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Modernismo em Portugal
Modernismo em Portugal

 

MODERNISMO EM PORTUGAL

Desde o final do século XIX, a arte vinha passando por grandes transformações.  A ruptura com o passado e a pesquisa de novas formas de expressão caracterizaram a arte no início do século XX, que nasceu sob o signo da irreverência, da polêmica, do escândalo e da experimentação.  Eram os tempos do Modernismo.

 

SÉCULO XX: O MUNDO DE PERNAS PARA O AR

Os primeiros vinte anos do século XX presenciaram um notável desenvolvimento científico e tecnológico.  As inúmeras invenções e descobertas realizadas entre 1900 e 1920 mudaram profundamente a face do mundo, criando um novo ritmo de vida para a maior parte da humanidade.  Mas o que se presenciou não foi apenas o progresso da ciência.

Na Europa, conflitos políticos levaram à eclosão da primeira Guerra Mundial (1914-1918), que deixou milhares de mortos.  Neste texto, o poeta português Fernando Pessoa expressa o horror da guerra:

O menino da sua mãe

“No plaino abandonado

Que a morna brisa aquece,

De balas traspassado

- Duas, de lado a lado -,

Jaz morto, e arrefece.

 

Raia-lhe a farda o sangue.

De braços estendidos,

Alvo, louro, exangue,

Fita com olhar langue

E cego os céus perdidos.

 

Tão jovem! Que jovem era!

(Agora que idade tem?)

Filho único, a mãe lhe dera

Um nome e o mantivera;

‘O menino da sua mãe’.

 

Caiu-lhe da algibeira

A cigarreira breve.

Dera-lhe a mãe. Está inteira

E boa a cigarreira.

Ele é que já não serve.

 

De outra algibeira, alada

Ponta a roçar o solo,

A brancura embainhada

De um lenço... Deu-lho a criada

Velha que o trouxe ao colo.

 

Lá longe, em casa, há a prece:

‘Que volte cedo, e bem!’

(Malhas que o império tece!)

Jaz morto, e apodrece,

O menino da sua mãe.”

 

            PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro:

            Nova Aguilar.

 

 

O NASCIMENTO DA REPÚBLICA PORTUGUESA

O fim do regime monárquico e a instalação da República, em 1910, é o fato político marcante do início do século XX em Portugal.  Logo em seguida, o país sofreria as dificuldades causadas pela Primeira Guerra Mundial.

Na década de 1920, o nacionalismo que empolgava a jovem República sofre forte influência do fascismo italiano e do nazismo alemão, assumindo uma forma radical que leva ao poder um governo de direita extremamente autoritário: em 1928, começava a ditadura de Oliveira Salazar.  Esse regime ditatorial perdurou até 1974.  Nesse ano, a Revolução dos Cravos pôs fim a uma das mais longas e opressoras ditaduras da história europeia.

 

O MODERNISMO EM PORTUGAL

O marco inicial do Modernismo português é o lançamento da revista literária Orpheu, em 1915, da qual participaram, entre outros, o pintor e escritor Almada Negreiros, e os dois mais importantes poetas da primeira geração modernista: Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro.

A revista teve apenas dois números (março e junho de 1915) e sofreu ataques furiosos da imprensa conservadora, que chamou os modernistas de “loucos futuristas”.  Mas as ideias provocantes dos jovens artistas marcaram presença e abriram espaço para a manifestação de novas concepções estéticas, numa tentativa de integrar Portugal no clima de renovação que agitava o ambiente artístico europeu.

Em 1927, uma segunda geração de escritores, surgida em Coimbra, marca seu espaço no panorama cultural português com o lançamento da revista Presença, uma “folha de Arte e Crítica”.  Além de reafirmar as ideias de renovação lançadas pela geração da revista Orpheu, procura desenvolver uma exigente consciência crítica, ausente nos primeiros modernistas, exceto em Fernando Pessoa.

Do grupo da revista Presença faziam parte escritores que se consagraram na literatura portuguesa, como José Régio, Miguel Torga, João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca e Adolfo Casais Monteiro.

 

FERNANDO PESSOA

Fernando Antônio Nogueira Pessoa (1888-1935) escreveu muito, durante a vida toda, mas, ao morrer, tinha apenas um livro publicado – Mensagem.  Em jornais e revistas, deixou alguns textos de crítica literária e uns poucos poemas em inglês ou português.  O restante de sua obra só veio a público postumamente.

