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Para Chamar a Sua Atenção de Rodrigo Lopes
Para Chamar a Sua Atenção de Rodrigo Lopes

 

PARA CHAMAR SUA ATENÇÃO

 

Caminho para completar o segundo ano como professor universitário.  Antes dessa experiência, só havia pisado em uma sala de aula como estudante ou palestrante esporádico.  Como estudante, desde pequenos sabemos como é estar numa classe.  Como palestrante, bem... nunca foi muito difícil prender a atenção da plateia com histórias sobre coberturas de guerras, viagens e jornalismo.  Mas, como diz meu pai, a admiração dura três dias.  Entre em uma sala de aula no quarto, quinto, 20º dia e veja se você consegue manter a atenção dos alunos por mais de 10 minutos...

Passei a admirar ainda mais meus mestres e a respeitar todo homem e toda mulher que dedicam sua vida, como sacerdócio, a educar os demais.  Não basta conteúdo interessante ministrado de forma instigante.  No meu tempo de guri, desviávamos nossa atenção imaginando o recreio, o lanche, nos perdíamos com o papo no fundão, com um decote mais ousado ou no olhar daquela menina.  Tão imensos eram nossos pequenos grandes problemas da infância e adolescência...

Hoje, no lugar de professor, disputamos a atenção do aluno com o WhatsApp, Facebook, Instagram, Twitter, e-mail.  Tudo isso dentro de uma caixinha de metal chamada smartphone.  Em uma, cada vez mais, cruel batalha pela atenção, me acostumei a usar todos os recursos “multimídia” disponíveis em aula: vídeos, gráficos, jogos, filmes, clipes, cliques, debates, piadas, músicas.  Só falta, como diria minha avó, pendurar uma melancia no pescoço para chamar atenção.  São descargas consecutivas de adrenalina.  Nesse sentido, dar aula não é muito diferente de fazer jornalismo.  Vivemos, na comunicação, uma busca eterna pela sua atenção, amigo leitor.  Até pouco tempo atrás, para fisga-lo, precisávamos apenas de um lide criativo.  Lide é como os jornalistas chamam os primeiros parágrafos de uma notícia, onde, em tese, devem estar as respostas para perguntas básicas como o que aconteceu, com quem, onde, como, quando e por quê.  Não é mais suficiente apenas um bom lide.  Pelo simples fato de que, enquanto você lê este texto (e obrigado por ter chegado até aqui), sua atenção pode ter sido seduzida pela foto que chegou ao grupo de amigos do Whats, por uma imagem na TV, pela música do game do tablete do seu filho ao seu lado, pela tentação de abrir o Facebook e ver o vídeo do gatinho fofo do último minuto.

Na verdade, na sala de aula, no jornalismo, no almoço de domingo em família, no jantar romântico com a namorada, na reunião de trabalho, no bar com os amigos.  Está difícil conquistar a atenção das pessoas por mais do que um minuto.  O jeito é ter bom humor:  à mesa de bar, sempre que dois ou mais amigos pegam o smartphone para checar as mensagens, meu colega jornalista Marcelo Monteiro dispara: “Vocês estão conversando entre si pelo Whats?”.  Constrangimento!  Largamos o celular.  Funciona.

Você deve ter levado uns 40 segundos para ler este texto.  Se chegou até aqui, obrigado pela sua atenção.  Este é um bem cada vez mais raro – e, como se vê, disputado.

 

Fonte:  Rodrigo Lopes/Editor de ZH e professor universitário (rodrigo.lopes@zerohora.com.br) Jornal Zero Hora de 12/7/2015