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O Último Romântico/Conto de Elicio S. Nascimento
O Último Romântico/Conto de Elicio S. Nascimento

CONTO:  O ÚLTIMO ROMÂNTICO

POESIA:  A FONTE

AUTOR:  Elicio Santos do Nascimento

 

 

O ÚLTIMO ROMÂNTICO

 

- Bom dia!

- Oi, amor!

            - O que tem pro café de hoje?

- Hum, tá animado... Por que acordou assim?

            - Nada, querida. Eu só me sinto bem, muito bem!

 - Posso saber o motivo?

            - Enquanto você dormia pesado, eu tive uma ideia que me iluminou.

- Eu dormia pesado, é?

            - Muito. Até murmurou umas coisas.

            - Coisas?! Que coisas?

            - Nada querida. O esposo se aproxima e beija, de leve, a testa da sua companheira.

            - Com certeza não foi nada de ruim, né?

- O quê, querida? – diz atendendo ao chamado do tablete, sempre à mão.

           - Essas coisas que... eu murmurei dormindo – derrama um pouco da sua xícara evaporada, trazida rente aos lábios.

 - O que houve querida? Parece tensa. Passa os olhos formais na mulher, antes de ater-se aos seus escritos eletrônicos.

 - Sim, querido – dá novo gole – você pode reponder?

 - O quê? – indaga digitando.

 - Se eu disse algo assim, comprometedor... – beberica de novo.

 - Não, querida... Nada demais!

 - Que bom! – suspira fundo e arremata o seu café.

 - E essa sua ideia?

 - Como, amor? Ele tecla e morde uma torrada.

 - Essa ideia que te animou tanto? O que seria?

 - Ah, você vai saber logo. Fique tranquila, logo saberá! – Termina uma mensagem e encara a sua senhora.

            - Ah, tá. Espero que seja uma boa e nova ideia... A nossa vida anda precisando de algo assim, há muito tempo.

            - É, minha flor... É verdade. – Bebe um pouco de suco, mas, na metade, o seu aparelho vibra.

            - Querido, você pode me fazer um favor?

            - O quê?

            - Pode sentar pra comer e desligar esse treco um pouco?... Tá me deixando nervosa... Fica em pé desse jeito, eu hein!

 - Sim, querida. Com certeza.

            O fim da refeição segue ileso às palavras. Cada integrante à mesa rumina os seus silêncios. Nela fica o suspense das revelações involuntárias e nele a certeza do que já somava. Não há filhos nem bagagens, além deles próprios.

            Como se do nada, a senhora resolve se livrar de um grande incômodo. Ela se declara para quebrar o isolamento contíguo entre os dois.

            - Hoje você tá tão romântico, amor!

            - Eu, romântico? – interrompe o novo clique e foca o rosto da sua mulher. Dessa vez de uma forma verdadeira, como se a desnudasse de ponta cabeça.

            - É... me deu até um beijinho... Eu gostei, sabia? – diz afiando o seu aspecto sensual, adormecido até então.

             - Gostou, foi? – Pousa o tablete sobre a mesa e se concentra na fêmea disposta, no ar de sexo que se instaura pelos olhos dela.

            - Querida... É... Você sabe que eu não sou muito dessas cosas, mas... é... eu percebi como fui tolo... você é a mulher da minha vida e eu não te valorizava... Você me perdoa? – conclui espichando uma mão para amparar a da sua senhora, com ternura. O casal troca impressões meigas que vão dos toques aos gostos presumidos, pelas feições desejosas. Assemelham-se aos adolescentes do início, quando ainda estagiavam a vida a dois.

            Sem comentários. As vistas cerram-se e as bocas trocam a sua maciez esquecida. Logo o fogo raro se manifesta. As peles e tatos se misturam até o consumo das carnes ressuscitadas, como se o milagre escolhesse dia exato para a sua glória.

            Em cima da mesa revirada. O senhor ergue a saia longa da sua senhora e se alimenta. Pela primeira vez, ao mesmo tempo dela. A satisfação conjunta reata as articulações de uma união que capengava. Suados e surpresos, ambos se ameigam ao tom dos seus fôlegos, ansiosos por uma nova ignição.

            O homem ocupado se realinha. Gravata no ponto e cabelos repenteados, no espelho do banheiro mais próximo, o destinado aos hóspedes.

            - Adeus, querida. Preciso trabalhar. Beijo! Ele estala os lábios na testa fria. A senhora permanece deitada sobre a mesa, com a sua saia suspensa da mesma forma que o resto, reverberado pela feição transcendente.

            O novo esposo sai assobiado. Tranca a porta e adentra o seu carro. Antes de partir, nova mensagem. Afoito, mas satisfeito, ele comunica os novos planos para a sua outra vida. No Zap, totalmente recíproca, a sua secretária de vinte e poucos anos.

 

A FONTE

 

Certa feita

Por um transe do Universo

O Amor e a Dor

Resolveram divorciar-se.

A Dor, exausta de fazer escravos

Achou por bem satisfazer-se noutros ventos

Noutras formas de conquista.

Para isto, ela entregou-se

A uma longa busca

Dentro de si mesma

No seu mais íntimo parecer.

A Dor queria uma razão de ser,

Pois atormentar não mais lhe aprazia

Nem a completava na sua lógica

De se conhecer.

O Amor, por ser tão bom e justo

Recusava tratar os seus adeptos

Com tantas cicatrizes e oblações voluntárias.

Ele ansiava ser somente luz

Total benevolência e paz

A quem o cultivasse.

No bosque dos esquecimentos

O Amor se hospedou

Num portal

À esquerda do Paraíso

Tudo lhe pareceu contrito

Os habitantes de lá

Logo se interessaram

Nos puros afagos

Do novo teor do Amor

Capaz de sempre agradar

Sem suas antigas penumbras.

A Dor se tornou deprimida

Quando achou no vazio

O rio do seu contrário

Que acabou reconduzindo-a

Ao querer dos suplícios alheios.

Entediado

Das bajulações e entretenimentos

Dias e noites cinzentos

O Amor preferiu voltar à sua casa.

Só pensava no ressabor

Da sua nativa cama

Nos seus lençóis de alcova

Totalmente cristalinos

Brancos sendo negros

E negros sendo alvíssimos.

Ao cintilar pulsante da chegada

Muitas saudades às veias

O Amor surpreendeu-se

Porque a Dor já o esperava

Desnuda sobre espumas lavadas.

Um abraço longo e mudo

Carinhos gêmeos

Trocas Jerônimas

Entre lágrimas

O Amor e a Dor se reataram

Pois acordaram

Do seu feitiço.