Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese




ONLINE
2





                                              

                            

 

 

 


Os Primórdios da Expressão Literária em Portugal
Os Primórdios da Expressão Literária em Portugal

 

Os primórdios da expressão literária em Portugal

A Idade Média assistiu ao surgimento de uma nova forma poética ligada ao gênero lírico: a cantiga. Denominamos cantiga o poema medieval que une a palavra poética à música. É a cantiga da forma fundamental da poesia trovadoresca e tem sua origem na poesia popular.

O termo trovador é originário do verbo francês trouver, que significa “encontrar”. Remetia à necessidade de encontrar adequação entre a música e a palavra. Os primeiros trovadores surgiram na região da Provence (Provença), no Sul da França. Faziam jograis nos quais entoavam os seus poemas, ao som de melodias.

O crítico literário António Saraiva, em Iniciação à Literatura Portuguesa, descreve a poesia provençal da seguinte forma: “Uma poesia lírica, que, pela subtileza psicológica, pela ductilidade, gracilidade e esplendor de ritmos e imagens e pela sua inspiração individualista, não tinha então paralelo na cultura ocidental” (SARAIVA, 1999, p. 14). Para Saraiva, será a poesia trovadoresca a matriz de vários poetas fundamentais de épocas posteriores, como os italianos Dante e Petrarca.

  • Trovador→ do verbo francês  trouver (encontrar).
  • Procura da adequação entre a música e a palavra.
    • Surgiram na região da Provence (Provença), no Sul da França.

 

 

O trovadorismo da Provença conquistou território para além do francês e alcançou a Itália e a Península Ibérica. Como elementos de contato entre os portugueses e a poesia provençal francesa, podemos citar:

O refúgio dos hereges de Toulouse na Península Ibérica; as Cruzadas; os casamentos reais entre herdeiros de países diferentes e a educação de reis portugueses, em cortes francesas.

O movimento trovadoresco foi muito bem acolhido pela nobreza ibérica. Os seus jograis foram amplamente representados no ambiente das cortes palacianas. A poesia trovadoresca, originada na tradição popular, acabou por assumir uma posição relevante em um universo aristocrata. Os poetas do Trovadorismo português eram oriundos da nobreza e até mesmo reis.

O cruzamento entre o popular e o erudito acabará por impactar os próprios modos de configuração dos poemas trovadorescos, como acontecerá nas cantigas de amor, as quais representarão as relações sociais hierárquicas, através de metáforas amorosas.

Em Portugal, a língua dos jograis provençais gerava dificuldades de compreensão e foi, paulatinamente, sendo substituída pelo galego-português. Com o extraordinário sucesso dos jograis em galego-português, a literatura portuguesa passou a ser escrita também nesta língua. Ou seja: o galego-português tornou-se uma língua literária. Esse fato abriu espaço para o posterior aparecimento da língua portuguesa como modo de expressão oficial, a partir do final do século XIII (1290).

Um dos principais apoiadores dos jograis foi o rei Alfonso X, cuja corte ficava na cidade de Toledo, na atual Espanha. O monarca criou um dos mais importantes códices medievais: as “Cantigas de Santa Maria”, escrito, é claro, em galego-português. Outro códice importante desse momento foi o “Cancioneiro da ajuda”.

O TROVADORISMO NAS

 CORTES PORTUGUESAS

 

 

Primeiras manifestações literárias

Durante muito tempo, considerou-se como o primeiro movimento literário registrado em Portugal a publicação do poema A Ribeirinha, de Paio Soares de Taveirós. Mais tarde, descobriu-se um poema ainda mais antigo: Ora faz host'o senhor de Navarra, de João Soares de Pávia.

 

Ora faz host'o senhor de Navarra,

pois en Proenç'ést'el-Rei d'Aragón;

non lh'han medo de pico nen de marra

Tarraçona, pero vezinhos son;

nen han medo de lhis poer boçón

e riir-s'han muit'Endurra e Darra;

mais, se Deus traj'o senhor de Monçón,

ben mi cuid'eu que a cunca lhis varra.

 

Se lh'o bon Rei varré-la escudela

que de Pamplona oístes nomear,

mal ficará aquest'outr'en Todela,

que al non ha a que olhos alçar:

ca verrá i o bon Rei sejornar

e destruír ata burgo d'Estela:

e veredes Navarros lazerar

e o senhor que os todos caudela.

