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QI 180 - Um Presente ou...?/Conto de Luiz Amato
QI 180 - Um Presente ou...?/Conto de Luiz Amato

   CONTO:  QI 180 - UM PRESENTE OU...?                          AUTOR: Luiz Amato

 

Q.I. 180 – Um presente ou...?

 

George não acreditava que tantas coisas boas podiam lhe acontecer, em tão curto espaço de tempo. Sua trajetória fora difícil.

Filho único de imigrantes, aos quatro anos perdera os pais, em um acidente de carro. Como nenhum parente se apresentou, seu destino foi o orfanato.

Lá passou a infância e a adolescência. Sempre participara de listas de adoção e apresentações para casais. Ele acreditava que seus traços latinos, mais a sua boca torta, impediam que fosse escolhido.

Não era de fazer amigos. Gostava muito mais de ficar sozinho, com seus sonhos.

Nunca fora maltratado pelas irmãs, que cuidavam do orfanato. Madre Constance, a superiora da ordem local, era seu anjo da guarda. Ela o tinha em alta estima.

Havia sido ela quem percebera a precoce inteligência em George, estimulando-o.

Sua capacidade para cálculos, raciocínio lógico e organização, era fabulosa. Isso o levou, com a ajuda da madre, a conseguir uma bolsa de estudos na mais conceituada universidade de tecnologia.

Pela primeira vez deixaria o estado de Kentucky. 

Os anos passados até a sua formatura, seguiram o mesmo padrão de sua vida no orfanato. Sempre sozinho, sem amigos.

Durante o primeiro ano na universidade, trocara algumas cartas com madre Constance. Infelizmente uma grave doença deixara-a paralisada, na cama.

Com a perda de sua protetora, restaram-lhe apenas seus estudos e o trabalho na biblioteca, que o ajudava a custear suas despesas pessoais.

Tudo na sua vida fora difícil, mas já estava acostumado. Até a ideia de que passaria todos os períodos na universidade, sem conseguir uma namorada, era, para ele, obvia.

A formatura estava próxima. Isso o preocupava. O que faria após a conclusão dos estudos?

Retornaria para Kentucky, ajudando, com seus conhecimentos, na instalação de um laboratório de tecnologia digital no orfanato?

Ou então tentaria uma vaga na universidade, como professor auxiliar? Ou no monitoramento de algum dos laboratórios?

Não tinha a mínima ideia do que faria.

 

 

Chegara a hora.

Ele se formou como o melhor aluno de sua turma, e um dos melhores de todos os tempos na história do curso.

Isso lhe valera alguns prêmios dos mantenedores da universidade, sendo, um deles, um cheque de mil dólares.

Não pensou duas vezes sobre o que fazer. Após retirar o dinheiro no banco, comprara duas belas camisas, uma calça e sapatos. No sábado iria, pela primeira vez, no Thank´s, o point mais comentado pelos alunos.

De início ficou desapontado. Era igual a qualquer barzinho da cidade, só que muito cheio, e o pior, as mesmas caras do campus. A música rolava, alta.

Permaneceu encostado em um canto do grande balcão, apreciando o movimento.

– Ola. Você aparenta, da mesma forma que eu, não estar gostando do local.

Ele olhou para a pessoa a seu lado. Era uma mulher.

Aparentava alguns anos a mais que ele. Não era linda, mas também não era feia. De relance reparou seus seios fartos e o belo corpo. Sentiu-se corar.

– Exato. Não gosto. Muito barulho e muita gente.

Ela bebia um drinque.

– Então somos parecidos - sorriu, estendendo-lhe a mão. – Susan.

– George – ele segurou a mão dela por alguns instantes. Era a primeira vez que conhecia uma mulher desse jeito. Bebeu mais um gole de sua cerveja. Não sabia o que fazer, ou falar.

– Você não é de conversar muito. É? Já sei. Está esperando alguém, certo?

