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O Berço de Florbela
O Berço de Florbela

O Berço de Florbela

 

       Eu vi o berço de Florbela Espanca. Eu vi. Estava a planície coberta de verde, do trigo recém-nascido, a espera da primavera, para cobrir-se de dourado. Ela nasceu em Vila Viçosa, no Alentejo, em 08 de Dezembro de 1894. Infelizmente, depois de uma vida breve e angustiada, onde buscava desesperadamente o amor, com alguns casamentos frustrados, no mesmo dia do seu nascimento e do seu primeiro casamento, em 08 de Dezembro de 1930, as duas horas, ela suicidou-se com dois frascos de Veronal. O mundo, não só Portugal, perdeu uma das maiores poetisas da história. Não é à toa que o Alentejo é poesia pura. Berço dessa mulher que viveu pouco, mas nos deixou uma obra de incalculável valor.

E assim disse a grande poetisa sobre a sua terra: Sob a serenidade austera da minha terra alentejana, lateja uma força hercúlea, força que se resolve num espasmo, que quer criar e não pode. A tragédia daquele que tem gritos lá dentro e se sente asfixiado dentro duma cova lôbrega; a amarga revolta de anjo caído, de quem tem dentro do peito um mundo e se julga digno, como um deus, de o elevar nos braços, acima da vida, e não poder e não ter forças para o erguer sequer!”

      

Eu vi as cegonhas cuidando dos ninhos à espreita, para defenderem suas crias. Eu vi a poesia descortinando-se pela planície, a perder de vista, exalando o cheiro das oliveiras que lhe serviam de sombra, e vinhedos brotando, na esperança do renascer da vida.  Eu vi encantada a vida sendo chocada e parida, nas terras do Alentejo.

       Cascavilhei-me por dentro a procura de outro sentimento que me revelasse a grandeza do que sentia naquele momento, mas só encontrei alumbramento e um amor inexplicável, por uma terra desconhecida até então, mas que eu sabia, sempre a amara, desde alguma data não conhecida. Queria por meus pés naquele chão e sentir o gosto de acariciar aquela terra. Queria ter a sua brisa acariciando-me o rosto e engolindo a felicidade do reencontro marcado em vidas longínquas. Vai-se entender o inexplicável dos sentimentos...

      

     Em Ervidel, as construções do lugar lembram uma cidade de bonecas. Casas pegadas umas nas outras, com pinturas coloridas, onde a beleza brota daquelas portas e janelas, todas bem parecidas. Tudo é mágico. Tudo é aprendizado, conhecimento e sabedoria. Fecho os olhos e me sinto leve, levada por uma brisa que despe minha alma e se faz alumbramento. Meu Deus! O Alentejo é o paraíso? Mas claro que é. Gosto de sentir o vento na cara, a confidenciar-me segredos que só eu escuto. Pergunto baixinho para Florbela Espanca: - Como se pode morrer, tendo sido parida num lugar assim? – Só o vento responde... E assim, eu peço licença para ser mais uma a ouvir os sussurros do tempo.

 

Lígia Beltrão

 12/05/2015

00h 37min