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Por Que Escrever?
Por Que Escrever?

Por Que Escrever?

 

       Um dia alguém me perguntou o que eu escrevia e para que. O que quero dizer com a minha escrita? Ora, nem eu mesma sei. Escrevo porque gosto, porque o papel me escuta e grava meus sentimentos sem me fazer nenhuma pergunta. Ele está alí, pronto para me ouvir e fazer-se eterno divulgador do que me vai à alma. Lembro Mário Quintana quando diz em “O trágico dilema”: “Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro”. E foi pensando nessa frase que dei a mim mesma a resposta. Quando o autor escreve, ele o faz para o mundo, daí cabe a cada um dar o sentido que acha que lhe fica apropriado. Escrever é como extravasar sentimentos que estão explodindo de vida, rasgando as entranhas para correr o mundo, livres.

       Escreve-se para sentir prazer. Cada parágrafo, ou verso, é como se fosse um filho parido que vem do gozo para sacramentar um ato de amor, quase divino. Escrever é como abrir o coração e deixar o sangue da vida jorrar, sem sentir dor ou pudor de vê-lo aberto. Confissões reveladas no papel dizem do mais profundo do meu eu. Têm a força da perpetuidade, e vive, até depois do ultimo suspiro. Transito pelas letras como o jardineiro entre as flores semeadas, que já começam a florir. Admirando-as, com a satisfação dos que têm o dever cumprido.

       Caminho entre as cinzas de um passado morto, reavivando-o, e o presente, onde as flores que serão colhidas ao amanhecer exalam o perfume das primaveras. Escrevo o passado para ter razões de chorar e sentir saudades, assim, sairá o texto molhado de lágrimas, com a dor aflorada... Todos nós somos feitos de memórias. Nos fragmentos encontramos pedaços de nós. Haverá os que chorarão ao ler cada palavra, pois todos nós vivemos correndo, entre o passado adormecido e um futuro incerto, mas que grita anunciando que está a chegar. Nesta revisitação ao que foi, tenho medo de ser um fantasma de asas cortadas. Visto-me então, da força motriz que alavanca a vida para seguir em frente. Paradoxo. Que seja!

       Embaralho as palavras. Transmuto-me. Corro na noite silenciosa e sombria e abro a janela para deixar entrar a luz de um novo dia. Mas, por que escrevo os dois extremos, quando me escondo num recanto sombrio para armazenar os sentimentos contidos, e quando escancaro a janela da vida para gritar o meu maior e mais alto grito? Preciso de uma razão para isso? Tenho dois rostos. O de ontem, criança de riso aberto, o de hoje, mulher que tem receios de sorrir... Ora! A vida é agora. Não se tabela a existência. Escreve-se a vida, do jeito que dá para escrever. O importante é que tenhamos histórias para contar. É para isso que se escreve? Volto a Quintana que diz: “Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas”. Morreu na miséria deixando uma riqueza imensurável para nós. Escreve-se na verdade, sem pretensão alguma. Eu digo que escrevo eu mesma. Embora seja tão pequena, não hei de perder-me pelos meus recantos. Encontro-me na escrita. O que quero dizer? Está escrito...

Lígia Beltrão