Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese




ONLINE
3





                                              

                            

 

 

 


Para Respeitar a Diferença
Para Respeitar a Diferença

PARA RESPEITAR A DIFERENÇA

 

Iniciativas buscam ocupar a cidade em nome da diversidade, colocando em pauta cultura afro, economia criativa, gênero e sexualidade.

 

Consta na Declaração Universal dos Direitos Humano: todo ser humano tem capacidade para gozar direitos e liberdades, sem distinção de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, ou qualquer outra condição. Cunhada na década de 1940 para servir de inspiração também à elaboração de políticas públicas mundo afora, a premissa de diversidade ganhou cara nova com o passar do tempo. Hoje, é cada vez mais explorada por grupos independentes que buscam fazer da cidade um ambiente mais plural e criativo, pautado pelo respeito.

- Isso é a alma da cidade. Esse viver, essa liberdade de criar, de ocupar no sentido de construir uma linguagem democrática – avalia a doutora em antropologia Cornelia Eckert.

 

Quem não participa ativamente com certeza já – pessoalmente ou em redes sociais – com projetos, eventos e lugares que querem promover a inclusão ou debater assuntos pouco discutidos. O menu é amplo e diversificado, indo desde coworkings (espaços compartilhados de trabalho) voltados à economia criativa e eventos que promovem acesso à arte até coletivos que discutem os direitos das mulheres, lugares que sediam bates sobre a sexualidade ou projetos que têm como objetivo promover a cultura afro.

 

Em Porto Alegre, como em outras cidades, os exemplos podem ficar restritos a quem se identifica com a pauta. Mas, muitas vezes, têm ido além dos limites das tribos, convidando a população em geral a compartilhar ideias. É o caso de eventos abertos de arte, gastronomia e cultura, como as feiras de rua, e de lugares que trabalham questões étnicas ou sociais específicas.

 

Para Cornelia, que é professora da UFRGS, o principal mérito dessas atividades é fazer a manutenção da democracia na cidade, permitindo que os indivíduos se expressem ou se associem em torno de pautas comuns. Mas também ajuda na formação de cidadãos mais conscientes e melhor inseridos em uma sociedade na qual as fronteiras são cada vez mais tênues:

- As pessoas não têm de ter uma única identidade, importa, como ser porto-alegrense. Somos seres da globalização, não só da globalização. É importante e interessante que se reúnam para conversar, trocar ideias, divergir, aprender a negociar.

 

APESAR DO MOVIMENTO AINDA TÍMIDO, ATIVIDADES PREENCHEM LACUNAS

 

Ativistas de organizações mais tradicionais também veem com bons olhos as iniciativas de indivíduos e grupos independentes para dar visibilidade a assuntos cercados de dúvidas e tabus, como as questões de gênero e sexualidade. Coordenadora técnica da ONG Somos, Claudia Penalvo explica que atitudes que promovem a inclusão de parcelas minoritárias da população são positivas para a sociedade em geral, porque, ao combater o preconceito, criam um ambiente mais amigável e seguro para todos.

- No Brasil, em geral,esse movimento ainda é tímido, porque existe uma força conservadora que toma conta. No RS, temos iniciativas pequenas, e piorou depois que os governos tiraram dos planos de educação a questão de gênero e sexualidade. Então, essas atividades preenchem lacunas. Mas o Estado também precisa fazer isso, para promover educação e segurança – observa.

 

MÚSICA E DANÇA APROXIMAM BRASIL E ÁFRICA

 

A distância entre Brasil e África se encerra ao cruzar o portão do número 3.850 da Avenida Ipiranga. Desde a década de 1980, o lugar é sede do Instituto Cultural Afro-Sul Odomodê (nome adotado em 1998). No local, a música e a dança são mais do que entretenimento: representam uma forma de conectar as culturas africana e afrobrasileira.

- A gente precisa que as pessoas conheçam e entendam que é uma cultura rica. Que existe e deve ser respeitada – conta a coordenadora Iara Deodoro.

 

Surgido como Garotos da Orgia, na década de 1980, o Odomodê nasceu com o intuito de desfilar a cultura afro na avenida. Mas os altos custos e o baixo retorno para a comunidade fizeram o grupo repensar o projeto.

 

Financiado por verbas de leis de incentivo, o instituto seguiu por anos com oficinas de música e dança abertas. Os recursos mais esporádicos, porém, o transformaram. Hoje, o local trabalha no projeto piloto de uma escola, com cursos pagos e bolsas de estudos para alunos carentes.

 

Há atividade como cursos de dança, percussão, folclore e maracatu. O contato com africanos que vivem na Capital permite ensinamentos mais específicos, como arte da Costa do Marfim.

 

Com pouco mais de cem alunos, o Odomodê faz a manutenção de suas atividades com eventos como maracatu e samba de raiz no primeiro domingo do mês e convidados no terceiro.

 

Todos são bem-vindos, independentemente de etnia. A política de receptividade irrestrita dá resultado.

- Hoje, a maioria é de alunos brancos – explica a coordenadora.

 

 

ECONOMIA CRIATIVA E ARTE NA RUA

 

Moda alternativa, artistas locais, gastronomia da boa e cervejas especiais são a receita de um dos eventos de rua mais bem-sucedidos de Porto Alegre. Criada em 2014, a Feira Me Gusta, que percorre praças da região central da cidade, promove um dos cenários mais diversificados da Capital, fazendo a ponte entre um público de diferentes faixas etárias e a economia criativa. Mas vai além disso: atrações musicais e debates sobre diversos temas integram a programação, com acesso gratuito.

