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Realismo no Brasil
Realismo no Brasil

 

 

“A palavra escrita, que antigamente era um instrumento de poetas lamuriosos e de novelistas piegas e imorais, serve hoje para demonstrar um fato, desenvolver uma tese, discutir um fenômeno.”  Assim se referiu ao realismo o escritor Aluísio Azevedo.

 

BRASIL: 1880 – 1900

Seguindo de perto as tendências do Realismo na França e em Portugal, nossos escritores enveredaram pela crítica social, fazendo da literatura uma forma de análise da realidade brasileira.

Na década de 1880, diferentemente do que acontecia na Europa, o Brasil não vivia o processo do desenvolvimento industrial.  Éramos ainda um país essencialmente agrário, além de monarquista e escravocrata.  Apesar dos crescentes movimentos liberais, só nos últimos anos dessa década ocorreriam o fim da escravidão e a proclamação da República.

Com o fim da escravidão em 1888, o Brasil começa a estimular a vinda de imigrantes para o trabalho nas fazendas.  Aos poucos, os imigrantes se integram na vida brasileira e passam a trabalhar também nas casas de família, nas fábricas e no comércio.

No Brasil, o marco inicial do Realismo é a publicação, em 1881, de dois romances:  O mulato, de Aluízio Azevedo, e Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

 

Aluízio Azevedo

Aluízio Tancredo Gonçalves de Azevedo (1857-1913) deixou uma obra extensa, de qualidade irregular, da qual se destacam três romances: O mulato, Casa de Pensão, O cortiço.

 

O cortiço

A mais importante obra naturalista brasileira.  Focaliza o nascimento, o desenvolvimento e a decadência de um típico cortiço carioca do século XIX, com os tipos humanos que por lá passam – lavadeiras, prostitutas, operários, mascates, malandros, imigrantes -, dando assim uma amostragem da população marginal do Rio de Janeiro.

Obediente aos princípios do Naturalismo, o autor destaca a influência do meio e a força dos instintos no comportamento das personagens, que muitas vezes são comparadas a animais.  O ambiente degradado e promíscuo do cortiço molda e determina a conduta dos que ali vivem.  É o caso de Pombinha, menina pura e simples que, não resistindo às pressões do ambiente, acaba por se prostituir.  Ou então de Jerônimo, aldeão português que, vindo morar no cortiço com a mulher e a filha, é arrebatado por uma paixão sensual por Rita Baiana e abandona a família e a vida regrada que até então levava.

É mostrada também a ascensão social do vendeiro português João Romão, dono do cortiço e de uma pedreira, cujos empregados, além de morar nos casebres por ele alugados, endividam-se comprando fiado em sua venda.  Através dessa exploração, João Romão vai enriquecendo, auxiliado por sua amante e em pregada, a escrava fugida Bertoleza, para quem ele havia forjado uma carta de alforria.  O maior desejo do vendeiro é adquirir boa posição social, como a de seu patrício Miranda, que mora no sobrado encostado ao cortiço.  Movido pela ambição, não hesita em usar de todos os recursos para acumular fortuna e ficar noivo da filha de Miranda.

 

Raul Pompéia

Raul Pompéia (1863-1895) deixou o romance O Ateneu, sua obra mais importante, a novela Uma tragédia no Amazonas e Canções sem metro, poemas em prosa.

No romance O Ateneu, a ação transcorre no ambiente fechado e corrupto de um internato, onde convivem crianças, adolescentes, professores e empregados.  A narração dos fatos é feita por Sérgio, um ex-aluno da escola, que recorda os anos que passou no Ateneu.  O romance adquire, assim, caráter memorialista, o que é indicado pelo subtítulo: “Crônica de saudades”.

O Ateneu é, portanto, um romance introspectivo, de caráter impressionista, no qual se faz a análise psicológica do sensível e frágil Sérgio, que, saindo do aconchego do lar, sente-se deslocado no ambiente agressivo e sensual do colégio, representação, em miniatura, da sociedade e do mundo: “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta”. Essas são as palavras iniciais do romance, que antecipam o caráter simbólico da escola.

 

As comédias de França Júnior e Artur Azevedo

Esses são os dois autores de teatro mais importantes do final do século XIX.  Ambos se dedicaram à comédia e à sátira social.

França Júnior (1838-1890), influenciado por Martins Pena, retratou bem certos tipos humanos e situações da época.  Suas peças mais famosas são As doutoras e Caiu o ministério.

