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Pré-Modernismo no Brasil
Pré-Modernismo no Brasil

 

PRÉ-MODERNISMO NO BRASIL

 

No início do século XX, a literatura brasileira, de modo geral, não apresentava sinais de renovação.  Os movimentos artísticos que agitavam a Europa não repercutiam no ambiente artístico brasileiro, ainda bastante provinciano e acanhado.  Alguns escritores, porém, contrariavam esse estado de coisas.  Eram os pré-modernistas.

 

A DESCOBERTA DE UM OUTRO BRASIL

Nos primeiros anos do século XX, a literatura brasileira passava longe dos problemas mais sérios da sociedade brasileira.  Era encarada apenas como uma de entretenimento das elites.  Nossa poesia era quase toda parnasiana, com sua linguagem artificial e temas repisados.  A prosa buscava os velhos recursos do Realismo e até do Romantismo.

No entanto, alguns poucos escritores – Euclides da Cunha, Monteiro Lobato, Lima Barreto e Graça Aranha – destoaram dos demais e produziram obras que mostravam uma visão crítica da realidade brasileira.  Por isso, são considerados pré-modernos, conforme sintetiza o crítico Alfredo Bosi: “Creio que se pode chamar pré-modernista tudo o que, nas primeiras décadas do século, problematiza a nossa realidade social e cultural”.

Euclides da Cunha, em Os sertões, denuncia a situação miserável do sertanejo nordestino, abandonado pelo governo, que, em vez de compreender e resolver os problemas das desigualdades sociais, nada mais faz do que intervir com violência e crueldade.  Monteiro Lobato se preocupa em mostrar o estado de abatimento físico e miséria cultural do homem que vive no campo.  Graça Aranha, no romance Canaã, enfoca problemas da imigração.  Lima Barreto trata da vida obscura do proletariado urbano, da discriminação racial e da corrupção política.

 

UM PAÍS QUE CRESCE COM MUITOS PROBLEMAS

Os primeiros anos do século XX mostram um Brasil com muitos problemas sociais e políticos.  A República, que tinha sido proclamada em 1889, não trouxera as reformas de que o país necessitava.  As desigualdades econômicas que há entre as diversas regiões do país provocam situações de conflito e tensões sociais, observadas também no campo e nas cidades.                               Revolta da Chibata, 19l0

            Revolta da Vacina, 1904

            Guerra de Canudos, 1893-1897

            Guerra do Contestado, 1912

 

EUCLIDES DA CUNHA

Euclides da Cunha (1866-1909) foi colaborador do jornal O Estado de São Paulo, que, em 1897, enviou-o a Canudos, povoado no interior da Bahia, para escrever sobre as operações que o Exército estava realizando com o objetivo de sufocar a rebelião de sertanejos liderada por Antônio Maciel, o Conselheiro.

Euclides da Cunha ficou em Canudos até quase o fim das lutas.  Com base nas pesquisas e reportagens feitas para o jornal, publicou, em 1902, Os sertões.  A obra causou um grande impacto não só pela originalidade e exuberância de seu estilo como também pela corajosa crítica às ações do Exército, que, obedecendo às ordens do governo republicano recém-proclamado, massacrou os habitantes de Canudos.

 

OS SERTÕES

Embora não seja ficção, Os sertões pode ser considerado uma obra literária pelo tratamento artístico a que o autor submeteu o assunto e a linguagem. E pode ser considerado pré-moderno pela visão crítica que expressa sobre a realidade brasileira.

Segundo Euclides da Cunha, os sertanejos que se refugiaram em Canudos, onde tentaram criar um estilo comunitário de vida, não poderiam ser vistos como culpados, mas sim como vítimas de uma série de fatores econômicos, geográficos, raciais e históricos.  Abandonada pelo governo, a população miserável do sertão – formada pela mistura do branco com o negro e o índio – foi ficando cada vez mais isolada e acabou formando comunidades fechadas e muito atrasadas culturalmente, facilitando o surgimento do misticismo e fanatismo religioso.

A figura carismática e impressionante de Antônio Maciel, chamado o “Conselheiro”, cumpriu o papel de líder místico, aglutinando em torno de si uma multidão de sertanejos miseráveis, sedentos de esperança e de melhores condições de vida.  A presença incômoda daquele povoado que crescia e atraía gente de vários lugares, provocou a interferência violenta de tropas policiais, que queriam desaloja-lo dali.  Apesar da diferença de recursos, a resistência obstinada dos sertanejos, para quem a luta se revestia de caráter religioso, foi tornando o combate cada vez mais feroz.  O governo baiano, impotente diante da situação, apelou para o Exército.  Nos confrontos iniciais, as forças do governo sofreram muitas baixas, animando os sertanejos e indignando ainda mais o Exército, que resolveu armar uma verdadeira operação de guerra para destruir Canudos, o que finalmente aconteceu, numa carnificina impressionante.  No dia 5 de outubro de 1897, ocorreu o último confronto, assim descrito por Euclides da Cunha:

“Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo.  Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram.  Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.”

