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Psicos/Conto de Luiz Amato
Psicos/Conto de Luiz Amato

CONTO:  PSICOS                   AUTOR:  Luiz Amato

 

 

PSICOS

 

Agora ela estava dentro da mente do assassino.

 

♣♥♣

 

Madrugada de domingo. A característica garoa paulistana, nublava as calçadas da Avenida Paulista.

 

Melyssia, ou Maria Gorette, seu nome no batismo, caminhava chateada. Passara as últimas horas na boate, sem nenhum cliente. E pior, gastara seus últimos trocados em drinks.

 

Mas parece que sua sorte mudaria. Ouviu a característica buzinada. Lembrou de quando fazia ponto na cidade universitária.

 

Com o melhor dos seus sorrisos, caminhou em direção ao carro, um modelo de luxo, debruçando na janela do passageiro.

 

 - Oi querido, que tal um programa.

 

A mão enluvada, segurando um fino e comprido estilete, foi a última imagem que sua mente registrou, antes de ter a garganta trespassada.

 

Ao atingir o chão, já estava morta.

 

 

♣♥♣

 

 

Segunda -feira, 22:00 horas:

 

Cleysonn deixou o bar do Pedrão da mesma forma que nos últimos três anos, após ser despedido de seu emprego de vigia, cambaleando.

 

Ele tinha consciência de que a bebida acabaria com ele, mas fazer o que.

 

Como poderia cuidar de si e de sua família, se não tinha como conseguir dinheiro. Ele catava latinhas, porém, o valor conseguido mal dava para pagar as pingas.

 

Estava um pouco frio e sua visão turvada, pelo mistura de álcool e da neblina que pairava sobre a zona norte de São Paulo, mas isso não o impediu de perceber a frente, encostado ao muro, um vulto, com uma longa capa, acendendo um cigarro.

 

- Acho que estou com sorte – pensou.

 

Se eu chegar intimando, com certeza consigo um cigarro, e quem sabe até uns trocados para amanhã.

 

Tentando não cair, aproximou-se do vulto elevando a voz:

 

- Ei maluco...

 

Ele não terminou a frase. Uma comprida faca de cozinha rasgou seu peito, atravessando o coração.

 

 

♣♥♣

 

 

Era a quarta vez, neste semestre, que chamava a mãe de Carlos. A pedagoga não queria expulsar o garoto da escola, mas a situação fugia do controle.

 

Carlos Eustáquio, como sua mãe insistia que todos o chamassem, era um menino grande e robusto, para os seus quase seis anos de idade.

 

Desde pequeno, demonstrara certa agressividade, que segundo vários psicólogos, era, em parte, resultado da separação dos pais. Mas ela aumentava dia a dia, tornando-o um pequeno tirano.

 

Nessa terça-feira, as crianças brincavam no pátio, quando Carlos viu Lúcio com seu novo caminhãozinho de areia. Ele ficou deslumbrado pelas luzes que piscavam e pelo som da sirene na parte superior do basculante.

 

Correndo até aonde Lúcio brincava, e sem pedir, pegou o brinquedo. O garoto empurrou-o.

 

Olhar fixo, Carlos bateu com toda a força, o caminhão no rosto de Lúcio, fazendo com que ele caísse. Sem sinal algum de arrependimento, chutou-lhe o corpo, antes que uma das orientadoras conseguisse segurá-lo.

 

- Bem D. Loretta, foi isso o que ocorreu, e não é a primeira vez. O que faremos com Carlos?

 

- A senhora quer dizer Carlos Eustáquio certo? Pergunto-lhe:

 

- Será que ele não foi provocado antes de reagir?

 

- Não foi, mas não é isso o que me preocupa. O problema é a agressividade de seu filho.

 

Esmurrando a mesa com força Loretta gritou:

 

- Como vocês podem afirmar que Carlos Eustáquio é agressivo? Vocês têm diplomas para isso?

 

O sinal de fúria incontida era visível em seu rosto.

 

- Eu acabei de conversar com o inspetor de alunos e ele confirmou que Carlos Eustáquio foi provocado.

 

- Com quem?

 

- O inspetor, um senhor, por sinal muito bem apessoado, com um guarda-pó arrastando até o chão. Ele estava com o carrinho na mão. Eu até achei engraçado, pois usava luvas.

 

- Desculpe, mas nós só temos orientadoras.

 

- Oras, vocês estão querendo encobrir o que? - ela gritava.

 

- Ele estava aí fora antes de eu entrar.

 

Levantando-se rápida, dirigiu-se ao corredor. Ao sair da sala da pedagoga, pisou em algo roliço, que a fez escorregar com violência, caindo sobre o pescoço, quebrando-o.

 

Morte instantânea. Escorregara em uma das rodinhas do caminhão.

 

 

♣♥♣

 

 

-Então você os matou? - perguntou a psicóloga, doutora Mirnea.

 

Meio sem jeito, Warsley respondeu:

 

- Como lhe disse, não aguentava mais todas essas personalidades. Cansei da vida de prostituta, tratada como um mero objeto. Cansei de ser um desempregado bêbado, sem perspectivas, sustentado pela esposa. E, o principal, de ser uma mal amada, que se importa só com o seu nariz e o filho. A dona do mundo.

 

Ajeitando-se em sua cadeira, ela lhe perguntou:

 

- Mas você disse que cansou de suas múltiplas personalidades, mas percebo que poupou o garoto?

 

- Sim, afinal ele não passa de um pobre menino, que foi mal orientado por aquela tremenda chata. Acho que ele ainda tem chances de mudar e ser normal.

 

- Você acha isso mesmo? Tem certeza?

 

- Sim, tenho.

 

- Ok então, por hoje está encerrada a consulta.

 

Ela levantou-se da cadeira, dirigindo-se para a mesa, de onde retirou um pequeno revolver, guardado em uma caixa metálica.

 

- Me desculpe Warsley. Você sabe que lhe amo, e sempre lhe amarei:

 

" MAS EU DESTESTO AQUELE MOLEQUE. TENHO ÓDIO MORTAL DE CARLOS EUSTÁQUIO.”

 

- Fiz de tudo em nossas consultas, para que você entendesse que seriamos só nós dois. Mas não, você tinha que deixar vivo, justo O PIOR de todos eles. Agora não tenho mais escolha.

 

Ela abriu a boca, colocando o cano do revolver encostado no "céu da boca". Puxou o gatilho. Warsley tivera morte instantânea.

 

 

♣♥♣

 

 

Passados três anos:

 

- Como está minha irmã doutor? Alguma melhora?

 

- Não. Ela continua em coma profundo. Poderia até dizer que em estado vegetativo, se não fosse pelos movimentos esporádicos das pálpebras e do globo ocular.

 

- Pobre Mirnea. Gostava tanto da vida. Por que fez isso?

 

- Nunca saberemos o que se passou em sua mente, levando-a a essa atitude.

 

- Obrigado doutor. Fique em paz minha irmã.

 

 

♣♥♣

 

 

De novo, os movimentos involuntários.

 

- Você é uma chata, não me responde. Fala comigo. Eu quero meu carrinho. Se não me der eu lhe dou um murro e chuto sua cara.

 

- Não acredita? Pois tome então. Acorda.

 

 

- FIM -