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Para o Jornalismo Adaptar-se Resistindo
Para o Jornalismo Adaptar-se Resistindo

PARA O JORNALISMO ADAPTAR-SE RESISTINDO.

 

Sintetizar as experiências de oito jornalistas integrantes da elite mundial da profissão que participaram do segundo Festival Piauí GloboNews de Jornalismo revela a importância de demonstrar parcimônia com os caminhos tomados pela profissão.  De enfrentar transformações tomando cuidado para proteger a reportagem, essência do jornalismo e tema principal do evento.  Não se trata de negar a mudança, mas sim de se adaptar resistindo, como disse o jornalista FRANKLIN FOER, ex-editor da The New Republic, um dos convidados.  Foer narrou o recente choque vivido pela publicação centenária após seu novo dono, o milionário Chris Hughes, um dos fundadores do Facebook, decidir que o foco da revista seria audiência.  Após descobrir que os novos patrões já haviam contratado seu substituto e se vendo incapaz de suavizar a missão da revista para a equipe, Foer saiu antes de ser demitido oficialmente.  Sua carta de despedida causou rebuliço no meio, e outros 12 jornalistas da The New Republic decidiram segui-lo, pedindo demissão.

Por trás desse embate há uma questão maior. O esgotamento de paradigmas vigentes suscita a emergência de novos.  O problema, já disse Boaventura de Souza Santos, é que, paradoxalmente, novos paradigmas precisam ser erguidos a partir da ruína dos antigos.  A transcendência de uma concepção deve ser feita a partir dela mesma.  O novo sempre contém algo do velho.  Mas é difícil pavimentar a mudança com os elementos disponíveis na constância.  Especialmente em tempos de urgência.  Por isso, há de se valorizar pausas reflexivas, como a proporcionada em São Paulo no final de semana passado.

O episódio da The New Republic demonstra que uma coisa é o jornalismo estar atento a uma abertura necessária frente à reconfiguração dos processos comunicacionais em um contexto de múltiplos emissores e distribuidores; curvar-se à lógica do Vale do Silício é outra.  Foer tem razão ao afirmar que são dois mundos de diferentes valores, mas não irreconciliáveis.  O desafio é encontrar o ponto de equilíbrio para essa relação, esforço que leva tempo e exige postura autocrítica, a começar pelo jornalismo.

 

 

Essa autocrítica pode aparecer de diversas formas.  Uma delas é mostrar capacidade de resistência e adaptação no formato e no conteúdo.  Se antes a produção de notícias era uma indústria, o jornalismo pós-industrial expõe suas entranhas para justificar sua existência.  A essência da reportagem permanece, mas acompanha a transição paradigmática em curso.

Não por acaso o repórter BEN ANDERSON diz que os vídeos da Vice, com suas narrativas cruas e estética suja, “quebraram o código” do jornalismo.  Um dos veículos preferidos entre os millennials faz sucesso virando o formato televisivo do avesso. Não se limita a relatar a história, leva o espectador aos seus bastidores.  Assim permite que o jornalismo possa ser visto também como processo, não apenas como produto.  O processo da Vice, revelado pela câmera trepidante e de enquadramentos para além do plano americano, flerta com o cinema e faz com que o jornalismo negocie sua definição na fronteira com outras disciplinas.  Se o discurso perde em estabilidade, ganha em autenticidade.

Tal postura vai de encontro aos conceitos de objetividade e imparcialidade que, embora problematizados por muitos campos do conhecimento, eventualmente ainda são vendidos como valores indispensáveis ao bom jornalismo.  Não no Guardian, onde NICK DAVIES publicou a reportagem que tornou público o caso WikiLeaks, entre outras histórias. Perguntado por um dos pouco mais de 300 presentes no evento sobre o caráter “ativista” do jornal britânico, que muitas vezes levanta bandeiras em suas coberturas, o veterano jornalista resumiu o que qualquer pessoa consciente do seu poder discursivo deveria saber:  falar já é tomar partido.  Cabe ao jornalismo abdicar da herança deixada pelas suas primeiras teorias e abraçar a complexidade da vida contemporânea.  Basta ser honesto, disse Davies.

