Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese




ONLINE
3





                                              

                            

 

 

 


Sábado é Dia de Feira! por Cláudia de Villar
Sábado é Dia de Feira! por Cláudia de Villar

Sábado é dia de feira!

 

Por Cláudia de Villar

 

www.claudiadevillar.com.br

 

Beto acordou cedo pra ir à feira. Era sábado, dia universal da feira. Todos em sua casa já conheciam este ritual: esposa - casado há mais de 20 anos - filhos, Pedro, Edu, Clara e Ana, poderiam descrever de trás pra frente o ritual da feira: acordar, tomar banho, café preto, carrinho de feira na mão, lista na cabeça e bora lá!

 

Cada sábado ele escolhia um dos filhos para acompanhá-lo. Quatro finais de semana, quatro filhos. Quando tinha um quinto sábado era a vez da mãe ir. Era o dia do pai vir com mais compras do que o normal! Faltava espaço no carrinho, vinha muita coisa pendurada em sacolinhas plásticas e faltava paciência aos dois. Voltavam aos berros.

 

Porém, neste sábado foi diferente. As crianças ficaram esperando o pai chamá-los. E nada. A mulher esperando o marido levantar da cama. E nada! Estaria o marido doente? Sem dinheiro? Com dor de dente? Estranharam.

 

Passado um tempo, todos levantaram, seguiram com as suas rotinas e o pai nada! Ele lá, deitadão, como se não houvesse amanhã. O filho mais velho tomou coragem e perguntou ao pai:

- Pai, e a feira? Não tem feira hoje?

- Tem, sim.

- E o senhor não vai?

- Vou não.

- Não?! – indagou o filho surpreso.

- Vou não. – respondeu o pai na tranquilidade.

 

O filho achou melhor não continuar. Mas aquilo tudo estava muito estranho. A mulher começou a desconfiar. Vinte anos, vinte anos! Sem sequer deixar de ir um único sábado à feira! Nem temporal, nem ventania, nem falta d’água, nada fazia o marido deixar de ir à feira. E hoje isto?! Foi a vez dela de ir perguntar:

- Afinal de contas, o que deu em você hoje pra não ir à feira?

 

Antes que o pai respondesse, a campainha soou. Era a Tele feira. Tudo bem fresquinho em sua porta.

- O que significa isto? – quis saber a esposa.

- Novos tempos! Andei lendo. Me informando. Comprar on line é a onda agora.

- Que diabos de onda é esta?

- Preciso entrar no ritmo.

- Sei...

 

A mulher estranhou, os filhos ficaram tristes. Afinal, o dia da feira era sagrado. Tinha todo um ritual. Na noite anterior todos ficavam se perguntando qual seria o filho escolhido? O que eles iriam encontrar na feira? Iriam ganhar picolé, algodão doce ou guloseima? E agora? Sem feira, acabaram-se as expectativas. A folia, a inquietude prévia! As surpresas. O coração batendo acelerado ante a expectativa do dia da feira! A esposa também se entristeceu. E a casa? Que horas iria limpá-la? Com o marido ali, esticadão no sofá? E o radinho? Costumava aproveitar a saída do marido pra sintonizar naquela rádio do homem da voz rouca. Das fofocas loucas. Viajava no tempo com as novas histórias de vida. E agora? Terminaram os sonhos? A fantasia?!

- Vamos à feira! – comunicou o pai – tirando esposa e filhos de vagos devaneios.

- Como? – indagou o filho mais novo – Já passam das 15h, agora os feirantes já foram embora!

- Vamos à feira! – repetiu o pai.

 

Estaria o pai caducando? Já que as compras “da feira virtual”  já estavam todas em casa?

- Vamos à feira do livro!

- Feira do Livro?! Que diabo é isto?

 

Nunca haviam ido à feira do livro. Não sabiam o que iriam encontrar lá. Estranharam a proposta repentina e inovadora, ou seria maluca?

 

Foram pra feira.

 

Nas crianças surgiu, novamente, aquele friozinho na barriga. O que iriam encontrar lá. Teria sorvete? Na esposa apareceu uma pulguinha atrás do ouvido: seria uma amante?

 

Seria tudo! A família encontrou tudo e muito mais. Abriram livros, leram parágrafos e encontraram dentro deles sorvete, picolé, chocolate, pitangas, araçás, maçãs do amor, bruxas, guerreiros, limão, palavras roucas, melancia, alface, músicas, pizzas, carinho, perigos, selvas e amantes!

 

Ah... E viva a feira! Saíram de lá saciados! Mentes e estômagos transbordando de novos alimentos. E viva a nova feira!

 

Bora lá também experimentar novos sabores?