Artur Azevedo (1855-1908) foi um infatigável batalhador pelo desenvolvimento do nosso teatro.  Manteve durante anos a fio uma coluna na imprensa sobre o mundo teatral brasileiro. Foi cronista, contista e autor de numerosas comédias, dentre as quais merecem destaque A capital federal e O dote.

 

Machado de Assis

Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) destacou-se principalmente no romance e no conto, embora tenha escrito crítica literária, crônicas, peças de teatro e quatro livros de poesia – Crisálidas, Falenas, Americanas, Ocidentais.

Machado de Assis escreveu nove romances.  Nos primeiros – Ressurreição, A mão e a luva, Helena e Iaiá Garcia -, ainda apresenta alguns traços românticos na caracterização das personagens.  Mas a partir de 1881, com Memórias póstumas de Brás Cubas, tem início sua fase propriamente realista, em que revela seu incrível talento na análise do comportamento humano, descobrindo, por trás dos atos aparentemente bons e honestos, a vaidade, o egoísmo, a hipocrisia.

A vida em sociedade surge, então, como uma espécie de campo de batalha em que os homens lutam para gozar uns poucos momentos de prazer e satisfazer seus desejos de riqueza e ostentação, enquanto a natureza assiste ao drama humano com indiferença.

Essa fase realista continua com os romances Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó de Memorial de Aires.

No século XIX, o conto brasileiro atingiu seu ponto mais alto com Machado de Assis, que escreveu verdadeiras obras-primas de análise psicológica e social, como “O enfermeiro”, “A cartomante”, “A Igreja do Diabo”, “O alienista”, “Pai contra mães”, “A causa secreta”, “O espelho”, “Missa do Galo”, entre outros.

 

Dom Casmurro

Em Dom Casmurro revela-se todo o talento de Machado de Assis na análise psicológica das personagens e na criação de um clima de incerteza e ambiguidade.  Na velhice, Bentinho (apelidado Dom Casmurro por viver recluso e solitário) resolve contar fatos de sua infância na casa da mãe viúva, D. Glória, ao lado do tio Cosme, da prima Justina e do agregado José Dias.  Seus vizinhos são Pádua e Fortunata, pais de Capitu, de condição inferior à da família de Bentinho.

Bentinho e Capitu começam a namorar, mas D. Glória, fiel a uma promessa antiga, coloca-o no seminário.  Com a ajuda de Escobar, um colega de seminário, Bentinho encontra um modo de não ter de cumprir tal promessa e casa-se com Capitu.  Os casais moram perto e tornam-se muito unidos.

Tempos depois, Escobar morre.  Apo ver a reação de Capitu no velório, Bentinho desconfia de que ela o traiu com o amigo, suspeita que vai se intensificando à medida que seu filho, Ezequiel, cresce e parece adquirir, para ele, feições semelhantes às de Escobar.  Torturado pelo ciúme, Bentinho decide se separar dos dois, embora em nenhum momento fique indiscutivelmente claro se realmente ocorreu a traição. Fazem uma viagem à Europa.  Bentinho volta, mas Capitu e Ezequiel se estabelecem na Suíça.  Mais tarde, Capitu morre sem ter visto o marido. Ezequiel, já moço, faz uma única  visita a Bentinho, no Brasil, e morre pouco depois.

 

Memórias póstumas de Brás Cubas

Os leitores acostumados com as histórias tradicionais tiveram uma grande surpresa com esse livro: seu narrador era um... defunto! Um defunto que resolveu distrair-se um pouco da monotonia da eternidade escrevendo suas memórias com a “pena da galhofa e a tinta da melancolia”.

Livre das convenções sociais, pois está morto, o narrador Brás Cubas fala não só de sua vida mas de todos os que com ele conviveram, revelando a hipocrisia das relações humanas.  Ao longo do livro são narrados vários casos: sua paixão juvenil pela bela e interesseira Marcela, que o amou “durante quinze meses e onze contos de réis”; sua amizade com o filósofo maluco Quincas Borba; seus amores clandestinos com uma mulher casada, Virgília. Mas a ordem da narrativa nem sempre é linear – muitos fatos vão se encadeando conforme as lembranças de Brás Cubas e não necessariamente de acordo com a sequência cronológica em que ocorreram.

As reflexões sarcásticas de Brás Cubas vão impregnando o texto de um pessimismo radical.  Nada resiste a essa análise impiedosa, e suas últimas palavras resumem bem essa concepção amarga e negativista da vida.  “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”.