Quand'el-Rei sal de Todela, estrea

ele sa host'e todo seu poder;

ben sofren i de trabalh'e de pea,

ca van a furt'e tornan-s'en correr;

guarda-s'el-Rei, come de bon saber,

que o non filhe luz en terra alhea,

e onde sal, i s'ar torn'a jazer

ao jantar ou senón aa cea.

De qualquer modo, os dois poemas datam do começo do século XIII, sendo A Ribeirinha uma cantiga de amor carregada de ironia e, por isso, considerada também como de escárnio. É dirigida a uma jovem chamada Maria Pais Ribeiro.

 

“No mundo non me sei parelha,

mentre me for' como me vay,

ca já moiro por vos - e ay!

mia senhor branca e vermelha,

queredes que vos retraya
quando vus eu vi en saya!

Mao dia me levantei,

que vus enton non vi fea!

E, mia senhor, des aquel di'ay!

me foi a mi muyn mal,

e vos, filha de don Paay

Moniz, e ben vus semelha

d'aver eu por vos guarvaya,

pois eu, mia senhor, d'alfaya

nunca de vos ouve nen ei
valia d'a Correa”.

 

“No mundo não conheço semelhante

Enquanto ocorrer o que me ocorreu

Porque já morro por vós – e ai!

Minha senhor branca e rosada,

Quereis que eu vos retrate quando eu já a vi em trajes menores!

Mal dia o em que eu me levantei e não a vi feia!

E, minha senhor, desde aquele dia, ai!

Me veio a mim um grande mal,

E vós, filha de Dom Paio

Moniz,  bem vos parece

Que eu preciso pôr em vós um manto vermelho,

 Pois eu, minha senhora, de presente

Nunca ganhei de vós nada

De valor”.

 

As formas da cantiga medieval: de amor, de amigo, de escárnio e de maldizer.

A ironia na cantiga de Paio Soares já mostra um traço importante da poesia trovadoresca portuguesa, que, influenciada pela provençal, vai além de sua cópia, pois cria elementos específicos, que a diferenciarão, como veremos.

 

As cantigas de amor

 

Pode ter soado estranho o fato do eu lírico de

'A Ribeirinha" ter empregado o termo “Senhor” para referir-se à mulher amada. No entanto, na época, a expressão “senhora” inexistia em um universo fortemente patriarcal. A mulher amada era a “senhor”, pois era posta em uma condição superior, como objeto da devoção do eu lírico, que metaforizava, na relação amorosa representada literariamente, aspectos hierárquicos de uma sociedade fortemente hierarquizada e teocêntrica. São justamente os ideais relacionados ao sistema ético cristão - como as noções de honra, de temperança e de fidelidade, que aparecem tanto nas relações entre os nobres como, sob figuração literária, nas poesias trovadorescas, especialmente nas chamadas "cantigas de amor".

 

Pode-se afirmar que a cantiga de amor representa elementos presentes nas relações de suserania e de vassalagem, entre o senhor feudal e o nobre com quem criava laços de proteção e lealdade. Ela figura uma história de amor entre o eu-lírico masculino e uma mulher de classe social superior, a "senhor", com quem terá uma relação de "vassalagem amorosa". Podemos perceber esses elementos na tradução da cantiga abaixo, “O que vos nunca cuidei a dizer”, escrita por Dom Diniz, na qual o eu lírico mostra a sua veneração pela sua “senhor”, a ponto de preferir morrer a perdê-la:

 

Direi com tristeza, o que nunca pensei

que vos diria, minha senhor,

porque vejo que por vós morro.

Porque sabeis que nunca vos falei

de como me matava o vosso amor:

porque sabeis bem que de outra senhor

eu não sentia nem sinto temor.

Tudo isto me fez sentir

o temor que de vós tenho,

e desde que  dei a entender a vós

que por outra morreria, de ela tenho,

sabeis bem, nenhum temor;

e desde hoje, formosa minha senhor,

se me matas, eu o bem o mereço.

 

E creia que gostarei

de que me mates, pois eu sei com certeza

que no pouco tempo em que hei de viver,

nenhum prazer terei;

e porque estou certo disto,

se me quiseres matar, senhor,

eu aceitarei como  grande misericórdia.

