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Paradoxos
Paradoxos

 Paradoxos

 

       Ao escrever receio ir longe demais. Sou uma alma tão presente no corpo que lhe serve de invólucro, que por vezes penso que sou imortal. Assim, ao escrever tenho desejos de ser eu mesma e extrapolar todos os meus limites. Sou a que grita num silencio profundo o que lhe queima o âmago como se fosse algo cozinhando e as entranhas estivessem se revolvendo em desejos. Os eus dentro de mim gritam assombrados e vão transformando-me dia após dia. Pergunto-me querendo agarrar os paradoxos que me amedrontam: - o que faço de mim? Dos meus desejos inconfessáveis. Das minhas fraquezas gritantes? Sinto saudades de algum quintal com uma árvore frondosa a requebrar-se devassa, com a cantiga de uma ventania. Acho que é porque de quando em vez tenho ânsias de deitar em algum recanto interior, essa calma que me acompanha e deixar rugir o trovão que na verdade eu guardo mudo nas entrelinhas da alma, louco para dar seu grito de liberdade.

 

       Sou tempestade caudalosa vestida de vendavais. Trago a alma exposta e os gritos contidos. Ainda não sei o que quero na verdade. Questiono-me. Em algum lugar eu larguei o meu eu verdadeiro? Sou um desconhecido espírito que vagueia, sem escrúpulos, pelos arredores de mim querendo descobrir-se. Sem os medos que disfarcei em sorrisos escancarados. A minha garganta sopra a palavra poder, me elevando ao mais alto de mim, que é aquela coisa chamada coragem, que eu teimo em segurar suas beiras atolando-a no chão, para não vê-la voar. Os meus becos, misteriosos e estreitos, metem-me medo de decifrá-los. Que é isso? Estou sempre indo e voltando de algum lugar e vejo que não chego a lugar algum. Será que o caminho da montanha é assim tão difícil? Nunca o encontrarei? Vejo-me de repente a rogar o perdão por um pecado que não cometi. Carrego no peito o cansaço de culpas, que sei, não tenho. Como explicar a mim mesma esse paradoxo que me faz tão inteira? Perguntas às quais sei as respostas, mas não me atrevo a ouvi-las. Estagnação dos sentidos e dos sentimentos? Não. Precaução. Quem sabe, para não ouvir o eco da minha própria dor e dos meus pensamentos germinados nas madrugadas das insônias, que me aliciavam nas brumas silenciosas do derredor de mim. Ando devagar devaneando na cadência das horas que passam. Do fundo do meu interior ouço sussurros que me chamam à vida.

 

       De repente me dou conta que sou dona de todos os meus eus. Aquela vozinha renitente que me acompanha sempre medrosa, agora fala alto e me chama a atenção para o horizonte. Vejo espocarem borbulhas douradas, no céu de mim mesma. Quero ir adiante. Repudio os julgamentos alheios. Sou livre e soberana, no ritual de viver. Meus becos, como por encanto se iluminam e me mostram a saída da alma, antes em ebulição. Estarei sozinha nesta explosão interior? Olho o calendário e vejo o passar do tempo numa carreira desenfreada. Para quê refletir mais, se tudo em mim está à mostra? Se nada é duradouro por que perder tempo com ponderações mais profundas? Com altivez insensata caminha a humanidade. Faço-me diferente. É o que basta. Instigo-me a um namoro duradouro comigo mesma, porque sei que dos meus becos interiores emanam luzes de um dia de sol. Vejo lampejos de sedução por essa vida que me chama a acompanha-la. Atendo-a. são finitos os tempos que nascem. Cada novo ano é o nascimento de um novo sonho. Murmúrios de amor haverão de alimentar vidas. Deixo agora, nos cantos e recantos do tempo, pedaços de mim, escritos com letras coloridas à espera que leiam. Sou o silêncio que grita em palavras os paradoxos da vida.

 

Lígia Beltrão