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O Princípio de Iconicidade
O Princípio de Iconicidade

 

O Princípio de Iconicidade

 

 

Funcionalismo! Vamos começar nosso conteúdo refletindo sobre o modo como expressamos linguisticamente as ações que fazemos. Por exemplo, no nosso dia a dia, pela manhã, acordamos, escovamos os dentes, tomamos café. Ao dizer a alguém o que fazemos pela manhã, iremos produzir a sequência de orações: “Acordei, escovei os dentes e tomei café”. Será que alguém diria assim “Escovei os dentes, acordei e tomei café”? É claro que não, não é mesmo? Por que será que isso acontece?

 

A expressão linguística reflete a nossa realidade. Segundo a proposta funcionalista, a estrutura gramatical que produzimos é motivada pela situação comunicativa. Assim, há uma correlação natural entre forma e função, ou seja, entre código linguístico (expressão) e seu conteúdo (cf. CUNHA et al., 2003).

“Os linguistas funcionais defendem a ideia de que a estrutura da língua reflete, de algum modo, a estrutura da experiência. Como a linguagem é uma faculdade humana, a suposição geral é que a estrutura linguística revela as propriedades da conceitualização humana do mundo ou as propriedades da mente humana.” (CUNHA, Maria Angélica Furtado da; OLIVEIRA, Mariangela Rios de e MARTELOTTA, Mário Eduardo (orgs.). Linguística funcional: teoria e prática. Rio de Janeiro: DP&A, 2003, p.30.)

Essa correlação natural entre forma e função é chamada de iconicidade. Vamos conhecer mais sobre esse princípio do Funcionalismo norte-americano?

 

O Princípio de Iconicidade

 

Os funcionalistas definem iconicidade como a correlação natural entre forma e função, ou seja, entre a expressão (código linguístico) e seu conteúdo. Dwight Bolinger, um dos precursores do Funcionalismo norte-americano, propôs a versão original do princípio de iconicidade, segundo a qual há uma única forma linguística para expressar uma ideia.

Essa versão inicial do princípio foi reformulada devido aos estudos sobre os processos de variação e mudança linguísticas que apontam a existência de uma forma desempenhando várias funções ou de uma função sendo desempenhada por várias formas. (cf. CUNHA, OLIVEIRA & MARTELOTTA, 2003).

QUADRO (1): uma forma com várias funções.

 

O sufixo –inho:

 

-indica tamanho diminuto;

Ex.: O menino perdeu seu carrinho azul.

 

-marca afetividade;

Ex.: Minha mãezinha querida!

 

-expressa valor pejorativo;

Ex.: Aquela coisinha já chegou?

 

-estabelece valor de superlativo.

Ex.: Ele fez a prova devagarzinho.

QUADRO (2): uma função com várias formas.

 

Recursos para codificar a impessoalização do agente da ação verbal:

 

-verbo na terceira pessoa do plural;

Ex.: Fizeram um bolo para o lanche.

 

-partícula se apassivadora;

Ex.: Fez-se um bolo para o lanche.

 

-voz passiva;

Ex.: Um bolo foi feito para o lanche.

 

-pronome indefinido;

Ex.: Alguém fez um bolo para o lanche.

 

-pronome de terceira pessoa do plural sem referente explícito.

Ex.: Eles fizeram um bolo para o lanche.

Por que isso acontece? Sabemos que as línguas do mundo são dinâmicas. Com o uso, algumas formas linguísticas passam a exercer outras funções. Por isso, percebemos a falta de motivação entre forma e significado, já que “o significado original do elemento linguístico se perdeu total ou parcialmente, assim como a motivação para sua criação.” (CUNHA, 2009, p.167). Conclui-se, portanto, que “a iconicidade do código linguístico está sujeita a pressões diacrônicas corrosivas tanto na forma quanto na função”. (CUNHA, 2009, p. 167.)

 

Conheça dois exemplos que ilustram o fato de que, com a diacronia, a relação entre forma e significado passa a ser aparentemente arbitrária (cf. CUNHA, 2009).

Exemplo (1): conjunção adversativa entretanto.

 

A conjunção entretanto, que, atualmente, tem valor adversativo (“João trabalhou muito no final de semana, entretanto foi demitido.”), apresentava-se, em textos do português arcaico, como um advérbio temporal, significando “enquanto isso”, “ao mesmo tempo”, “entre tantos acontecimentos”.

 

Exemplo (2): conjunção concessiva embora.

 

A conjunção embora, que, atualmente, é utilizada com valor concessivo (“Embora João tenha trabalhado muito no final de semana, foi demitido.”), também apresentava valor temporal na era medieval, significando “em boa hora”. Observa-se que, ao longo do tempo, a expressão “em boa hora” passa a ter a sua forma diminuída.

 

 

Com a reformulação da versão inicial do princípio de iconicidade, os funcionalistas propuseram três subprincípios que se relacionam à quantidade de informação, ao grau de integração entre os constituintes da expressão e do conteúdo e à ordenação sequencial dos segmentos.