 

Pode-se afirmar que a cantiga de amor representa elementos presentes nas relações de suserania e de vassalagem, entre o senhor feudal e o nobre com quem criava laços de proteção e lealdade. Ela figura  uma história de amor entre o eu-lírico masculino e uma mulher de classe social superior, a "senhor", com quem terá uma relação de "vassalagem amorosa". Podemos perceber esses elementos na tradução da cantiga abaixo, “O que vos nunca cuidei a dizer”, escrita por Dom Diniz, na qual o eu lírico mostra a sua veneração pela sua “senhor”, a ponto de preferir morrer a perdê-la:

As cantigas de amor referem-se e dirigem-se a um público erudito e palaciano e figuram um ritual de "amor cortês", no qual os valores cristãos aos quais nos referimos, como a honra, a fidelidade e a prudência, estão presentes. No amor cortês, a dama amada, a "senhor", é o bem mais precioso do eu lírico. Ciente disso, ele despreza os bens materiais e aceita  a "coita", isto é, o sofrimento por amor, como aparece na cantiga de Bernal de Bonaval: “Senhor fremosa, tan gram coyta ey / por vós que bom consselho no me sey, / cuydand´em vós, ma senhor mui fremosa” (Senhor formosa, tão grande coita tenho / por vós que não conheço bom conselho/ pensando em vós / minha senhor muito formosa).

Do ponto de vista formal, as cantigas de amor portuguesas partilhavam com as cantigas de amigo o uso de paralelismos, refrões e repetições. O trovador poderia mostrar a sua mestria – o seu domínio dos códigos poéticos - como faz Dom Diniz na cantiga citada, considerada como de mestria. Alguns desses códigos diziam respeito ao emprego de versos pares, de modo predominante na cantiga; ao uso da redondilha maior e do verso sem rima, chamado de palavra perdida. Em Portugal, as cantigas trovadorescas desenvolveram características peculiares e apresentaram elementos inovadores.

No caso das cantigas de amor, a percepção sobre o amor cortês apresentará diferenças na literatura lusa. Na poesia provençal, a relação amorosa é figurada de modo idealizado e espiritual. Crê-se na mesura, isto é, na superioridade do amor físico sobre o amor espiritual. E embora a mesura seja um conceito também aceito na poesia portuguesa, nesta, o jogo amoroso pode escapar dos limites do ideal e abrir-se para a possibilidade de realização, dada a presença da correspondência amorosa entre o eu lírico e a "senhor", o que não ocorria na lírica trovadoresca provençal. Outro ponto específico das cantigas de amor portuguesas é a presença de certa ironia e humor, relacionadas aos lamentos pela relação amorosa e ao arrependimento por amar em vão, em contraposição ao tom sério das cantigas de amor provençais.

 

 

 As cantigas de amigo têm como traço característico o fato de serem escritas por homens, porém, enunciadas por um eu lírico feminino. São voltadas para o espaço doméstico ou a vida no campo e representam o lamento da mulher abandonada por seu parceiro, por este ter ido à guerra ou ter partido em companhia do rei. O autor imagina como seria o sentimento da mulher e escreve, a partir disso, o poema.

As cantigas de amigo

Cantigas de amigo de Martin Códax

Referem-se a um contexto histórico no qual o espaço do lar passou a ser governado pela figura feminina, por conta da ausência dos homens, que partiam para as Cruzadas e/ou a serviço do monarca. São cantigas de cunho popular, com traços arcaicos e, geralmente, representam diálogos entre o eu lírico feminino, suas amigas, sua mãe. Há, ainda, diálogos entre o eu lírico e elementos naturais, como as ondas do mar e as árvores. A tais diálogos chamamos de “tenções”.

Formalmente falando, as cantigas de amigos configuram-se pelos jogos de simetrias, repetições e rimas que alternam as vogais “i” e “a”. O refrão indica o estado psicológico da moça ou o assunto do poema. Há várias modalidades de cantigas de amigo, como a barcarola e a baila.

 

Veja abaixo os tipos de cantigas de amigo:

 

Barcarola – refere-se ao mar e à saudade pela ausência do amado;

Baila – fala sobre dança e conquista;

Alba - refere-se ao momento em que os amantes se despedem, ao amanhecer;

Pastorelas - sobre a vida no campo;

Fonte - sobre o encontro amoroso em rios e fontes;

Romaria – apelo aos santos, pela vida amorosa;

Tecedeira –fala sobre a vida doméstica.

As cantigas de amigo usam alguns conceitos presentes nas cantigas de amor como a coita e a mesura. Todavia, se contrapõem às convenções presentes nas cantigas de amor, pois o amor, nas cantigas de amigo, é muito mais erotizado e possível. Nesse sentido, há a presença de metáforas referentes aos encontros de amor físico, como "lavar as tranças“,“ir à fonte”, “encontrar o cervo” e "banhar-se no mar", como aparece na cantiga de Martim Códax:

 

Quantas sabedes amar amigo 

treydes comig' a lo mar de Vigo: 

E banhar-nos-emos nas ondas! 

