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Palavras
Palavras

 

                                             Palavras

 

       Quero escrever. As palavras fogem-me medrosas de serem ditas. Não querem desnudar-se em frases. Fecho os olhos e “escuto” meu próprio silêncio que, acanhado, esconde-se nas beiradas do tempo. Aceito esse silêncio como companheiro renitente que é. Passeio por dentro de mim mesmo, numa relação de amor com os meus diferentes eus. Os contrastes deles enriquecem a minha essência interior. Nesse instante sinto o universo em controvérsia, palpitando, resfolegando, a embalar meu coração abarrotado de destroços dos dias vividos. Escondida nesse meu silêncio solitário eu consigo descobrir-me. De repente, eis minha alma exposta e os sentimentos afloram sem controle.

 

       Submerge das horas passadas a criança que em mim ainda habita. Há sussurros de vozes em meu interior dizendo-me da vulnerabilidade do ser. Sou adepta incondicional do silêncio que me faz pensar. Sou egoísta quando se trata de escrever. Quero o tempo e a quietude das horas todas para mim. Quero de volta meus inocentes pecados de criança. Mudaram minhas vontades. Mudou minha arte de pecar. Será que eu mudei tanto assim? Tornei-me outra pessoa? Vejo as variações das minhas próprias mutabilidades.

 

     Quero enxergar com clareza um tempo que é meu. A minha gaveta acondiciona lembranças que vão se interpondo em uma arrumação silenciosa sem cronologias. Não há datas, dias ou horas, apenas o tempo compactado no refúgio da noite silenciosa. A criança tem medo. O amanhã é tão incerto... Alojo a coleção de dias passados nos desvãos da minha memória. Quero-a perecível nesse momento. Apetece-me ser tomada por uma crise de amnésia. Quero distanciar-me daqueles medos que eu sentia, não dos escuros das noites, mas do claro dos dias incertos, que mastigavam o tempo sem dó.

 

        De repente, preciso encerrar essa etapa da vida, mesmo nas lembranças. Num ato intempestivo devolvo o passado. Quero ser alguém que não conheço. Quero correr os perigos das descobertas. Sou vivente em ebulição. Não quero mais abrir gavetas mofadas. Não quero mais encontros com horas marcadas, nem formalidades para nada, ainda que vozes me atormentem com repreensões irrelevantes, não as ouvirei. Quero renovar-me interiormente. Quero viver os meus paradoxos. Tenho medo de reduzir-me a um fantasma de asas podadas, acuado nos arquivos esquecidos em algum lugar de mim.

 

       A saudade me impeliu a procurar caminhos por onde pisei, mas, tornei-me adulta faz tempo. Lanço-me na aventura de me encontrar, de me conhecer e de viver a mulher que agora sou. Quero transitar por plagas desconhecidas. Quero a grandeza das descobertas, mesmo que seja imprescindível chorar. Os rituais da rotina da infância são divinizados. Não posso maculá-los. Devaneio em busca agora, dessa mulher que me tornei. Tenho necessidade de encher os espaços vazios das minhas expectativas. Quero luxúrias de amor. Quero arruar pelo mundo, sabendo que sou dona de mim. Quero iluminar os becos escuros das noites silentes com os meus olhos de amor. Quero o êxtase sexual com todos os seus pecados incontáveis e inconfessáveis.

 

       Emanam as imagens do desejo. A construção do querer não se dá no agora; decorre de uma longa caminhada que começa na linha do infinito, onde encontrei pedaços de mim e os juntei. Dou-me agora o direito de asilar um eu que não conheço. Quanto mais escavo para dentro de mim, tanto mais me descubro, nunca por completo, pois o transbordar ainda me amedronta. Há barulhos interiores que extrapolam minha alma. Mas há uma porta fechada que guarda ainda a minha essência inabalada. São mistérios essenciais que não devem ser desvelados, apenas impelem a inúmeras divagações. Tudo o que quero é a felicidade e para vivenciá-la preciso reconstruir-me, pois já não caibo mais dentro de mim.

 

        É imprescindível explodir em palavras, mas preciso escancarar a janela do meu coração para emitir o som do meu grito dos sentimentos contidos. Escrever é ser intenso. É desnudar-se na página em branco sem receios. Escrever não é obter respostas; é gerar perguntas. Eternizo-me na palavra. Desprezo as censuras. Pois nas entrelinhas acontece o mistério de não dizer-se por completo e o não dito é o valor maior da escrita. Assim, na dificuldade da criação da metáfora, talvez as entrelinhas falem por mim. Continuo à procura das palavras, quem sabe com o tempo?! Urge sacolejar o meu mundo, pois tenho a certeza dos crepúsculos, mas a incerteza das auroras. Usando as palavras de Miguel Torga, peço-lhes que: “Não me perguntem pela alma agora”. Ela nesse instante é silêncio, para escutar as palavras.

 

 

Lígia Beltrão