Ele gaguejou: – Não. Desculpe-me. É que não sou de falar muito mesmo. Mas não estou esperando ninguém. Corou novamente.

Susan sorriu.

– Que tal irmos para outro "point", onde possamos conversar sem esse barulho infernal.

– Sim, claro.

A noite transcorreu perfeita. Após algumas horas de boa conversa e cervejas em outro barzinho, bem mais tranquilo que o Thank’s, foram para o apartamento que Susan alugara para sua estadia na cidade.

Mais risos e bebidas, levaram-nos ao quarto. Para ele foi uma noite inesquecível.

 

 

Ele nunca chegara atrasado ao serviço. Mas para tudo sempre tinha uma primeira vez. E a razão do atraso não poderia ser melhor.

Trabalhou com um sorriso no rosto. Até trocara algumas palavras com uma das atendentes.

Ao terminar seu período de trabalho, foi direto para seu quarto, no alojamento. Pegou um bilhete que fora colocado por baixo da porta, deixando-o sobre a mesa de estudos.

Depois de um reconfortante banho deitou-se em sua cama. Decidiu não fazer mais nada a não ser lembrar de todos os detalhes da noite passada.

Acordou com uma disposição acima do normal. Além de ser sua folga na biblioteca, ligaria para Susan, para marcar um encontro à tarde.

Depois de um rápido desjejum, leu o bilhete. Fora convocado para uma conversa na reitoria às dez horas da manhã. Uma ressalva chamou-lhe a atenção: Usar traje social completo.

Aquilo aguçou-lhe a curiosidade. O que seria essa conversa? Bem, tinha ainda uma hora para se aprontar.

Faltavam cinco minutos para o horário marcado, quando George entrou na antessala do reitor. Rose, a secretária, pediu que aguardasse.

Sua surpresa foi enorme ao adentrar a sala. Lá estavam reunidos; o reitor, o coordenador de tecnologia e Susan.

– Entre George – Sam fez as apresentações. – Este é Dr. Morris, nosso reitor. E esta é a Srta. Susan – apertou-lhe a mão encarando-a.

– Ela é uma head hunter da Califórnia. Representa a Highplass Tecnology, empresa do vale do silício.

Susan devolveu-lhe o olhar – Muito prazer em conhecê-lo Sr. George.

– O prazer é meu.

Todos sentaram-se.

O reitor tomou a palavra:

– Meu caro rapaz. O seu desempenho incomparável, durante o curso, chamou a atenção de diversas empresas, na área de alta tecnologia. Tivemos algumas reuniões, de onde concluímos ser a Highplass Tecnology, a sua melhor oportunidade – ele ajeitou-se na cadeira. – Continue Srta. Susan.

– A Highplass Tec. é hoje uma das principais empresas no desenvolvimento de processadores. Fui contratada para lhe ofertar uma carreira na companhia.

 George tamborilava os dedos sobre a mesa.

– Você começaria como gerente trainee de laboratório, sobre a orientação do Dr. Orson Klavinsky.

– Por quanto tempo? – perguntou Sam.

– Segundo o doutor, estima-se um período entre três e meio a quatro anos. Após isso, George ocuparia o cargo de Diretor de desenvolvimento, permitindo que o Dr. Orson, como é seu desejo, se aposente.

Todos olharam para ele.

– Não sei nem o que responder. Um trabalho com Orson Klavinsky é o melhor que qualquer pessoa nessa área possa desejar.

Susan sorriu. – Posso considerar suas palavras como um sim?

– Claro. Com certeza.

– Muito bom. Ainda esta semana você receberá passagem aérea para a Califórnia. Assim que chegar, será informado sobre todas as medidas necessárias para o início imediato.

– Quanto a salários?

– Não me foi permitido adiantar informações sobre essa parte, mas posso lhe dizer que a remuneração prevista, é bem acima do nível de trainee.

Ele sorriu.

– Para mim, está tudo perfeito.