 

Quantas sabedes amar amado treydes comig' a lo mar levado: 

E banhar-nos-emos nas ondas! 

 

Treydes comig' a lo mar de Vigo e veeremo' lo meu amigo: 

E banhar-nos-emos nas ondas! 

 

Treydes comig' a lo mar levado e veeremo' lo meu amado: 

E banhar-nos-emos nas ondas!

Glossário

 

Treydes - Venham  

 

Veeremo´lo meu amigo - Veremos ao meu amigo

 

As cantigas de escárnio e de maldizer

 

São cantigas satíricas, que apontam maus costumes e posturas. Cabe lembrar a sua adequação ao princípio presente na poética clássica da sátira como modo de educação, pois, através do riso, buscava-se castigar aqueles que ousavam desobedecer aos códigos de conduta social.

A principal diferença entre as cantigas de escárnio e as cantigas de maldizer é o tom mais leve da primeira, que satiriza de modo indireto: não é revelada, claramente, a identidade da pessoa ridicularizada. O uso da ambiguidade e da ironia permitem esse afastamento, como podemos perceber na cantiga a seguir, escrita por Anrique de Almeida Passos e compilada no Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende:

A narrativa medieval

 

A narrativa medieval divide-se em novelas de cavalaria, prosa doutrinária (cujo objetivo era formar e orientar moralmente) e relatos históricos - gênero do qual faziam parte os cronicões (livros de crônicas), os livros de linhagem e as hagiografias (relatos da vida de santos). É importante ressaltar que a noção de histórico, na Idade Média, é muito diversa do sentido atual; àquela época, um simples depoimento poderia ser considerado fato histórico. Você conhecerá mais sobre as novelas de cavalaria agora.

 

  • Primeira novela de cavalaria considerada ibérica (1508, provavelmente).
  • Autoria atribuída a Montalvo ou a Vasco de Lobeira. 
  • Influenciada por temas do ciclo arturiano.

 

 Novelas de cavalaria

As novelas de cavalaria também são conhecidas como romances de cavalaria. Surgem na Idade Média - a documentação mais remota data do século XIII - mas alcançam o século XVI e sobrevivem, sobretudo, pela tradição oral, alcançando tanto a população letrada como a popular, via transmissão oral. Seu auge ocorre nos séculos XIV e XV.

Há um processo de passagem da escrita na forma de versos para a prosa, durante a Idade Média. Frente à emergência das novelas de cavalaria escritas em prosa, assiste-se ao declínio da poesia oral, embora algumas novelas tenham surgido de jograis, como Mio Cid, por exemplo.

O rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda, em livro medieval.

Inicialmente, as narrativas cavalheirescas chegadas em Portugal eram traduções das canções de gesta francesas e inglesas, chamadas de matéria da França e da Bretanha, respectivamente.

O processo de tradução e a difusão das ditas narrativas em Portugal criaram versões específicas, através dos desvios de tradução, do corte, da mudança e da inserção de elementos nas narrativas originais, o que gerou, muitas vezes, ciclos de novelas paralelas ou derivadas.

As novelas de cavalaria tiveram grande sucesso e aceitação em Portugal, especialmente as do ciclo de lendas sobre o Rei Artur.

A primeira novela de cavalaria considerada como verdadeiramente ibérica (há controvérsias sobre sua origem espanhola ou portuguesa) foi Amadis de Gaula, escrito, provavelmente, em 1508. Não há consenso sobre a sua autoria, mas boa parte da crítica literária a atribui a Montalvo ou a Vasco de Lobeira.

Jovem cavaleiro de ascendência nobre, Amadis, porém, é bastardo, pois é fruto de uma relação proibida. Amadis é criado como alguém sem posição e torna-se pajem da princesa Oriana, por quem se apaixona e arrisca a vida, em aventuras e lutas. Sua recompensa é o amor da moça, que deixa de ser donzela para ser “feita dona”, antes mesmo do casamento.

Embora influenciada por temas do ciclo arturiano, Amadis de Gaula criou um universo narrativo diferente, pois era um exercício criativo independente, sem recontar os mitos e lendas vindos da tradição oral. Além disso, o livro estabeleceu um novo conceito de cavalaria, no qual o conflito entre o subjetivo e o coletivo e o fortalecimento do poder do rei já anunciavam as sementes do que afloraria, tempos depois, como uma sensibilidade humanista.