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Os da Nossa Rua
Os da Nossa Rua

OS DA NOSSA RUA

 

Os primeiros anos podem nos parecer às vezes, se vistos com cuidado, um quintal de acontecimentos raros, palco de vida que se inicia.  “E um bocadinho assustador, mas mesmo quando somos crianças o antigamente já fica lá longe” – assim o escritor angolano Ondjaki trata o tempo da infância em OS DA MINHA RUA, livro de contos publicado em 2007.

 

 

Nascido em 1977, em Luanda, Ondjaki tem criado com sua literatura um espaço de narrativas que trazem, a quem busca conhecer obras em língua portuguesa de escritores africanos, um panorama justo e fiel da capital de Angola – além de cenário das histórias, sem principal tema.

Com oralidade marcada, bom humor e importante dose de ternura, OS DA MINHA RUA flui por episódios cotidianos formando um retrato vivo dos dias em Luanda, sob a perspectiva de um narrador ainda garoto.  As cenas retratadas aguçam a sensibilidade leitora, de modo que temas tão rotineiros nos chegam em nova roupagem, com doçura própria das impressões de uma criança.  A ideia de simplicidade narrativa é logo diluída quando se nota que, mesmo jovem Ndalu (nome de batismo de Ondjaki e também o narrador-personagem) articula entendimentos bastante delicados a respeito daqueles que o rodeiam e das situações que presencia; pela pouca idade, justamente, há uma honestidade cara à visão do mundo e aos relatos.

 

 

O encanto da voz infantil reside também em nos mostrar coisas que não acessamos normalmente, senão quando olhamos fotos ou ouvimos histórias dos mais velhos.  É um resgate do passado que ocorre com naturalidade de tempo ainda latente na pele, no sentido dos dias: olha-se para trás como quem consegue enxergar na pessoa de hoje as minúcias das primeiras experiências.

“Uma pessoa quando é criança parece que tem a boca preparada para sabores bem diferentes sem serem muito picantes de arder na língua.  São misturas que inventam uma poesia mastigada tipo segredos de fim de tarde.  Era assim, antigamente, na casa da minha avó.”  Com essa poética apresentam-se os contos, característica esta não inédita nas obras do escritor: é sempre possível notar, mesmo nos romances de assuntos mais duros e com personagens adultos, a sinestesia da cidade e suas horas, as tardes quentes em cenas de forte beleza literária.  Os miúdos, como são chamadas as crianças, ganham voz nos bilhetinhos escritos à menina bonita da classe, cor no ato de roubar mangas verdes do vizinho, substância ao sentir o geladinho do copo de cerveja servido ao tio beberrão nas festas familiares.  Não só de lembranças de alegria plena é feito o enredo, mas também surgem, vez por outra, elementos de uma dor sutil, que deixa entrever de repente um cão sarnento e e dorminhoco que pode estar “a pensar nas tristezas da vida dele”.

 

 

Seja em África, seja fora dela, basta estar aberto às emoções de um tempo anterior para identificar-se com a maior parte das percepções e da rotina de Ndalu, que entre familiares e amigos ou enquanto aguarda o frescor da chuva, cresce em sua existência doce.

A obra trata também de despedidas – da casa dos pais, da turma do sétimo ano escolar, dos amigos, da própria infância.  “Nas despedidas acontece isso: a ternura toca a alegria, a alegria traz uma saudade quase triste, a saudade semeia lágrimas, e nós, as crianças, não sabemos arrumar essas coisas dentro do nosso coração sensível, fica a nós, leitores de qualquer idade, também isto ao fim do livro: há ainda chance de arrumar, no coração, as emoções e os sentidos do tempo.

 

Fonte:  Correio do Povo – CS Caderno de Sábado/Carina Carvalho (Escritora e poeta, autora de Marambaia) em 10 de outubro de 2015.