– Ótimo então – ela dirigiu-se a todos: – Senhores, se não existe nenhuma dúvida, consideremos tudo certo – levantou-se cumprimentando-os. – Desculpem-me a pressa. Meu voo está marcado para as onze e cinquenta.

Assim que Susan deixou a sala, George recebeu fervorosos abraços de Sam e um aperto de mão do reitor. Ele seria auxiliar de um dos mais brilhantes cientistas do vale do silício. Dr. Orson Klavinsky.

 

 

Sua mudança ocorreu sem nenhum problema. Fora instalado em um duplex, no alojamento contíguo aos laboratórios.

Já fazia duas semanas que circulava, de jaleco branco, nos corredores da área laboratorial da Highplass Tec, em companhia de Peter Kauff, assistente de Orson.

– Imagino que você já leu a primeira leva de relatórios e procedimentos que deixei em sua sala.

– Sim. Tudo lido.

– Também assinou todos os memorandos?

– Até cansei a mão de tanto rabiscar.

– Isso é muito bom. Amanhã teremos uma conversa com o Dr. Orson.

Até que enfim ele o conheceria pessoalmente. Já não era sem tempo. Talvez a partir desse contato lhe permitiriam acesso à ala especial, onde os processadores eram criados.

Naquela noite não conseguiu dormir de imediato. A expectativa da reunião lhe tirara o sono. Levantou-se, indo tomar água. Lembrou de Susan. Queria vê-la.

Nas últimas semanas, ligara algumas vezes para ela, mas sempre o tom de ocupado.

A madrugada já ia alta quando adormeceu.

A sala estava cheia quando o Dr. Orson entrou. Ao contrário das expectativas de George, ele era mais alto do que aparentava nas fotos de revistas e jornais. Já passara dos sessenta anos. Seu olhar era frio, inexpressivo.

Iniciou a conversa, detalhando, durante mais de uma hora, os novos procedimentos tecnológicos, para os quatro chefes de laboratório presentes. Como nenhuma dúvida foi colocada, dispensou-os, como se encerrasse a reunião.

– Vejo vocês dois na ala alfa, às treze horas – retirou-se da sala sem olhar para trás. George olhou, sem entender, para Kauff.

– Você vai se acostumar com ele. É desse jeito mesmo. Às vezes, horas de explicações, outras, apenas uma frase.

– É, percebi. Vim pronto para uma árdua sabatina oral.

– Anime-se homem. Você irá conhecer a área alfa. Não era isso que queria?

No horário marcado encontraram o doutor. O laboratório era algo muito acima do que George pudesse ter imaginado.

Com seus equipamentos e a moderna tecnologia empregada, era como se fosse parte do cenário de um complexo filme de ficção.

Foram para uma pequena sala. Dava a impressão de uma enfermaria.

– Sente-se – Orson apontou-lhe uma cadeira.

– Quero lhe dizer que você está prestes a participar do maior avanço tecnológico em nossa área. O primeiro processador controlado por impulsos cerebrais do usuário.

George olhou impressionado. Não conseguiu falar.

– É espantoso mesmo. Imagine uma pessoa em frente do computador, ou algum equipamento móvel. Bastara pensar e a ação correspondente será efetuada. – Os olhos de Orson, normalmente inexpressivos, brilhavam.

– Todo microprocessador responderá a partir de impulsos cerebrais de seu usuário. O que acha?

George engoliu em seco. – É uma revolução na tecnologia atual. Uma nova era.

– Isso. Muito bem definido. Uma nova era tecnológica. E você será parte integrante dela.

– Como isso é possível doutor?

– Tudo está definido pelo conceito de rede. Deixe-me explicar. Funciona assim:

– Todo cérebro humano é composto de milhões de neurônios e eles emitem sinais elétricos. Após dezenas de anos de pesquisa, conseguimos decodificá-los. São todos diferentes, definindo assim as assinaturas digitais de cada neurônio.

