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Romance Epistolar de Lurdes Maravilha
Romance Epistolar de Lurdes Maravilha

ROMANCE EPISTOLAR
 
Novo romance da escritora Lurdes Maravilha passa-se em Portugal e Brasil.
O cenário onde se desenvolve o romance epistolar, é o meio Rural de Colo de Pito em Castro Daire - Portugal
O romance epistolar, uma troca de cartas entre a escritora Lurdes Maravilha e a escritora Luisa Ramos. O Romance estende-se ao Brasil e entre Colo de Pito e o Algarve.
Apresentamos uma das Cartas que fazem parte do romance.

 

"Querida irmã!

Já cheguei! Li e reli a tua carta, mas perdoa-me por só agora te responder. Estive ausente alguns dias, em trabalho, mas a tua carta dormiu secretamente na caixa do meu correio. Confesso que fiquei muito confusa e assustada com o conteúdo da mesma.Ontem, quando a li , amarrei-a no meu peito e fui logo para o rio do Vidoeiro.

Eu precisava muito de descansar à sombra daquele nosso amieiro e reencontrar a paz para perceber e aceitar o conteúdo desta tua mensagem,mesmo com muita revolta . Percebi de imediato e sei que o silêncio vale ouro! Na sombra daquele amieiro sonhei em mandar parar o tempo e recuar mais uma vez à lembrança do nosso derradeiro abraço. Aquele abraço de fugida, mas que nunca se perdeu! E por não se perder vim reencontrar no silêncio desta paragem a paz para reunir algumas parcelas da tua vida, da minha vida, da nossa vida! E na junção destas parcelas embrenhei-me de novo nas águas correntes das tuas e das minhas saudades.

Saudades sim, Rosa porque quando venho a este rio, lembro-me sempre onde escondíamos a nossa roupa, para que nenhum aventureiro a roubasse. Lembro-me sempre das vezes em que fugia ao pai e à mãe para aqui mergulhar. E aquelas tantas vezes em que eu desafiei o pai dizendo-lhe que quando atingisse a maior idade, a minha vida seria nadar e nadar sem em mim ninguém mandar!... 

Eu sei que muitas das vezes tive logo como troco a esse meu desafio, a ligeireza de uma bofetada que doía muito , mas os meus olhos viram também algumas vezes o isento dessas mãos nos bolsos libertado pelo brilho de um sorriso disfarçado pensando que eu não dava conta. O pai era assim e nada mais havia a fazer, mas ele sabia bem que eu adorava nadar. Nunca me escapavam as lavagens do gado pelo S. Pedro, onde o tempo na água era longo porque tínhamos que nos ajudar uns aos outros. E aquele carneiro preto? Que louco! Tão difícil de agarrar que até o pai dizia que ele trazia o diabo no pelo, por tanto correr. Agora se tu visses, tudo está diferente. Só há dois rebanhos e bem perto do rio o fogo também já devastou grande parte da vegetação. Não te assustes porque a nossa gruta contínua linda e airosa. A minha segunda casa porque continuo a tratar de tudo como dantes.

Continuando a responder às questões da tua carta, quero dizer-te que ainda sinto uns arrepios porque nem este calor abrasador me consegue aquecer a alma. Estou assustada minha irmã! Muito! É por isso que estou assim. Encontrei-me também com a irmã Elisabete, que veio visitar a sua mãe.A Tia Júlia está muito mal e já nos seus derradeiros dias. A Elisabete continua bonita e serena, assim como a vimos desde o dia da sua partida para o convento. Já lá vão tantos anos! Falamos muito de ti. Do teu passado... Sabes que não foi fácil para os pais suportarem a tua fuga. No fundo o pai ainda com o seu ar de redentor (abafado), tentava acalmar o coração aflito da mãe, mas eram outros tempos e outros ventos, vividos sobre as diretrizes rígidas quer a nível político, social e sobretudo religioso.

O que o António fez de ti durante uma vida!? Não te vou fazer mais perguntas sobre os maus tratos físicos e psicológicos que esse ordinário te causou, mas por favor não deixes adormecer o rasto do teu passado, porque precisas muito desse instinto para contracenares o teu presente no vértice audaz do teu futuro. Sim audaz, como foste naquele dia frio de fevereiro quando fugiste sem bagagem à procura de uma mala cheia de sonhos. Sonhos desfeitos e outros refeitos, mas por favor, Rosa, promete-me que nunca vais fechar a janela da memória ao teu maior sonho. O abraço aos teus filhos! Prometes-me? Eu, nada preciso de te prometer a não ser o calor do sangue que me escorre nas veias porque é teu também. Pela estrada deste sangue consigo ver a espessura e a fortaleza desse mar azul que ainda te aconchega. 

Por isso, peço-te que fiques tranquila. O Dr. Carlos René Oliveira continua nas suas investigações, e imagina que se cruzou no Brasil, com o nosso amigo e conterrâneo Dr. Luís de Portugal II e reuniram de imediato em prol da tua situação. Sim o Luís de Portugal II, aquele menino rebelde, mas que já amava tanto o teatro. Hoje é um grande ator, estudou nas melhores universidades da Europa e tem pisado os mais famosos palcos do mundo. Imagina que agora é o diretor artístico da casa do concelho de Castro Daire, em Lisboa ! Por isso muita fé porque a investigação continua. O nosso irmão Jose Maravilha já mandou o corpo de intervenção de fuzileiros para o terreno. A Cristina Maravilha foi ao lar como me pediste, mas disseram-lhe que o António tinha ido passar o fim de semana com um familiar. Confesso que fiquei intrigada com a noticia que lhe deram, mas sei que de imediato, o Dr. Manuel Dória Vilar partiu para outras pistas de investigação. 

Hoje, não te posso dizer mais nada, apenas que aguardes com serenidade e fé o desenrolar de todos os processos.
Vou dizer-te um segredo só ao teu coração, amanhã, quero partir para te ver……

O nosso abraço querida irmã Rosa (Luisa Ramos)

Gosto muito de ti!!

Lurdes Maravilha


 Rio Vidoeiro