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Os Órfãos da Pornotopia
Os Órfãos da Pornotopia

OS ÓRFÃOS DA PORNOTOPIA

 

Revistas como a Playboy e toda a indústria baseada na exploração da imagem da mulher alimentam a cultura do estupro e da violência.

 

As últimas edições do caderno PrOA exploraram de forma exemplar elementos de uma “cultura do estupro”, do caso de Valentina (Master Chef) ao regime de Kadafi.  O texto do psicanalista Alfredo Jerusalinsky, no entanto, é o que mais próximo chegou das raízes do problema:  por trás da cultura do estupro está a expansão do universo pornô.  A Playboy não é um instrumento de educação sexual, e esse olhar benevolente a transformou em um dos elementos que fomentam essa cultura em escala planetária:  foi a Playboy que possibilitou a expansão do universo pornô como hoje o conhecemos.

 

                        

 

A cultura que produz a violência contra Valentina ou os abusos contra mulheres, seja na França ou na Líbia, é um dos efeitos do universo promovido pela revista.  É preciso responsabilizar a Playboy por ser a origem da indústria cultural baseada na exploração da imagem da mulher, cujo ápice é a simulação, de maneira realista, de estupros e assassinatos de mulheres.  Essa cultura não deixa de ter ramificações por todo o mundo.

Da mulher como objeto eternamente disponível e insaciável e, após, a agressividade contra a mulher promovida pelo olhar pornô, o que esse universo termina por propor é a submissão do desejo feminino  “É a biologia que inspira a pornografia ou é a própria pornografia que adota, por conveniência, as crenças machistas sobre o papel e o valor intrínseco das mulheres?”, pergunta Pamela Paul, em PORNIFICADOS (Cultrix, 2006).

A cultura pornô corresponde à implantação de um modelo de sensibilidade.  A expansão dos signos do pornô pelo mundo acabou invadindo o mundo real.  A Playboy americana deixou de publicar nus não porque não houvesse mais interesse do público, mas simplesmente porque o próprio universo assimilou as características do pornô.  Hugo Hefner é um vitorioso, e o movimento feminista, um derrotado:  a cultura pornificou-se, como afirma Pamela Paul.  Mas as coisas não são bem assim, as mulheres ainda se sentem incomodadas pelo pornô.

 

                                

 

E ainda estamos vendo as coisas da forma errada.  A Playboy nunca foi um espaço exclusivo do sexo, mas de outra coisa.  A tese é de Beatriz Preciado, em PORNOTOPIA (Anagrama, 2010):  mais do que uma revista de mulheres nuas, a Playboy foi a proposta de um dispositivo arquitetônico caracterizado por um arquipélago de clubes noturnos e hotéis disseminados ao longo da América e da Europa.  Mansão Playboy, salão de festas, salão de jogos, piscina com beldades, cama redonda, avião e jardim transformado em zoológico, tudo corresponde à primeira pornotopia da era da comunicação de massas.

Assim, tão importante quanto os nus são as reportagens sobre arquitetura, incluindo a publicação de textos de grandes arquitetos como Mies van der Rohe, Walter Gropius e Frank Lloyd Wright, que transformaram a revista em uma plataforma de difusão de certa visão arquitetônica e de desenho de bens centrais ao consumo americano.  Para Preciado, “é possível entender Hugo Hefner como pop-arquiteto, e o império Playboy como uma oficina multimídia de produção arquitetônica”.

A Playboy, segundo Preciado, modernizou a arquitetura porque a colocou em relação direta com os meios de comunicação de massa a partir de uma utopia sexual (questionável), pós-doméstica e urbana.  A lição é que, para cultivar a alma (Foucault), é primeiro necessário construir um habitat:  o efeito foi transformar o homem americano em playboy, topos alternativo à casa familiar urbana.

 

                                    

 

Não se trata de deixar de publicar imagens pornôs:  elas foram o meio de transformação da cultura americana, a saber, da transformação do pornô em cultura popular de massa e do desenho dos ambientes em novos significantes de gênero e reforço da masculinidade.  As mulheres da Playboy parecem ser o centro da publicação, encarnam o sexo (Baudrillard), mas o centro são nossos costumes.  Deixar de registrar mulheres nuas só pode ser explicado não pela suposta concorrência da internet e sua abundância de imagens, mas pelo fracasso do projeto da revista como um todo.

Por quê?  É que, em vez de construir um espaço privado para homens à custa da exploração do sexo das mulheres – o pornô –, o que aconteceu foi o contrário, foi a própria sociedade que se pornificou, assumiu como fundamento o pornográfico.  Na expressão existe o grego pornê, “prostituta”, e grafe, “escrito”.  “Prostituir” vem do latim prostituire, que significa “expor em público”, palavra que vem do verbo pernémi e que remete a tudo o que diz respeito a compra e venda de mercadorias, em geral, e de indivíduos, em particular.  As verdadeiras atividades que podem ser consideradas pornográficas são as de compra e venda, pornografia fala do mundo dos negócios, eis a questão.

O que a Playboy não são outros supostos desejos sexuais ocultos – e eles existem, sim, é claro –, mas é o próprio neoliberalismo de nossa época que se expressa pela lógica do pornô, pelo excesso.  Do desejo à sexualidade, e desta finalmente ao puro pornô, quanto mais se avança neste espectro, mais adentramos num campo de sentido menor, de um secreto menor, de um enigma menor, mas de violência maior.

Fonte:  ZeroHora/Caderno PrOA/Jorge Barcellos (Doutor em Educação) em 15/11/2015