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Os Efeitos Colaterais da Liberdade em Excesso
Os Efeitos Colaterais da Liberdade em Excesso

OS EFEITOS COLATERAIS DA LIBERDADE EM EXCESSO

 

LEVANTAMENTO MOSTRA QUE PAIS QUE APOSTARAM EM UMA EDUCAÇÃO “FARTA DE AMOR E LIBERDADE” RECLAMAM DA FALTA DE RETRIBUIÇÃO DOS FILHOS.

 

Há décadas se dedicando a pesquisas de educação ligadas às relações entre pais e filhos, a professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Tania Zagury fez uma costura de gerações para mostrar um dos efeitos colaterais de uma educação sem limites.  O resultado integra o livro FILHOS ADULTOS MIMADOS, PAIS NEGLIGENCIADOS, lançado pela Editora Record.

Na obra, Tania analisa, por meio de um levantamento com mais de cem pais, como a geração que nasceu no pós-guerra – os chamados baby boomers, ou apenas boomer – e teve filhos entre os anos 1970 a 1980 está convivendo agora com seus filhos adultos.

Esse recorte foi motivado por observações anteriores da autora.  Primeiro, nos anos 1970 a 1980, ela notou que as crianças daquela época já estavam submetidas a uma educação mais liberal, sem os rigores a que seus pais haviam sido submetidos.  Essa postura mais “solta” no educar, segundo ela, foi uma tentativa de colocar em prática uma educação mais baseada no companheirismo e na amizade entre pais e filhos do que na hierarquia familiar e nas configurações de autoridade dos adultos sobre as crianças.

- Os pais dessa época, que hoje estão sendo avós, não queriam criar os filhos com aquele distanciamento como foram criados.  Para eles, os pais eram até repressores.  Então, eles deram certas liberdades, pensando que isso os tornaria amigos dos filhos, e os filhos seus amigos – diz Tania.

É a partir desse ponto que parte o estudo em que se baseou o livro.  A pesquisadora buscou os pais da geração boomer para avaliar se suas expectativas em relação à educação dos filhos haviam se concretizado, principalmente quanto à relação que mantêm com eles, hoje mulheres e homens acima de 30 anos e já pais.

Por meio de depoimentos e usando critérios para definir um perfil dos entrevistados, Tania concluiu que frustração e decepção permeiam a convivência desses pais com seus filhos e aponta que a falta de limites na educação contribuiu para esse quadro e também se reflete no desempenho e na postura desses filhos agora como pais das novas gerações:

- O que esses pais querem é um pouco da atenção que deram aos filhos.

 

 

 

POUCA DEMONSTRAÇÃO DE AFETO, REGRAS RÍGIDAS DE CONVIVÊNCIA E NEGLIGÊNCIA SÃO SENTIDOS PELOS PAIS DA CHAMADA GERAÇÃO BABY BOOMER.

Um dos questionamentos que o livro FILHOS ADULTOS MIMADOS, PAIS NEGLIGENCIADOS levanta é por que a meta da geração boomer – de ter uma relação mais próxima, íntegra e sem disfarces com seus filhos – tornou-se algo unilateral.  Pelos depoimentos que a autora Tania Zigury colheu (leia alguns abaixo), ela observou que, em comum, esses pais educaram com muito amor e liberdade, não souberam impor limites e, de alguma forma, foram vítimas de um equívoco disseminado à época em que se dedicavam à criação dos filhos:  de que dizer não poderia traumatizar.

- Houve essa ideia e ela foi muito divulgada por revistas, jornais, e os pais começaram a pensar que impor limites causaria prejuízos a seus filhos.  Eles recebiam essa informação sem condições de fazer uma avaliação correta – lembra Tania.

 

EM EXCESSO, NEM O AMOR SE TORNA ALGO POSITIVO

Com seus filhos hoje adultos, os baby boomers reclamam mais atenção.  Não se trata de estarem abandonados, tampouco deixam de ser atendidos pelos filhos em uma situação de emergência, por exemplo, mas queixam-se da falta de espontaneidade e de demonstração de afeto.