Além das poesias que assinou como Fernando Pessoa, escreveu outras que assinou como Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caieiro, os três mais significativos heterônimos que criou.  Para cada um deles, Fernando Pessoa inventou um estilo, uma visão de mundo particular e até uma “biografia”.

É importante destacar a diferença entre heterônimo e pseudônimo.  Pseudônimo é apenas um “nome falso”, inventado por alguém para ser usado no lugar de seu nome verdadeiro.  Heterônimo, porém, tem outro sentido.  Veja como esse substantivo vem explicado no dicionário Aurélio: “Outro nome, imaginário, que um homem de letras empresta a certas obras suas, atribuindo a esse autor por ele criado qualidades e tendências literárias próprias, individuais, diferentes das do criador”.  E é exatamente isso que faz Fernando Pessoa.

 

ALBERTO CAEIRO

Alberto Caeiro representa o poeta que busca o campo e a vida ingênua e simples, despojada de inquietações intelectuais.  Seu olhar é o olhar de quem vê o mundo pela primeira vez, sem metafísica ou religião.

O guardador de rebanhos

“(...)

O meu olhar é nítido como um girassol,

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de vez em quando olhando para trás...

E o que vejo a cada momento,

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo essencial!

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras...

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo...

 

Creio no mundo como num malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se faz para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de

                                                           [acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentido...

Se falo na Natureza não é porque saiba o

                                                           [que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

 

Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

 

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência não pensar...

(...)”

 

 

RICARDO REIS

É um poeta pagão, uma espécie de reencarnação dos antigos poetas gregos e romanos que, diante da brevidade da vida e da indiferença dos deuses, pregavam o gozo sereno dos prazeres da existência, sem aflição ou angústia.

Ao ler os poemas de Ricardo Reis, você conhece o mais musical dos heterônimos inventados por Fernando Pessoa.  “Poesia é uma música que se faz com ideias”, escreveu reis, “e por isso com palavras”. Suas poesias, ou odes, foram escritas sempre num determinado tamanho, dando ritmo às palavras enquanto modela as ideias:

            “Sim, sei bem

Que nunca serei alguém.

            Sei de sobra

Que nunca terei uma obra.

            Sei, enfim,

Que nunca saberei de mim.

            Sim, mas agora

Enquanto dura esta hora,

            Este luar, estes ramos,

Esta paz em que estamos,

            Deixem-me crer

O que nunca poderei ser.”

                       

ÁLVARO DE CAMPOS

Em Álvaro de Campos encontramos o poeta angustiado do século XX, maquinizado, urbano, descrente, perdido nas contradições de seu mundo interior.

Lisbon revisited

  (1923)

 

“Não: não quero nada.

Já disse que não quero nada.

 

Não me venham com conclusões!

A única conclusão é morrer.

 

Não me tragam estéticas!

Não me falem em moral!

 

Tirem-me daqui a metafísica!

Não me apregoem sistemas completos,

            [não me enfileirem conquistas

Das ciências (das ciências, Deus meu, das

            [ciências!) –

Das ciências, das artes, da civilização moderna!

 

Que mal fiz eu aos deuses todos?

 

Se tem a verdade, guardem-na!


Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro

            [da técnica.

Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.

Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

 

Não me macem, por amor de Deus!

 

Queriam-me casado, fútil, quotidiano

            [e tributável?

Queriam-me o contrário disto, o contrário

            [de qualquer coisa?]

Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos,

            [a vontade.

Assim, como sou, tenham paciência!

Vão para o diabo sem mim,

Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!

Para que havemos de ir juntos?

 

Não me peguem no braço!

Não gosto que me peguem no braço. Quero

            [ser sozinho.

Já disse que sou sozinho!

Ah, que maçada quererem que eu seja da

            [companhia!

 

Ó céu azul – o mesmo da minha infância –

Eterna verdade vazia e perfeita!

Ó macio Tejo ancestral e mudo,

Pequena verdade onde o céu se reflete!

Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!

Nada me dais, nada me tirais, nada sois

            [que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu

            [nunca tardo...

E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio

            [quero estar sozinho!”