 

A) Subprincípio da quantidade: quanto maior for a quantidade de informação, maior a quantidade de forma.

 

Ex.: palavras derivadas, por veicularem mais informações semânticas e/ou gramaticais, tendem a ser maiores que as palavras primitivas de que se originaram: belo>beleza>embelezar>embelezamento (cf. CUNHA, OLIVEIRA & MARTELOTTA, 2003).

 

B) Subprincípio da integração: o conteúdo que está mais próximo mentalmente coloca-se próximo sintaticamente.

 

Ex.: A menina não queria ficar ali. (não é nítida a distinção de eventos diferentes; o sujeito de querer é o mesmo de ficar. Comparando com “Ana ordenou: fique aqui.”, percebem-se dois eventos separados.)

 

C) Subprincípio da ordenação linear: refere-se à ordenação dos elementos na sentença. Segundo esse princípio, a ordenação dos elementos na oração tende a espelhar a sequência temporal em que os eventos descritos ocorreram.

 

Ex.: “Vim, vi, venci.” (tradução de uma frase famosa proferida pelo imperador romano Júlio César - a distribuição das palavras na oração corresponde à ordem em que os eventos aconteceram.)

Vamos conhecer mais um princípio do Funcionalismo norte-americano? Vamos entender o que é “gramaticalização”?

 

O processo de gramaticalização

 

Para os funcionalistas, o processo de gramaticalização é um processo de regularização do uso da língua. Isso vai ao encontro do modo como eles concebem a gramática. Por ser algo maleável, ela está sempre se adaptando às necessidades cognitivas e comunicativas dos falantes. Desse modo, itens que fazem parte do léxico e construções sintáticas passam a ser utilizados com novas funções gramaticais:

 

O processo de Gramaticalização

 

O processo de gramaticalização ocorre devido às necessidades de comunicação não satisfeitas pelas formas existentes no sistema linguístico e à existência de conteúdos cognitivos para os quais não existem designações linguísticas adequadas. (HEINE et al., 1991, pp. 19-30 )   

 

Definição sobre gramaticalização (cf. CUNHA, 2009, p.173)

“Gramaticalização designa um processo unidirecional, segundo o qual itens lexicais e construções sintáticas, em determinados contextos, passam a assumir funções gramaticais e, uma vez gramaticalizados, continuam a desenvolver novas funções gramaticais.”

 

De um modo geral, pode-se perceber um desgaste fonético da forma, que se perde expressividade. Ao analisar alguns processos de gramaticalização, é possível identificar que a forma deixa de fazer referência a algo do mundo real para assumir funções de caráter gramatical. Vejamos os exemplos.

 

A-     A trajetória de substantivos e verbos para conjunções o verbo “Querer” passa a ser utilizado como conjunção alternativa como em “ Quer chova quer faça sol, estarei lá” (cf CINHA 2009)

B-      A trajetória de nomes e verbos para morfemas na expressão “tranquila mente”, o substantivo “mente” (é igual a intelecto) passa a designar sufixo formador de advérbio: “tranquilamente” , “lamentavelmente” etc.

 

 

Linguística/ Iconicidade/Formas linguísticas/ Expressões linguísticas

 

IMPORTANTE!

 

Vale lembrar que, além do princípio de iconicidade e do processo de gramaticalização, há outros princípios e categorias centrais do Funcionalismo norte-americano, dentre eles informatividade, marcação, transitividade e plano discursivo.

 

Um Pouco de Curiosidade...

Conheça como as metáforas são analisadas segundo a visão funcionalista.

 

Como nomeamos essa parte da mesa? Seria pé da mesa?

Isso mesmo! Chamamos essa parte da mesa de “pé da mesa”. Sabemos que se trata de uma construção metafórica. Por analogia ao nosso próprio corpo, nomeamos essa parte da mesa também de pé, o que ficou muito bem ilustrado na imagem abaixo:

 

Segundo os funcionalistas, com o objetivo de contemplar novos contextos pragmáticos e semânticos, os indivíduos utilizam itens lexicais e construções já existentes na língua para expressarem novas ideias. Desse modo, por um processo de transferência semântica, uma mesma forma passa a exercer novas funções comunicativas. Segundo Votre (apud MARTELOTTA et al., 1996), “um dos recursos mais comuns de deslizamento de sentido e de indiretividade é a metáfora”.

 

Ilustraremos com o trabalho do autor sobre a base corporal das metáforas. Para ele, o corpo serve como a base para a construção de metáforas comuns na nossa vida diária. Desse modo, as metáforas são construídas a partir do nosso corpo, que é visto como base para todas as nossas atividades e nossos objetos, ou seja, para nossa vida mental e intelectual. Partindo do corpo humano, temos a concepção de objetos com os quais lidamos. Vejamos alguns exemplos citados pelo autor:

 

I. Apoiou o pé da cadeira numa pedra.

II. Está com uma cabeça de prego no joelho.

III. Apoiou as costas do sofá na perna da mesa.

IV. Quebrou o bico da prancha contra um coral.