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Relíquias
Relíquias

 

                                       RELÍQUIAS

 

       Procuro um documento com certa urgência, para resolver, com ele, algumas coisas pendentes da vida corriqueira. Deparo-me com velhas fotografias amarelecidas pelo tempo e olho-as com os olhos da saudade. Contam-me histórias. Contam-me dos sonhos realizados, ou não. Falam-me de memórias guardadas na gaveta do tempo. Amores que passaram. Pessoas que se foram num flash de luz do término de um tempo chamado viver. São memórias perecíveis nas palmas das minhas mãos e guardadas para contarem mais adiante, alguma coisa de mim.

 

       São páginas de um livro que li dia após dia entre sóis e luas. Porém, mais que um livro de vida, ou rememorações, este, é um livro da alma, onde cada imagem me remete a um capítulo do meu tempo inacabado. Aí, os sentimentos são imperecíveis. Leio-me nas entrelinhas das histórias que vejo e avulto-me na sequência do meu caminhar em direção ao epílogo. Ainda tenho desejos de algumas coisas. De sei lá o quê... “Liberdade é pouco o que desejo ainda não tem nome” – disse Clarice Lispector -, e eu concordando com ela, sinto o borbulhar dos muitos desejos que habitam em mim adejando sobre um meditar agora, quase egoísta, onde estou eu e os meus eus.

 

       Vejo rostos que me sorriem e rebusco no meu perscrutar o valor de cada um. Impossível. São preciosidades que o tempo, indomável e inexorável, tornou-os joias raras. Riqueza incontável. Cai uma lágrima aqui, outra acolá... Em cada capítulo uma emoção. Laços inquebrantáveis numa soleira de uma porta já gasta pela ação do tempo e pintada por sentimentos vários. Irretocável moldura do material do amor. Sentimento inexplicável – se sente e pronto -, igual às dores, que não se procura, mas chegam com diferentes intensidades e se adonam de nós.

 

       Meus olhos marejam pelo o que resta. São fragmentos, muitos, desbotados e gastos, quase inelegíveis, mas escritos e eternizados pelas lembranças afloradas. Vou me refazendo em histórias a cada pedaço reencontrado. Algumas vozes me atormentam, mas se dissolver esse passado seria história incompleta. Mesmo com o amarelecido do tempo exalam sonhos e pedaços de vida. Sou eu gritando vivências. Fecho os olhos e sinto o peso desse livro cheirando a mofo e que carrego em um equilíbrio quase matemático, na divisão dos meus eus espalhados e desordenados dentro de mim. Lembro Drummond quando poetiza: “Se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio”. Assim fecho o livro do tempo que, agora estático, nada acrescentará aos dias vindouros. Não quero mais capitular a minha existência. Sou sobrevivente de um tempo morto. Hora de vaticinar caminhos... Adeuses falam à minha alma. O livro do ontem se fechou. Para sempre?... Sigo em busca de um novo tempo a escrever uma nova história.

 

Lígia Beltrão