 

                       

FERNANDO PESSOA “ELE MESMO”

Nos textos assinados por Fernando Pessoa, temos o poeta da saudade e da melancolia, que retoma formas tradicionais do lirismo português.  Mas esse lirismo é contido e vem sempre marcado por uma nota de inquietação existencial.

É como Fernando Pessoa ”ele mesmo” que publicou Mensagem, livro composto de pequenos poemas que, no conjunto, contam liricamente a história de Portugal e projetam, de forma mística, o sonho de um futuro e glorioso novo império.  São desse livro o verso seguinte:

Mar portuguez

“Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão resaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

 

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quere passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,

Mas nelle é que espelhou o céu.”

                                  

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

A angústia existencial é o tema constante e obsessivo da obra de Mário de Sá-Carneiro (1890-1916).  Esse escritor mergulhou profundamente dentro de si mesmo, numa dramática e alucinante exploração de seu mundo interior, que acabou por leva-lo ao suicídio.  A sensação de ser um “estranho” no mundo é uma tônica em seus versos, como se pode ver nestas estrofes do poema “Dispersão”:

“Perdi-me dentro de mim

Porque eu era labirinto

E hoje, quando me sinto,

É com saudades de mim.

 

Passei pela minha vida

Um astro doido a sonhar.

Na ânsia de ultrapassar,

Nem dei pela minha vida...

 

Para mim é sempre ontem,

Não tenho amanhã nem hoje:

O tempo que aos outros foge

Cai sobre mim feito ontem.

 

Regresso dentro de mim

Mas nada me fala, nada!

Tenho a alma amortalhada

Sequinha, dentro de mim.

 

Não perdi a minha alma,

Fiquei com ela, perdida,

Assim eu choro, da vida,

A morte da minha alma.

 

(As minhas grandes saudades

São do que nunca enlacei.

Ai como eu tenho saudades

Dos sonhos que não sonhei!...)”

 

            Mário de Sá-Carneiro; poesia.

                        Rio de Janeiro: Agir.

 

 

Sá-Carneiro escreveu as seguintes obras: Céu em fogo (contos); A confissão de Lúcio (narrativa); Dispersão (poesias); indícios de ouro (poesias).

 

OS VÁRIOS CAMINHOS DA MODERNIDADE

Na década de 1940, surgiu uma terceira geração literária, que propôs um engajamento maior dos escritores nos problemas sociais e políticos dos tempos difíceis da Segunda Guerra Mundial.  Essa geração sofreu forte influência de alguns escritores norte-americanos (como Steinbeck, John dos Passos e Hemingway) e brasileiros (como Jorge Amado, Graciliano Ramos e José Lins do Rego).

O Neo-Realismo, nome com que ficou conhecido esse movimento, revelou prosadores importantes, como Fernando Namora, Alves Redol, Vergílio Ferreira e Ferreira de Castro.

Nestes versos de Carlos de Oliveira, observe a indignação que marcou a geração neo-realista:

Cantiga do Ódio

 

“O amor de guardar ódios

Agrada ao meu coração:

É como um dia sem sol

A raiva na servidão.

Há de sentir o meu ódio

Quem o meu ódio mereça:

Ó vida, cega-me os olhos

Se não cumprir a promessa”

E venha a morte depois

Fria como a luz dos astros:

Que nos importa morrer

Se não morrermos de rastros?”

 

            In MOISÉS, Massaud (org.) Presença da literatura

                        Portuguesa – modernismo. São Paulo: Difel.

 

Depois da metade do século XX, a literatura portuguesa continuou se enriquecendo e renovando.  Ao lado de autores consagrados, surgem novos valores que vão contribuindo para a formação de um rico patrimônio literário, no campo do romance, do conto e da poesia.

Dentre os escritores importantes que surgiram ou se firmaram na segunda metade do século XX, podemos citar Sofia de Melo Breyner Andresen, José Cardoso Pires, urbano Tavares Rodrigues, Agustina Bessa-Luís, José Rodrigues Miguéis, Irene Lisboa, Isabel da Nóbrega, Maria Judite de Carvalho, David Mourão Ferreira, Augusto Abelaira, Antunes da Silva, José Saramago, Lobo Antunes, Herberto Helder, Almeida Faria, entre outros.