Talvez as pessoas estejam dispostas a pagar por essa honestidade.  O peruano DANIEL ALARCÓN foi ao festival para contar a história da Rádio Ambulante, podcast dedicado a narrar histórias da América Latina que soma 630 mil assinantes no Soundcloud e tem parte do seu financiamento bancado por doações de ouvintes.  Alarcón tinha a intuição de que havia uma essência latino-americana capaz de emergir de histórias bem contadas.  Algo para além dos estereótipos culturais, e que poderia ser distribuído adaptando um dos suportes jornalísticos mais clássicos, o rádio, ao mundo digital.  Em iniciativas semelhantes não está, provavelmente, a salvação do jornalismo como negócio, assunto recorrente nas conversas sobre o futuro da profissão e tema da primeira edição do evento, ano passado.  O que interessa, no caso, é a valorização da essência do jornalismo por meio de uma iniciativa que respeita o público e faz o formato evoluir sem necessariamente revolucioná-lo.

O exemplo de Alarcón demonstra a possibilidade da essência do jornalismo conviver com a necessária adaptação a novos paradigmas.  Tanto em relação à profissão quanto em relação à sociedade.  Ou seja, adaptar-se resistindo.  Buscar continuidade na ruptura.  Para Foer, é preciso ter paciência e postar na qualidade editorial.  Talvez o jornalismo não precise mudar tanto.  Mas para tal tomada de consciência é preciso parar para pensar de vez em quando.  Pausas reflexivas como o Festival Piauí GloboNews de Jornalismo são importantes para desenvolver a capacidade necessária às transformações pelas quais passa a profissão.  Como um farol iluminando os mares revoltos das mudanças de paradigmas.

 

 

OUTROS DESTAQUES

Realizado nos dias 10 e 11 de outubro de 2015, em São Paulo, o Festival Piauí GloboNews de Jornalismo recebeu oito jornalistas.  Além dos repórteres citados no texto acima, participaram também:

JORGE LANATA, crítico implacável do kirchnerismo e jornalista do Grupo Clarín, abriu o festival falando sobre reportagem política e investigação.  Disse que faz jornalismo apurando fatos com mais de uma fonte, e não “jornalismo de oposição”, e condenou o hábito dos regimes populistas de antagonizarem com a imprensa, criando “um inimigo comum para ganhar coesão”.

O americano SEYMOUR HERSH, colaborador da revista The New Yorker conhecido por revelar o massacre de My Lai, no Vietnã, em 1969, e os abusos na prisão de Abu Ghraib, em 2004, defendeu que os jornalistas busquem a “contranarrativa”, desvendando o que está escondido.  Definiu-se como um jornalista de esquerda e alfinetou a esquerda latino-americana: “No Brasil, Argentina e Chile, vocês estragaram a esquerda para sempre.  A direita vai sempre lembrar a corrupção”.

Repórter do The New York Times, com passagem pelo site ProPublica e um PhD em neurociência no currículo, a americana SHERI FINKI, Pulitzer pela cobertura da epidemia de ebola na Libéria, afirmou que o jornalismo se diferencia do ativismo por exigir que o profissional seja aberto a “levar em conta o contrário do que pensa”.

As relações entre o poder público e o tráfico de drogas no México são o foco das reportagens de ANABEL HERNÁNDEZ.  “Os cartéis não poderiam ser tão poderosos sem a cumplicidade de governos corruptos”, acusou.  Anabel contou como foi alertada, por uma fonte, de que o seu próprio assassinato havia sido encomendado em uma reunião em que o chefe de polícia do México estava presente.

 

Fonte:  ZeroHora/Moreno Cruz Osório (Jornalista, Doutorando em Comunicação na Unisinos) em 18/10/2015