 

A TERRA, O HOMEM, A LUTA

Euclides da Cunha foi influenciado pela teoria determinista na análise que fez da Guerra de Canudos.  A própria divisão do livro, aliás, já revela o esquema determinista.  Na primeira parte – A Terra – estuda cientificamente a região.  Na segunda – O Homem – procura mostrar como a mistura das raças e as condições geográficas fazem surgir um certo tipo humano.  Na última parte – A Luta – narra o conflito entre a visão de mundo dessas comunidades isoladas e a mentalidade da “civilização urbana”, que resulta num combate sangrento e na destruição dos sertanejos.

Essa concepção determinista de Euclides da Cunha baseou-se nas teorias do naturalista francês Hippolyte Taine (1828-1893), que via o comportamento humano como resultado da influência do meio, da raça e do momento histórico.

 

LIMA BARRETO

Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922) ocupa um lugar de destaque em nossa literatura porque fez uma crítica contundente da sociedade carioca (e, por extensão, da sociedade brasileira) do começo do século XX.  Denunciou o preconceito racial e a corrupção das nossas elites e falou com carinho e compaixão do povo sofrido dos subúrbios, de suas vidas tristes e sem horizontes.

Nas palavras do escritor João Antônio, Lima Barreto “resolveu não seguir a moda, colocou em ridículo o diletantismo literário, revoltou-se contra os formalismos, mandou ao diabo todo o tipo de retórica balofa e, enquanto os seus contemporâneos, senhores literatos, falavam do Olimpo e de plagas gregas que nem conheciam, ele inaugurou no papel o subúrbio carioca”.

De sua vasta produção literária, merecem destaque os romances Triste fim de Policarpo Quaresma, Recordações  do escrivão Isaías Caminha, Numa e Ninfa, Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá, e os contos, que foram reunidos no volume Histórias e Sonhos, publicados postumamente.  Desses contos, são famosos “O homem que sabia javanês” e “A nova Califórnia”.

 

TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA

Lima Barreto escreveu este romance de janeiro a março de 1911 e, a partir de agosto, começou a publica-lo em folhetins no Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro.

A ação transcorre no final do século XIX, e a figura central é o major reformado Policarpo Quaresma, um nacionalista fanático que, conhecendo o Brasil apenas por intermédio dos livros, sonha em poder ajudar o país a se transformar numa grande potência.  Seu patriotismo leva-o a se envolver em três projetos nacionalistas, que constituem o conteúdo das três partes em que se divide o livro.

Inicialmente, Quaresma mergulha no estudo das tradições brasileiras, depois dedica-se ao trabalho agrícola, para finalmente lutar pelos ideais republicanos.  Vê em Floriano o reformador que sonhara e entrega-lhe um documento em que expõe seus planos de salvação do país. Mas o Marechal responde-lhe secamente: “Você, Quaresma, é um visionário...”.  Desilude-se mais uma vez.  Compreende então que não há patriotismo.  Os homens que governam o país só estão preocupados com seus interesses pessoais.  E ao denunciar as atrocidades que se cometem contra os prisioneiros, acaba sendo preso pelo mesmo governo ao qual se aliou voluntariamente.  Na prisão, espera seu “triste fim”.

 

MONTEIRO LOBATO

Os princípios estéticos de Monteiro Lobato (1882-1948) enraizavam-se em autores “clássicos” da língua portuguesa, não faltando mesmo certo purismo em sua linguagem literária.  Essa formação tradicional o impediu de assumir compromisso efetivo com o movimento renovador e polêmico dos primeiros modernistas, que ele via com desconfiança, temendo ser simples imitação de ideias estrangeiras.  Mas a visão crítica da realidade brasileira e o nacionalismo lúcido e objetivo que possuía revelam, sem dúvida, a face moderna de Lobato.

Ele descobriu o homem do interior do Brasil.  Descobriu nova dimensão da literatura brasileira, nacionalizando-a.  Daí seu êxito enorme, revelado pelo número das edições e, igualmente, pelo tom da crítica.

Monteiro Lobato deixou uma extensa obra, composta de contos, crônicas, ensaios, artigos.  De sua obra de ficção para adultos, merecem destaque os livros de contos Urupês, Cidades Mortas e Negrinha.  Mas foram os seus livros infantis que o tornaram muito popular.