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O Pássaro Azul
O Pássaro Azul

                                            O Pássaro Azul

 

 

        Observando os pássaros, pendurando-se nas folhagens do coqueiro que dançavam frenéticas a canção dos ventos, lembrei-me daquele que morou alguns anos numa ampla gaiola de varetas, pendurada no terraço da minha casa. Ele cantava sem parar uma canção maviosa levantando a cabecinha como quem olha o céu. Eu achava lindo!           Guloso, comia as pimentas malaguetas como para "afiar" a voz e pulava de um lado para o outro tomando banho e molhando tudo ao derredor quando sacudia as asinhas azuis. Esganado, comia as frutas ali depositadas como se fosse um banquete real. Quando seu "dono" se aproximava ele conversava com ele agoniado, como a pedir-lhe algo. Incógnita conversa entre um ser livre e pensante e um passarinho frágil e preso.

 

       Eu olhava a cena e sofria com aquela conversa que, imaginava eu, era uma declaração de amor, de um ser que aceitou a dura sorte da prisão e ainda alegrava o coração do seu algoz. Liberta-o! - Pedia eu triste por vê-lo preso-, mas seu dono dizia amá-lo e não o queria perder.  O tempo passava e o ritual da doação era diário. Até que num triste dia, seu dono morreu e o pássaro emudeceu e ficou de cabeça baixa alguns dias. Refletindo e engolindo minha dor, fui ao terraço determinada a abrir a gaiola. Finalmente ele seria livre e poderia voar com seus parentes, que sempre vinham visitá-lo e fazer coro ao seu cantar. Surpresa medonha!

 

       Ele estava caído, cabeça inclinada, bico fechado... Nunca mais voaria. Chorando enterrei-o no jardim e o cobri de flores. Ele agora era livre, finalmente! Todos os dias seus familiares veem ao meu jardim comer pimentas e cantam pendurados nos coqueiros a canção da liberdade. Enquanto isso, em algum lugar do céu, há um passarinho azul conversando e fazendo feliz o seu "dono" e por vontade própria, cantando uma canção de amor. Acredito que ele cantava repetindo o poema de Olavo Bilac, O Pássaro Cativo, que aqui transponho um trecho, mas seu “dono” não havia entendido, e ele habituou-se à prisão dourada:

 

 “Não quero a tua esplêndida gaiola!

Pois nenhuma riqueza me consola

De haver perdido aquilo que perdi...

Prefiro o ninho humilde, construído

De folhas secas, plácido, e escondido

Entre os galhos das árvores amigas...

             Solta-me ao vento e ao sol!

Com que direito à escravidão me obrigas?

Quero saudar as pompas do arrebol!

             Quero, ao cair da tarde,

Entoar minhas tristíssimas cantigas!

Por que me prendes? Solta-me covarde!

Deus me deu por gaiola a imensidade:

Não me roubes a minha liberdade...

             Quero voar! Voar!...”

 

Até emudecer de dor.

 

Lígia Beltrão