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Noventa sem cueca!
Noventa sem cueca!

Noventa sem cueca!

por Cláudia de Villar

http://claudiadevillar@yahoo.com.br

A família do vovô Nestor estava preocupada. Seu Nestor havia se esquecido de vestir a cueca. Sim. Seria Alzheimer?

Eram três filhos. Todos amavam o pai, por isso a preocupação. Tudo começou quando um dia ele se esqueceu de calçar os chinelos. Andava descalço pela casa.

- Pai, de pés descalços? Vá calçar os chinelos!

E ele ia resmungando:

- Mas estou com os pés no chão. Não é isso que importa?

Noutro dia, o pai aparece sem a dentadura.

- Pai, cadê a dentadura? Vá colocar!

Seu Nestor sai da mesa do café resmungando:

- Mas eu só vou beber leite. Pra que os dentes?

Certa vez, o vovô apareceu na sala de visitas, quando estavam recebendo o rapaz do Censo sem os óculos (era quase cego), batendo em tudo.

- Pai, cadê os óculos?

- Óculos? Que óculos?

- Os que o senhor não está usando! Vamos lá buscar.

E a filha sai da sala, pedindo licença ao funcionário. O pai sai resmungando:

- Mas não era apenas pra responder às perguntas? Óculos pra quê?

Numa festa de aniversário de uma nora, Seu Nestor ficou responsável pela entrega do presente que a família havia comprado e entregue ao pai para ele dar à nora.

- Pai, cadê o presente da Cíntia?

Nisso, Cíntia fica com cara de paisagem na frente da família.

- Ora – começa o avô -, mas na semana passada eu falei com a Cíntia e ela me disse que só a nossa presença bastava. Fui à loja e pedi para trocarem o vestido por uma fatiota.

Nesse instante, brotou um galhinho verde na cara de paisagem da nora.

Os filhos, preocupados com a situação do pai, levaram-no ao geriatra. Só podia ser algum problema decorrente da velhice. Noventa anos não era para qualquer um. Para alguns, noventa anos significava estar morto em vida, principalmente para alguns parentes com mentes entediadas e engessadas.

O geriatra diagnosticou: Seu Nestor estava ótimo.

A família, diante do diagnóstico e como o pai não melhorava, convocou uma reunião com todos os membros da família, juntamente com o pai.

- Pai, o que está acontecendo?

- Nada.

- O senhor tem esquecido as coisas!

- Eu?!

- Sim.

- Que nada. Vocês é que só fazem questão de lembrar demais.

- Mas pai...

- Me deixem, me deixem...

- Não podemos esquecer coisas importantes pai...

- Chega, chega... – sai o pai resmungando.

Ninguém tinha coragem de continuar discutindo com o vovô. Até que numa certa manhã, aconteceu.

Todos em torno da piscina. Um calorão.

- Vamos dar um mergulho?! – convida o filho.

- Oba! Vamos! – grita a criançada da casa.

- Temos que ir trocar de roupa. – fala o netinho.

- Não. Vamos dar um mergulho de cueca mesmo. Só estamos nós mesmos, os homens, na casa!

Nisso, todos tiram as roupas e ficam de cueca.

Seu Nestor, sem nenhum pudor, tira as calças de tergal e fica nu. Todos olham boquiabertos. As crianças riem.

- Pai, cadê a cueca? – repreende o filho.

- Ora, cueca pra quê?

- Pai!!! Devemos vestir cueca! – fala o filho.

- Que engraçado. Parece que foi ontem que a sua irmã disse que não devemos esquecer as coisas importantes.

- Pois então! O senhor esqueceu-se de vestir a cueca!

- Não é nada disso! Eu lembrei que em época de amor aos animais, respeito à vida e à liberdade, devemos deixar “o bicho solto”. – E caiu na piscina.