 

- Não queria uma feira que as pessoas fossem para comprar. Queria que as pessoas pudessem passar o dia lá. No início, o público majoritário era de jovens mais alternativos. Mas, hoje, vemos gente mais velha, idosos, gente com criança, cachorros – reflete a criadora da Me Gusta, Pamela Morrison.

 

Inspirada em feiras e eventos que conheceu fora do Brasil, a publicitária tinha uma ideia bem menos abrangente quando concebeu o evento. Pensava em combinar a proposta de ocupação dos espaços públicos, mais vinculada a eventos noturnos, com as feiras de moda alternativa, arte e cultura, até então pouco vistas na rua.

 

Com a aceitação do público (há edições que reúnem milhares), no entanto o leque se abriu. Os expositores começaram a se multiplicar – em geral passam dos cem, mas já chegaram a 160 –, e os próprios frequentadores passaram a dar ideias para tornar a experiência ainda mais diversificada.

 

A sustentabilidade também começou a dar as caras: hoje, há uma parceria com uma empresa que produz copos reutilizáveis, e a próxima edição, na semana que vem, contará com uma feira de produtos orgânicos. Embora qualquer um possa se inscrever para vender seu trabalho na Me Gusta, a maior parte dos expositores é da Capital, o que ajuda a fomentar a economia local.

 

 

SINTONIA COM A COMUNIDADE LGBT

 

Quem circula pela região central da Capital já pode ter deparado com o recado: este lugar respeita a diversidade sexual e de gênero. Mais do que a manifestação espontânea da postura de alguns estabelecimentos em relação à população LGBT, o recado é a certificação de uma movimentação concreta desses locais para um atendimento adequado a todos os públicos.

 

A ideia por trás do selo tem nome: o coletivo Freeda é o responsável por preparar e, posteriormente, identificar esses lugares.

- O selo é um posicionamento político: a gente acha que publicizar o bom atendimento à diversidade é político. Mostra que isso é uma prioridade de local – explica Barbara Arena, 30 anos, uma das idealizadoras do projeto.

 

A Freeda nasceu em 2014, em Brasília, em um encontro para pensar apps que utilizassem bases de dados públicas para tratar questões de gênero e combater a violência contra a mulher. O projeto do grupo formado por Barbara, Gabriel Galli, Guilherme Ferreira e Patricia Becker previa a criação de um que mapeasse locais seguros para a população LGBT frequentar.

 

Não demorou para que a iniciativa se transformasse em algo maior. Diante da dificuldade de estabelecer critério para realizar o mapeamento, a ideia foi adaptada: em vez de simplesmente apontar estabelecimentos, a Freeda colocou-se à disposição de empresas e profissionais liberais que querem se qualificar para atender a todos os tipos de público. Os integrantes passaram a prestar consultorias e ministrar cursos sobre o tema. Nas aulas, é abordado desde como se reportar a pessoas trans até questões jurídicas envolvendo casos de violência. Ao final do processo, aí sim, vem o selo: este lugar respeita a diversidade sexual e de gênero.

 

Cerca de 30 estabelecimentos de Porto Alegre, entre bares, restaurantes, escolas e a Cinemateca Capitólio, já foram “certificados”.

 

 

EMPODERAMENTO FEMININO SOBRE DUAS RODAS

 

Desde janeiro do ano passado, a Rótula das cuias é ponto de encontro delas. O destino é decidido na hora, mas a orientação não muda: o Pedal das Gurias é um evento feminino, destinado a mulheres que compartilham da vontade de pedalar à noite sem se sentirem intimidadas pelo trânsito inseguro ou por abordagens abusivas.

- Também somos trânsito, também temos o direito de pedalar. Queremos discutir sobre bicicleta. É o que nos une – conta a participante Tássia Furtado.

 

Semanal, o encontro que começou com um evento criado no Facebook reúne, em média, cde 20 a 30 mulheres. A concentração ocorre às 20h, quando, por cerca de meia hora, as participantes decidem o itinerário, tiram dúvidas e trocam ideias sobre a manutenção das bicicletas. O pedal termina sempre com confraternização em algum bar da cidade.

 

Mais do que reunir mulheres em um passeio, a confraria tem como objetivo ajudar mulheres a se sentirem mais confiantes para usar a bicicleta como meio de transporte. Além de discutir questões relacionadas ao dia a dia das mulheres que andam de bike, algumas delas promovem, de tempos em tempos, oficinas para ensinar as outras a fazerem a manutenção das magrelas.

- Já pedalei em grupos mistos. Às vezes p neu fura e um menino diz logo “deixa que eu troco” como se a menina não soubesse. Quando uma menina vê a outra fazendo, é diferente: ela percebe que também pode – diz Tássia.

 

Os eventos são abertos a quem quiser chegar – durante as pedaladas, é comum as participantes convidarem meninas a se juntarem ao grupo. Para preservar o espírito da iniciativa, meninos que querem participar são orientados a buscarem grupos mistos.

 

Fonte: ZeroHora/Comportamento/Bruna Vargas (bruna.vargas@zerohora.com.br) em 28/05/2017.