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Reflexão
Reflexão

 

                                                  Reflexão

 

       Vislumbro um passado, não tão distante, mas, emergido nas águas do tempo. Revejo a casa simples, o alpendre, o grande terreiro circundando, de chão batido e bem varrido, com vassoura de mato, ostentando o glamoroso coqueiro "catolé". As folhas deste pareciam querer beijar o azul do céu, que se descortinava mágico, ante meus olhos de inocentes quatro anos de idade. No curral, as vacas mugiam, conversando entre si, o mágico dialeto dos bichos. Lá adiante, o rio corria límpido, cantando sua canção de liberdade, correndo sobre seu caminho de pedras, cercado de flores do mato. Eu olhava aquilo embevecida, e, colhia o dia, no meu coração de menina encantada. Sempre fui assim. Guardava lá dentro do peito, os sentimentos que afloravam tímidos, com medo de serem espalhados pelo vento. O mundo não podia saber. Aquele era o meu melhor eu.

 

       O tempo passou, apagando a luz do meu candeeiro, durante a transmutação do meu ser. Eu me fiz e refiz em tantos acontecidos. Senti-me, por vezes, gigante, indomável ser, de quem ousa ser infinito. Outras vezes, pequenina e frágil, só, à procura de um colo, para chorar as incertezas da vida. Virei mulher. Não, sem antes brigar com meus eus, por medo de crescer. Era o meu eu do medo. Foi tão difícil! Ser mulher, não é só crescer física e mentalmente, mas também, e principalmente, no interior do ser, gritante em hormônios aflorados, carências, desejos, atitudes e sentimentos. Eu consegui vencer os monstros que apareceram, assustadores, rondando meus dias incertos. A correria da atualidade mostra-me outro mundo. O mundo das angustiosas constatações. É a era das máquinas gigantes, que atordoam as criaturas, fazendo-as sentirem-se quase robôs. Aflitos vivem os homens, benditos sejam seus cansados dias!

 

       Eles, os homens, quase perdidos, já não sabem mais contar as horas naturalmente, pelo canto dos grilos, pelo grito despertador do galo, os gorjeios românticos dos pássaros. As canções dos ventos, hoje, são quase devastadoras. Os rios, seguem seu curso correndo, vencendo as pedras do caminho tortuoso, chorando lágrimas doridas, pelo desprezo dos homens. O meu rio, aquele da minha infância, ainda canta dentro de mim, a canção das primaveras floridas, pelas flores do mato. Canção de amor. Virou sonho. Hoje só encontro essa felicidade sentida nos dourados anos da infância, dentro das páginas dos livros de histórias encantadas e como dizia Monteiro Lobato: “Tudo tem origem nos sonhos. Primeiro sonhamos, depois fazemos.” Infelizmente temos nos esquecido de fazer. Estamos é desfazendo, cedendo terreno ao que chamam de progresso. Os mares bravios invadem as orlas buscando seus antigos caminhos, tomados pelos arranha-céus da modernidade, onde trancam os sonhos dos que pensam serem livres. Corre-se feito maluco para todos os lados em busca de futilidades. Queremos a felicidade. Achamos que estamos indo ao seu encontro. Procuramos nas ruas corridas da vida. Ilusão. E ainda citando Monteiro Lobato: “Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar.” E fez. E nos transportamos...

 

       Guardo-me por um instante dentro de mim mesmo. O amor abre seus braços e me chama calmamente. Arremesso-me inteira. Sou acariciada e beijada por ele, tal qual o colibri à sua flor. Viro criança outra vez. Encantada, posso deixá-lo seduzir-me. Seus braços acolhem-me e eu entrego-me, ao doce beijo e às promessas que ele faz. Sou mulher. Sou plena. Sou feliz! No coração, resquícios da menina sonhadora, que agora, perdeu o medo e está, de fato, encontrando com o infinito. A criança submerge do passado e conhece o amor. E este, não morre nunca. Transfigura-se. É pleno e verdadeiro. Afinal, este é o encontro das almas. Das que foram prometidas no céu. O mundo segue seu curso, como um rio profundo. O meu mundo e os meus eus encontram-se agora, iluminados, na mesma dimensão. Essa mistura de mim, comigo mesma, é que me fazem encontrar o céu. Expandido dentro do meu interior. Sou vida que brota do amor. Minha criança permanece imortalizada, apesar de todas as mudanças.

 

 

Lígia Beltrão