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Ruínas do Futuro
Ruínas do Futuro

RUÍNAS DO FUTURO        

 

Como dizia o saudoso Brizola, eu venho de longe.  Bem, nem tão de longe.  Vim da inexcedível Bento Gonçalves, que se dá ao luxo de ter a gloriosa Caxias do Sul ali por perto.  Sou do tempo que Mondo Cane (Mundo Cão) era só nome de bar na João Pessoa e filme sobre cachorro e canil; do tempo em que faturar uma rosquinha era só ingerir biscoito; do tempo em que jornalista não era notícia; do tempo que se amarrava cachorro com linguiça; do tempo em que a gente tinha tempo para falar do tempo, pensar sobre ele e ver que a gente mata ele e ele nos enterra, como disse o Machado.

 

Quando eu tinha 18 anos e fazia intercâmbio nos Estados Unidos, me interessei por um livro espetacular: O Choque do Futuro, do professor Alvin Toffler.  Era 1972.  Em resumo, ele ensinou que a gente estava estonteado, chocado por tantas transformações, em tão pouco tempo, tudo ão rápido, no século XX.  Tipo do 14 Bis à chegada da Lua em 63 anos.  O cara botou o dedo na ferida, mostrou que o futuro tinha chegado e que a gente estava meio perdido nele.  Era das transformações.  Agora em maio, no Fronteiras do Pensamento, que celebra 10 anos de história, vamos pensar nesse assunto e em muitos outros.

 

O tema é “A grande virada”.  Mais uma, mais umas.  Acho até que o nome do evento poderia ser: Pensamentos sem fronteiras, nesse nosso mundinho doido, pós-moderno, estilhaçado, sem referências ou pessoas duráveis, com ideias e notícias que vivem vidas com duração de um fogo de artifício.  Vamos cruzar literatura, psicanálise, cultura afro-americana, urbanismo e ouvir craques como Vargas Llosa, Michel Houllebecq e Elisabeth Roudinesco sobre muitos temas.  A vida é curta, a arte é longa, quem não sabe?  Nem deveríamos.  A vida perderia a graça.  Mas bem que precisamos encontrar algumas novas ordens mundiais, com mais respeito à vida humana, natureza e convívio mais aceitável.  Depois de milênios, continuar a se digladiar desse jeito, é complicado.  Será possível que nós, os macacos vestidos (desculpem os macacos, não é ofensa para vocês, que são inteligentes, engraçados, vivos) não vamos evoluir de verdade?  Que venha a virada!

 

Nos anos 1960, o professor e grande teórico da comunicação Marshall Mcluhan, criador da expressão “aldeia global”, disse que, no futuro, c ada homem seria seu próprio editor.  O futuro chegou faz muito tempo, já está até em ruínas, nas selfies enlouquecidas e nas tecnologias velhas da semana que vem.  Cada um é seu diretor, fotógrafo, roteirista, maquiador, assistente, coach, guru, produtor e tudo mais.  Cada um é mil.  Ao invés dos falados 15 minutos de notoriedade para cada um no futuro, previstos pelo Andy Warhol, hoje a galera quer 24 horas por dia de ‘eu’ na veia.  Menos Facebook mais Face-eu. Eu me amo.

 

Acho que a história não acabou, não é Fukuyama?  Ciclos?  Divisões?  Tudo bem, mas o tempo, o infinito, o humano, os mistérios e o sol nascem todo dia, novas histórias, novas pessoas.  A história não acaba.

 

A PROPÓSITO...

Pode ser ideia simples, história simples de um simples contador de histórias.  Pode ser história velha, já contada mil vezes, não importa.  Quero crer que enquanto houver uma pessoa na face da terra contando uma história, velha ou nova, ao nascer do sol ou em roda do fogo na noite com lua ou não, de preferência com um ouvinte ao menos, a história não chegou ao fim.  Talvez nunca chegue mesmo ao fim.  Eternidade, duração sem princípio nem fim, existência absoluta.  Enquanto isso, vamos buscando viradas, mudanças, letras e ciências, nos distraindo com ideias novas, enquanto corremos atrás do vento, com velocidade maior que nossos avós.

 

Fonte:  Jornal do Comércio / Jaime Cimenti (jcimenti@terra.com.br) em 1º de maio de 2016.