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O Futuro dos Correios
O Futuro dos Correios

O FUTURO DOS CORREIOS

 

A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, que já foi um exemplo de serviço público, vive uma crise que atinge seus consumidores e divide opiniões quanto ao seu futuro. O administrador Mauro Mastella defende um debate amplo. Já o professor de Economia na UFRGS Marcelo S. Portugal acredita que, ao longo do tempo, co a evolução da tecnologia, os Correios passaram a ter outra missão.

 

MONOPÓLIO É O CERNE

 

Mauro Mastella

Doutor em Administração e professor da UFCSPA

mmastella@gmail.com

 

De maneira geral, a sociedade brasileira está insatisfeita com os serviços prestados pelos Correios, o que tem ensejado o debate a respeito da sua privatização. Por um lado, todos desejamos serviços postais eficientes, com custos competitivos; neste sentido, é interessante perceber que, em 2017, os Correios reverteram os resultados negativos de anos anteriores e reportaram recentemente um lucro de R$ 667 milhões. Então, temos, de um lado, uma empresa pública que tem melhorado seu resultado financeiro e, de outro, uma população insatisfeita com o nível de qualidade do serviço prestado.

 

Por mais que possamos discutir a viabilidade ou não da permanência do controle acionário da empresa junto à União, temo que, caso este caloroso debate se mantenha direcionado apenas para a necessidade de privatização, estaremos atacando o problema de uma forma míope, pois a eficiência não nasce automaticamente com a propriedade privada de um negócio. Ela é uma consequência natural da atuação empresarial em um ambiente competitivo.

 

Percebam que os Correios possuem duas características estratégicas importantes: configuram tanto uma empresa pública quanto um monopólio da União. E essas são características distintas. Isso significa que, além de ser uma empresa administrada exclusivamente pelo poder público e de propriedade única do Estado, trata-se de uma organização que atua em um mercado exclusivo, com baixa rivalidade. E é essa característica monopolista do serviço que deveria estar no cerne da discussão, e não a necessidade de privatização.

 

O que promove o aprimoramento contínuo, a redução de custos e a melhoria da qualidade dos serviços é a atuação em um ambiente competitivo, for dos privilégios monopolistas. Assim, entendo que a melhoria da eficiência operacional não é obtida com a simples mudança do controle acionário do setor público para o setor privado. Ela é fruto da atuação em um ambiente de mercado em que a concorrência com outras empresas promove a inovação dos serviços prestados e a racionalização dos processos produtivos, visando à ampliação da participação e ao aumento do valor de mercado. Ou seja, uma empresa privada monopolista também pode ser ineficiente.

 

No Reino Unido, a rede ferroviária nacional saiu do controle estatal nos anos 1990. Paradoxalmente, hoje em dia, o governo britânico tem direcionado mais verbas públicas para a rede ferroviária do que nos períodos anteriores à privatização, em que toda a gestão estava centralizada nas mãos do Estado. Como consequência, a opinião pública tem se mostrado favorável á nacionalização das linhas de transporte ferroviário.

 

Assim, fica evidente que o que pode promover a eficiência é a concorrência com outras empresas. O monopólio é um desincentivo à inovação e à qualificação. Os Correios não precisam ser uma empresa pública. Contudo, não é sua privatização que poderá garantir a redução dos gastos públicos nesta atividade e a melhoria da qualidade do serviço postal.

 

MUDANÇA PAULATINA

 

Marcelo S. Portugal

Ph. D em Economia e professor da UFRGS

msp@ufrgs.br

 

 

Os Correios já desempenharam um papel fundamental no crescimento econômico das nações. Os mais jovens podem até não saber disso, mas já existiu um mundo sem internet, e-mail e WhatsApp. Pior ainda, já houve um tempo sem telefone ou televisão. Nesse mundo do passado, os Correios eram um elemento fundamental para a transmissão da informação e para a comunicação entre as pessoas e as empresas. Não é por outra razão que todas as nações criaram os seus Correios. O caráter de bem público associado a sua tarefa e as grandes somas de recursos necessárias para a sua criação tornavam natural que as empresas de Correios fossem estatais. Foi assim até mesmo, em países que são o berço do liberalismo econômico. A dianteira esteve com o Reino Unido, que, em 1516, criou o Royal Mail. Os norte-americanos copiaram os ingleses e, logo após a sua independência, em 1775, instituíram o Post Office Department, indicando Benjamin Franklin como primeiro postmaster general.

 

Em diferentes países, inclusive no Brasil, onde sua fundação remonta a 1663, os Correios surgem como uma empresa pública que fornece um serviço essencial ao desenvolvimento das nações. Ao longo do tempo, para aproveitar ganhos de escala naturais a sua operação, os Correios tornaram-se uma empresa de logística, fazendo também o transporte e a entrega a domicílio de encomendas.

 

Contudo, no século 21, a realidade econômica e tecnológica é bem diversa daquela que levou à criação do correio estatal. Essas mudanças induziram diversos países a privatizar as suas empresas de Correios. Os alemães o fizeram em 1995 e os ingleses em 2013. Agora, esse debate sobre privatização chegou ao Brasil.

 

A nossa empresa de Correios sofre de dois tipos de problemas distintos. Por um lado, há a ineficiência usual da administração política de uma empresa pública, que está sempre sujeita à ingerência externa e ao assalto com fins políticos. No caso dos Correios, esses assalto atingiu não apenas a própria empresa, mas também o fundo de aposentadoria dos funcionários. O minguado lucro de R$ 667 milhões obtido em 2017 não abate nem 20% do prejuízo de R$ 3,6 bilhões acumulado em 2015 e 2016. Por outro lado, a principal vantagem competitiva dos Correios, seu monopólio na entrega de cartas, torna-se cada vez menos relevante em função das mudanças dos últimos anos. Ao longo do tempo, a nossa empresa pública de Correios terá de depender crescentemente da receita da entrega de encomendas, onde não há monopólio.

 

É preciso começar a preparar os correios para a sua privatização. O exemplo inglês, de uma privatização paulatina, parece ser o mais adequado. Isso implica transformar os Correios em uma empresa de capital aberto, vender o controle mantendo uma golden share, que no caso da Inglaterra foi de 30%, e, posteriormente, vender a totalidade das ações.

 

Assim como ocorre com as privatizações de forma geral, o importante seria o ganho de produtividade a ser obtido, e não a receita extra de recursos oriundos da venda da empresa. O surgimento de uma empresa privada eficiente na área de logística, que entregasse encomendas sem atrasos constantes, poderia contribuir para o aumento de produtividade da economia como um todo.

 

Fonte: Zero Hora//Duas Visões em 13/05/2018