Nas entrevistas para o estudo, há relatos desapontados de poucas visitas e até de regras rígidas de convivência com seus filhos e netos.  Não estão encontrando o que almejaram.  Parte disso, a autora credita ao modo como esses filhos adultos, atualmente com idade entre 30 e 40 anos, foram criados, superprotegidos, com os pais sempre na retaguarda e permissivos.

Integrante da diretoria da Associação Brasileira de Psicopedagogia no Rio Grande do Sul, a psicopedagoga Sandra Guimarães, especialista em terapia de família e neuropsicologia, aposta que essa tentativa de ser amigo dos filhos seja uma causa provável para que os resultados não tenham sido positivos.

- Os pais têm de ser  os “pais” de seus filhos, proporcionando que os ensaios de amizade sejam exercidos entre os irmãos.  Quando se rompe essas fronteiras, as funções ficam comprometidas.  E essas coisas não envolvem culpa, mas uma questão de equilíbrio.  Tudo que é excessivo não é bom, até o amor – avalia.

 

 

                

 

EXPECTATIVAS EXAGERADAS E FRUSTRADAS

O quadro que Tania Zagury encontrou em seu levantamento não é uma exclusividade de uma geração, tampouco pode ser justificado apenas pela falta de limites.  É o que acredita a psicóloga Ieda Zamel Dorfman, presidente da Associação gaúcha de Terapeutas de Família.  Para ela, é importante considerar outros fatores na avaliação da relação entre os adultos de hoje e a suposta negligência que têm com seus pais, além de ser fundamental, segunda ela, ir mais a fundo nas expectativas criadas pelos baby boomers ao investirem em uma educação farta de liberdade.  Postura que, aos olhos da psicóloga, é mais evidente nesta nova geração de pais do que na turma anterior.

- É preciso saber o que esses pais esperavam quando apostaram em ser amigos de seus filhos.  Eles queriam que os filhos ficassem eternamente filhos ou fossem cuidadores para sua velhice?  Vou ter filho para me cuidar quando envelhecer?  Isso nem sempre acontece – diz Ieda.

Em um contexto geral e pela experiência de consultório, a psicóloga chama a atenção para algo que considera mais grave:  os adultos de hoje,  por conta das exigências do mundo moderno, podem até estar negligenciando os pais, mas estão ausentes da educação dos próprios filhos, relegando-a às escolas, creches e, por conveniência, à tecnologia.

- Se o pai dessas pessoas está reclamando que é negligenciado, o filho delas também está.  Esses pais estão trabalhando, não estão em casa e, aqueles horários de convivência familiar (café da manhã, almoço...) não foram preservados.  O filho está sentindo a desorganização familiar.

 

DEPOIMENTOS:

  • Meu filho casou faz três anos. Enquanto não tinha filhos, o que durou mais ou menos um ano e meio, só veio me visitar quatro vezes, e somente quando o convidei para jantar;  chegava sempre com cara de exausto.  Sem nem lembrar que eu mesma trabalhava o dia todo, se estava recebendo-o com comidinhas e carinhos, estava tão ou mais cansada do que ele...  S., casada, funcionária pública, 62 anos, dois filhos casados.

 

  • Faz cinco anos que meu filho casou e, nesses anos todos, só veio duas vezes aqui em casa sem que eu convidasse para um jantar ou um lanche. Nessas duas vezes, ele veio com meu netinho, porque minha nora tinha viajado a trabalho, e, daí, ele ficou meio sem saber como lidar com a situação.  Ah, era folga da babá, senão, ele nem vinha...  G., 65 anos, casada, arquiteta aposentada, um filho, um neto.

 

 

  • Ele fica dias de cara amarrada. Já aluguei um apê para ele, porque estava difícil de conviver, com mesada e tudo, mas ele voltou três meses depois e me disse que não queria ter de se preocupar em pagar as contas... E olha que era com o dinheiro da mesada que eu dou e do cartão que eu pago...  C.M.S., professor de matemática, 58 anos, separado, um filho.

 

ENTREVISTA:  TANIA ZAGURY (Professora adjunta da UFRJ e pesquisadora em Educação.

 

“OS PAIS TINHAM MEDO DE PROIBIR”

 

Em mais de um ano de trabalho, a autora de 25 livros colheu depoimentos de pais que cuidaram dos filhos com tanto amor e liberdade que não perceberam os riscos e hoje amargam frustrações na relação com aqueles que educaram.

