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O Teatro Moribundo
O Teatro Moribundo

O TEATRO MORIBUNDO

 

O Espaço Vazio, livro publicado em 1968 pelo diretor inglês Peter Brook.  Um dos principais encenadores contemporâneos, Brook é também um nome bem conhecido de Porto Alegre, já que foi no Em Cena, em 2000, que ocorreu a primeira apresentação de uma peça dirigida por ele no Brasil:  Le Costume – o diretor voltaria outras três vezes ao festival.  Em O Espaço Vazio, Brook faz uma análise do teatro a partir de quatro perspectivas:  o teatro moribundo, o teatro sagrado, o teatro rústico e o teatro imediato.  A edição em português, que está chegando às livrarias pela editora Apicuri, conta com um prefácio de Gerald Thomas.

 

O teatro Moribundo pode, à primeira vista, ser considerado óbvio, pois significa mau teatro.  Como essa é a forma de teatro mais frequente e está muito ligada ao então vilipendiado e menosprezado teatro comercial, pode parecer perda de tempo criticá-la mais uma vez.  Mas só se considerarmos que essa característica moribunda é enganosa e pode acontecer em qualquer lugar quer teremos consciência da dimensão do problema.

A condição do Teatro Moribundo é, no mínimo, razoavelmente óbvia.  No mundo inteiro, o público vem diminuindo.  Aparecem ocasionalmente novos movimentos, novos bons escritores, etc., mas de um modo geral, o teatro não eleva ou instrui e pouco ou nada diverte (...).  A crise da Broadway, a crise de Paris, a crise do West End são a mesma: não precisamos dos funcionários da bilheteria para saber que o teatro se tornou um negócio moribundo, e o público tem farejado isso.  Na realidade, se o público realmente exigisse o autêntico entretenimento de que tantas vezes fala, estaríamos em maus lençóis para saber por onde começar.  Não existe um verdadeiro teatro de diversão, e não é só a comédia banal e o mau musical que não valem o custo do ingresso – o Teatro Moribundo se insinua perigosamente na grande ópera e na tragédia, nas peças de Molière e de Brecht.  Mas em nenhum lugar, é claro, o Teatro Moribundo se estabelece de forma tão firme, confortável e dissimulada como n as obras de Shakespeare.  Ele tem facilidade para se apoderar de Shakespeare.  Vemos duas peças representadas por bons atores, no que parece ser a maneira correta – elas surgem vivas e coloridas, há música e todos estão muito bem vestidos, como deve ser no mais clássico dos teatros.  No entanto, secretamente, as achamos terrivelmente tediosas – e do fundo do coração culpamos Shakespeare, o próprio teatro ou até nós mesmos.  Para piorar, sempre há um espectador moribundo, que, por motivos especiais, adora a falta de intensidade e até mesmo a falta de diversão, assim como o erudito que sai sorridente das representações rotineiras dos clássicos, pois nada nelas o impediu de testar de novo e de confirmar por si mesmo as suas teorias prediletas, enquanto sussurrava seus versos favoritos.  Intimamente, ele quer, com sinceridade, um teatro mais nobre que a vida, e confunde uma espécie de satisfação intelectual com a experiência autêntica pela qual anseia.  Infelizmente, ele empresta o peso de sua autoridade à obtusidade e, com isso, o Teatro Moribundo segue em frente.

Todos os que assistem aos verdadeiros sucessos quando surgem, a cada ano, verão um fenômeno muito curioso.  Esperamos que o chamado sucesso venha a ser mais vivaz, veloz, brilhante do que o fracasso – mas nem sempre é o caso.  Em quase todas as temporadas, na maioria das cidades amantes do teatro, há um grande sucesso que desafia essas regras; uma peça que é bem-sucedida, não apesar, mas por causa da estupidez.  Afinal, associamos a cultura com certo senso de dever;  figurinos históricos e longas falas com a sensação de enfado; Assim, inversamente, o grau correto de tédio é uma garantia reconfortante de que o evento teve seu valor.  A dosagem, evidentemente, se faz tão sutil, que é impossível estabelecer a fórmula exata – grande demais, e o público é arrancado de suas poltronas; pequena demais, e ele pode achar o tema desagradável e excessivamente intenso.  Todavia, os autores medíocres podem encontrar infalivelmente a dose certa – e perpetuam o Teatro Moribundo com sucessos estúpidos, universalmente elogiados.  O público anseia por algo, no teatro, que possa chamar de “melhor” que a vida, e por esta razão está exposto a confundir a cultura, ou os floreiros da cultura, com algo que não conhece, mas sente obscuramente poder existir – assim, tragicamente, elevando algo ruim à condição de sucesso, nada mais faz que autoiludir.

O ESPAÇO VAZIO de Peter Brook, Tradução de Roberto Leal Ferreira, Ed.Apicuri, 224 páginas.

 

Fonte:  ZH/Caderno PrOA de  02/8/2015