– Porém, só isso não era o suficiente para elaborarmos o nosso projeto. A partir daí passamos a estudar as assinaturas, estimulando-as. Fizemos um mapa preciso das funções de cada uma.

– Só que não era interessante acessá-las uma a uma. São milhões de acessos. Concentramos o trabalho em acharmos o modo de uma única via, o que conseguimos há dois anos atrás.

George não piscava um olho.

– A partir daí foram saltos exponenciais. Montamos um banco experimental com dez cérebros, todos interligados em rede com a sua via de acesso individual e uma via de acesso global do banco, a qual foi conectada a um processador, com input por teclado.

– Foi simplesmente impossível de determinar a velocidade de resposta. Era milhões de vezes mais rápida que os computadores de última geração.

– Paralelo aos estudos, desenvolvemos um leitor de assinatura para a via individual de um cérebro.  Sabe o que isso quer dizer?

Ele não esperou pela resposta.

– Qualquer pessoa poderá comprar um processador personalizado, que responde a sua assinatura individual.

– Resumindo: Todo indivíduo terá seu processador padrão comandado por seus pensamentos (impulsos cerebrais), interligado em rede com bancos de cérebros. Tudo funcionando instantaneamente.

– Porém o sistema de bancos apresentou um problema ao conectarmos a via de acesso , para coleta de dados em nossos sistemas de memórias convencionais.

– O armazenamento gera sobrecargas elétricas mais fortes nos neurônios, mudando a sua assinatura digital, e, em consequência, toda a funcionabilidade.

– De novo recorremos a mais estudos e um de nossos cientistas percebeu que um dos cérebros do segundo banco testado, não apresentava esse problema.

– Desculpe interromper doutor, mas cérebros? Humanos? Reais?

– Sim. Cérebros humanos. Nossos cientistas aprenderam a conservá-los, funcionando como uma máquina, mesmo após a morte física do corpo.

– E como os conseguem?

– A maioria deles nos foi doada por universidades e hospitais. Temos quarenta em operação, nos bancos. Dois foram de cobaias.

– Cobaias?

– Sim. Cientistas que trabalhavam anos no projeto e sofreram algum tipo de acidente, impossibilitando-os de continuarem sua jornada física saudável.

– Isso me parece um pouco não ético, doutor.

– Deixe-me terminar, aí você tira as suas conclusões.

– Como eu dizia, um de nossos cientistas percebeu que um dos cérebros não apresentava o problema quando do armazenamento. Era o de uma de nossas cobaias.

– Ele foi dissecado. Qual a diferença física para os demais? Nenhuma.

– Mas existia sim uma diferença. O Q.I. de nossa cobaia era de mais de 180. Estava aí a solução de nossos problemas.

– Refizemos toda a arquitetura de nosso sistema. Agora usávamos dois bancos distintos. Um, com os dez cérebros normais, somente para velocidade de processamento e outro, com o cérebro especial, para armazenar os dados.

– Também aprendemos sobre o tempo de utilização de um cérebro conservado. Quanto mais jovem, maior a durabilidade. Por exemplo: um de 60 anos suportaria mais 30, porém um de 20 duraria mais 180, num total de 200 anos sem necessitar ser substituído.

Orson respirou fundo. – O que acha agora, com todas as informações?

George sentiu-se inquieto, mas não soube definir o porquê da sensação. – Continuo achando fora de ética.

– Jovens, jovens. Sempre isso daqui, isso dali. A ética, a moral. Estariamos na idade da pedra se vivêssemos sem ultrapassar a linha da ética e da moral. O que acha Kauff?

Ele balançou a cabeça afirmativamente. Seu rosto estava impassível.

Orson levantou-se.

– Bem senhores, me acompanhem até a sala ao lado, onde estão os bancos e onde fazemos a coleta dos cérebros. George, só para confirmar:

– Seu QI é de 190, certo?

 

FIM