro de menos de 100 páginas. Virou best-seller.

 

“Um punhado de tipos de partículas elementares, que vibram e flutuam continuamente entre o existir e o não existir, pululam no espaço mesmo quando não parece haver nada, combinam-se entre si ao infinito como as vinte letras de um alfabeto cósmico para contar a imensa história das galáxias.” Assim, de forma elegante (para usar um adjetivo caro a físicos e matemáticos, e já usado no título de outro clássico da divulgação científica, O UNIVERSO ELEGANTE, do físico americano Brian Greene), o teórico italiano Carlo Rovelli escreve sobre uma das hipóteses mais, digamos, cabeçudas da ciência: a mecânica quântica que rege a dança das partículas, que são a base de tudo o que existe cosmo afora. Essa é uma das complicadíssimas teses da física moderna (veja quadro abaixo) sobre as quais o professor das universidades de Pittsburgh, nos Estados Unidos, e de Marselha, na França, se debruça em SETE BREVES LIÇÕES DE FÍSICA. A brevidade anunciada no título é seguida com rigor. São apenas 91 páginas – o capítulo mais longo tem doze –, nas quais o autor decifra habilmente conceitos de difícil compreensão mesmo para físicos não especializados nas sutilezas quânticas das vertentes mais avançadas da disciplina. Em um texto fluido, com exemplos e vocabulário simples, e temperado com alegorias e ilustrações, Rovelli traduz o “fisiquês” até para os totalmente leigos.

 

“A ciência é muito parecida com a música”, disse o autor a VEJA. “Não é fácil construir instrumentos nem compor magistralmente, mas uma bela canção agrada a todos. Do mesmo modo, apreciar a ciência significa admirar a compreensão de tudo o que se sabe no mundo, e do que ainda se há de saber dele, tarefa prazerosa para qualquer um que tenha contato com ela.” A analogia pode ir um passo adiante: assim como não é preciso ser um virtuose das cordas para apreciar um quarteto de Beethoven, não é preciso saber matemática avançada para maravilhar-se com os princípios da física. Rovelli tem ao seu lado números vigorosos para comprovar que o cidadão comum pode, sim, ter apreço pela física, quando a matéria é apresentada de forma compreensível. Na Itália, seu país natal, SETE BREVES LIÇÕES DE FÍSICA já vendeu mais de 400 000 exemplares – é mais do que a venda entre os italianos do best-seller erótico-aguado CINQUENTA TONS DE CINZA Nos Estados Unidos, passou de 100 000 exemplares comercializados em apenas um mês, chegando ao segundo lugar na lista dos mais vendidos de não ficção do jornal The New York Times.

 

A maioria dos cientista – e isso é especialmente notável entre físicos – fala apenas com seus pares, na linguagem das fórmulas e das equações. Mesmo assim, figurões como Stephen Hawking já haviam chegado às listas de best-sellers. Rovelli inova ao levar a simplificação ao limite. Ele definitivamente quer quebrar o muro que separa os versados dos leigos. Seu livro nasceu do esforço de traduzir teoremas complexos em termos acessíveis. A primeira tentativa nessa direção deu-se com dois artigos escritos para o suplemente literário do jornal II Sole 24 Ore. Os textos elucidavam, em linguajar pedestre, a teoria da relatividade, elaborada há um século pelo alemão Albert Einstein (1879-1955), e a mecânica quântica. Depois desses primeiros ensaios, a pequena editora italiana Aleph convidou Rovelli a escrever um livro – e daí veio o sucesso, com SETE BREVES LIÇÕES DE FÍSICA. É um primor de síntese: além de explicar teorias da física, narra como cientistas chegaram a elas, colocando o raciocínio por trás desses conceitos sob uma lupa.

 

Surpreendente na brevidade, a obra de Rovelli enquadra-se em uma firme e respeitável linhagem: a ciência pop. Seu SETE LIÇÕES não seria possível sem antecessores como o astrofísico Carl Sagan (1934-1996), criador da cultuada série televisiva COSMOS (que há dois anos ganhou nova versão apresentada por Neil deGrasse Tyson). Ao lado de Sagan, alinham-se outros divulgadores de prestígio como os já citados Brian Greene e Stephen Hawking. A fama dos pop stars da ciência por vezes provoca certa reticência na academia. Divulgadores são tanto idolatrados quanto odiados por colegas – críticos alegam, arrogantemente, que facilitar a compreensão dos estudos para a impressão de que o trabalho deles é fácil.

 

Lá no século V a.C., o filósofo grego Demócrito, um dos mais antigos precursores de Sagan e companhia, já elucidava sua teoria dos átomos comparando esses elementos a tijolos que formam todo o mundo conhecido. Passados dois milênios, a ciência tornou-se, ao mesmo tempo, mais complexa e mais popular. Ultrapassou a fronteira dos circuitos intelectualizados e está no cinema, na televisão e nas listas de best-sellers. Para Rovelli, as teorias mais difíceis da física são “obras-primas absolutas que emocionam intensamente”. Entender seus rudimentos é como ouvir o Requiem de Mozart, contemplar as figuras humanas e divinas da Capela Sistina – ou rodar em um carrossel de estrelas.

 

BEM DESENHADO

 

RELATIVIDADE GERAL

Autor: Albert Einstein, em 1915

Por que é complexa

Pela tese, o universo contaria com um tecido de espaço-tempo, que seria distorcido por corpos de grande massa. Eis algo nada fácil de compreender.

 

Como Rovelli simplifica

“Não estamos contidos numa invisível estante rígida, estamos imersos em um molusco flexível. O Sol sobra o espaço a seu redor, e a Terra não gira em torno dele porque é puxada por uma misteriosa força, mas porque está correndo em linha num espaço que se inclina. Como uma bolinha rolando em um funil”.

 

MECÂNICA QUÂNTICA

Autores: Max Planck, em 1900;

Einstein, em 1905; Niels Bohr, em 1913;

e Werner Heisenberg, em 1925

 

Por que é complexa

Ela explica que as partículas que compõem o cosmo só passam a existir, de fato, quando se chocam com alguma coisa. Os elétrons, por exemplo, se materializam apenas quando saltam de uma órbita para outra de um átomo

 

Como Rovelli simplifica

“(Eisenberg) imagina que os elétrons não existem sempre. Existem só quando alguém os observa, ou melhor, quando interagem com alguma coisa. (…) Os saltos quânticos de uma órbita para outra são seu modo de se tornarem reais (…) É como se Deus não tivesse desenhado a realidade com uma linha pesada, mas tivesse se limitado a um traço leve”.

 

LIVRO: SETE BREVES LIÇÕES DE FÍSICA, de Carlo Rovelli (tradução de Joana Angélica d’Ávila Melo; Objetiva; 91 páginas).

 

 

Fonte: Veja/Raquel Beer em 08/06/2016