 

O que motivou a se dedicar ao levantamento?

Quando publiquei SEM PADECER NO PARAÍSO, em 1991, já havia uma forte corrente da psicologia que dizia para os pais tomarem cuidado que as crianças poderiam ficar traumatizadas com muitos limites.  Esses pais, lá dos anos 1970 e 1980, eram de uma geração criada com limites e que queria mudar isso na criação de seus filhos.  Nessa época, notei mudanças  no comportamento das crianças que mostravam a perda do que chamamos de socialização básica, como esperar a vez para falar, ouvir as pessoas até o fim, pedir licença.  Tentei averiguar o que estava acontecendo e percebi a relação com a família.  Resolvi tentar ajudar os pais a entenderem que simplesmente dizer um “não” e proibir algumas atitudes naõ prejudicaria os filhos.  Passados 20 anos, já há consenso de que limites não dão traumas, mas esse era o medo da geração dos anos 1970.  Bem mais tarde, observei esses problemas nos adolescentes.  Os pais tinham medo de proibir porque poderiam gerar problemas como desequilíbrios psicológicos e envolvimento com drogas.  Foi outra parte do meu trabalho.  Agora, percebi que já haviam se passado 25 anos e tive um insight:  vamos ver como aqueles que foram pais nos anos 70/80 estão com os filhos adultos, vamos ver se o que eles pretendiam foi atingido.

 

E atingiram?

Levei mais de um ano para fazer o trabalho.  Foi uma pesquisa qualitativa, com aspectos bem claros.  Mas resolvi publicar não apenas para apresentar o que esses pais, que hoje são avós, estão sentindo, mas também ajudar quem está atualmente criando seus filhos.  Quero alertar quem está educando hoje que determinadas atitudes, muitas vezes realizadas a partir de informações inadequadas, podem ser prejudiciais.

 

Mas qual foi o principal efeito colateral da educação sem limites nesses pais?

Bem, não falo em abandono, que é algo mais grave, mas em negligência.  Esses pais, hoje com seus filhos adultos, mudaram a forma de hierarquia da família e pensavam que fazendo isso ficariam mais próximos de seus filhos, mas isso não se concretizou.  Uma reclamação quase unânime foi a constatação de que os filhos pensam que esses pais não precisam de nenhum tipo de retribuição, e isso não tem nada a ver com algo material.  O que eles querem é um pouco de atenção que deram aos filhos.  Uma das perguntas que fiz foi:  “No último mês, quantas vezes o seu filho foi lhe visitar exclusivamente para vê-lo, sem que o senhor o convidasse?”.  Nenhum deles disse que os filhos foram espontaneamente.  Em geral, só apareciam se convidados, e em 99% das vezes para pedir alguma coisa.  Muitos desses avós trabalham até tarde, valorizam contribuir socialmente, e os filhos não percebem que eles estão cansados e mais idosos.  É que esse filho está acostumado a receber muito e acredita que o mundo é assim.  Não é falha de caráter, é o poder da educação.  Ele é educado para ser o filho tirano.

 

Como esses filhos são como pais?

Obviamente são mais egocentrados, tendem a se colocar em primeiro plano.  Estão repetindo o modelo dos pais de dar tudo, mas, dessa vez, coisas materiais.  No entanto, não acham que dar limites é temerário, mas esse limite dado por eles é muito mais de acordo com a conveniência desses pais do que com o interesse da criança.  Vi uma reportagem sobre a superexposição das crianças na internet.  Na verdade, isso é algo narcísico dos pais, não da criança.  Você expõe as crianças a riscos para um prazer que é seu.  A visibilidade na internet virou quase uma necessidade das pessoas.

 

Como evitar os caminhos que levam ao desenvolvimento de egocêntricos?

O interesse é perceber que, ao dizer para o seu filho “faça o que você acha melhor”, você está passando um conceito que ele vai entender como fazer só o que lhe agrada.  Não aprenderá a empatia.  A neurociência está tentando entender por que algumas pessoas têm mais empatia, mas a gente já sabe que é algo que pode se desenvolver com a educação.

 

Fonte:  ZeroHora/CadernoVida/Bruna Porciúncula (bruna.porciuncula@zerohora.com.br) em 10/10/2015