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Pedagogia Militar
Pedagogia Militar

PEDAGOGIA MILITAR

 

Historiador contesta projeto desenvolvido pelo Comando Militar do Sul e pela Secretaria Estadual da Educação, que pretendem implementar atividades das Forças Armadas na escolas gaúchas.

 

A visão oculta no projeto é de que a escola é um campo de batalha, e o futuro imaginado pelos militares é aquele no qual alunos denunciam atividades subversivas visando a autorizar o uso da força militar baseada na lei antiterrorismo, agora, na escola.

 

É preciso aprofundar o debate sobre o projeto Exército Vai às Escolas, lançado pela Secretaria Estadual da Educação. Para mim, trata-se de questionar o motivo da iniciativa: que tipo de educação os militares querem levar para as escolas neste momento?

 

O Exército já vinha dando pistas de que algo está ocorrendo. No blog do Exército (sim, há um), o coronel Alessandro Visacro afirma que “transformações na conduta da guerra são, antes de tudo, decorrentes de transformações sociais” e defende um “ambiente estratégico do futuro” que permita às instituições militares “expandir seu repertório de missões para fazer frente a complexas e difusas ameaças”. A que ameaças ele se refere?

 

O que ocorre é que o Exército está abandonando a concepção de guerra como conflito entre países para substituí-la pela ideia de enfrentamento das “pequenas guerras”, contra atores armados não estatais, “como, por exemplo, bandoleiros, salteadores, guerrilheiros, insurretos e terroristas (que) sempre fizeram parte da história”. Frente às situações de conflito interno, a entrada dos militares na escola sugere a tentativa de inculcar a mentalidade de defesa na juventude. Por essa razão, o Exército vem promovendo a criação de fóruns de debate para professores, alunos, servidores e servidores públicos sobre temas como a defesa e a segurança nacional. E fala, desde 2015, na criação de uma Universidade de Defesa Nacional.

 

Se a logística é o início da economia de guerra, o projeto Exército Vai às Escolas é sua pedagogia – uma nova forma de comunicação entre civis e militares. Se, na instalação da economia de guerra, o discurso político e a economia dissolvem-se, suplantados pela estratégia, na instalação da pedagogia de guerra o discurso pedagógico se dissolve na estratégia militar.

 

Se logística, segundo Eisenhower, é “procedimento segundo o qual o potencial de uma nação é transferido para as suas forças armadas, tanto em tempos de paz como de guerra”, qual o potencial maior de uma nação do que os jovens? “Sem o saber, já somos todos soldados civis. E alguns de nós sabem disso. O golpe de sorte, para o terrorismo da classe militar, é que ninguém o reconhece. As pessoas não reconhecem a parte militarizada de sua identidade, de sua consciência”, diz o filósofo Paul Virilio; É esse o projeto: militarizar a consciência dos jovens.

 

Mas isso tem um efeito colateral: o de considerar a racionalidade unicamente a partir de sua eficiência, espécie de “inteligência desenfreada cuja ausência de limites provém da tecnologia, da ciência”, conforme Virilio. Ou seja, trata-se de uma forma de reforçar a instalação de uma mentalidade neoliberal na juventude.

 

Agora, a guerra não é mais a política por outros meios – é a pedagogia por outros meios. O que é novo? O exército já enfrenta situações de guerra sem guerra com sua participação nas grandes cidades. Agora, volta sua atenção aos movimentos sociais. A impressão que dá é que os militares estão indo às escolas para evitar a guerra política, antecipar-se a ela, prevenir-se antes do surgimento de conflitos. Ainda que possam dar aulas, o problema é que, se permitirmos que os militares interfiram na escola, eles poderão fazer isso em qualquer lugar.

 

A iniciativa é lançada no mesmo momento em que impera a lei antiterrorismo, que dá amplo poder ao Estado na repressão dos movimentos sociais. Se muitos desses movimentos são protagonizados por jovens, é de se perguntar que tipo de Corte superior poderá impedir que o Estado faça atos de guerra sem guerra contra a juventude. Ao que parece, o acesso dos militares às salas de aula serve para colocar as novas regras do jogo para os jovens.

 

A colaboração do Exército com as escolas nunca é inocente. Ela expressa a mutação das condições de exercício do poder pelo Estado sobre suas instituições de guerra em situações de paz. Não são as palestras sobre a pátria que me assustam; é, isso sim, a possibilidade de nossos novos professores militares insistirem com os alunos em certa pedagogia, de que devem manter um olhar constante sobre um suposto inimigo a partir da sala de aula. Ensinaremos nossas crianças a “ver tudo o tempo todo”? Ensinaremos o principio do arquivamento total com a sugestão de uso de celulares para a gravação de tudo o que for considerado suspeito? Temo que a inclusão da escola responda a um processo de substituição de uma “guerra global contra o terror” por uma “guerra local contra o terror” - não a guerra para sempre, mas a guerra por toda a parte, que transforma o mundo inteiro num campo de batalha, lembrando o raciocínio de Bertrand Chamayou.

 

Não é o que ocorre com a iniciativa do Comando Militar do Sul, de que as salas de aula são também parte da estratégia militar, e que isso só pode ser feito exercendo um poder invasivo, que a classe militar se arroga para si, de ir onde queria, passando, inclusive, por cima da soberania da escola?

 

Já vemos as escolas de periferia como zonas de conflito armado. Amanhã, drones estarão nas escolas exercendo vigilância. Por que essas instituições se tornaram alvos militares? Porque as zonas de combate, para os militares, são extensíveis ao infinito. A visão oculta no projeto é de que a escola é um campo de batalha, e o futuro imaginado pelos militares é aquele no qual alunos denunciam a existência de atividades subversivas – no grêmio estudantil, entre os professores etc. – visando a autorizar o uso da força militar baseada na lei antiterrorismo, agora, na escola. Estudantes cooptados pela direita já não filmam aulas de professores de esquerda para denunciá-los junto ao movimento Escola Sem Partido? Não precisa ir tão longe: é só mostrar ao militar de plantão

 

Os militares dizem falar em nome da paz, mas sua farda está ali para lembrar-nos do horror da guerra. Os tanques exercem sedução sobre os jovens: apresentam o militar de forma suave, como se fosse algo lúdico, alimentando-se do desejo de invulnerabilidade juvenil. Mas a escola é justamente o lugar de ensinar a esse jovem que ele precisa… ter limites.

 

Os militares deixaram de ir à escola para difundir o ethos militar tradicional; agora seu desejo secreto é ir à escola para exercer controle numa eventual situação de guerra interna. Não podemos esquecer que, desde 2013, são os jovens que têm ido às ruas, ocupado as avenidas e, de certa forma, constituindo-se como força subversiva. O projeto Exército Vai às Escolas é mais do que uma forma de conquista das suas consciências pelos militares: é sua luta para estabelecer as bases para um novo campo de batalha.

 

O QUE É O PROJETO

 

O projeto Exército Vai às Escolas foi desenvolvido pelo Comando Militar do Sul e pela Secretaria Estadual da Educação (Seduc). Tem por objetivo promover, junto aos alunos do Ensino Médio de toda a rede estadual, atividades esportivas, palestras e aulas de civismo e formação de cidadania ministradas por militares. A intenção é implementá-lo, entre o segundo semestre deste ano e o primeiro do ano que vem, em caráter experimental, em cinco escolas de Porto Alegre. E, em um segundo momento, ampliá-lo para os demais municípios gaúchos.

 

Fonte: ZeroHora/Caderno PrOA/Jorge Barcellos (Historiador, doutor em Educação pela UFRGS) em 30/07/2017.