Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese




ONLINE
9





                                              

                            

 

 

 


Matou o Filho e Mandou o Corpo para a Escola
Matou o Filho e Mandou o Corpo para a Escola

 

Assassinato. Sim, estamos falando de assassinato em família. Como professora eu e outros colegas de profissão recebemos todo início de ano letivo vários corpos sem vida. Corpos de crianças que foram mortas pelos pais.  Crianças que mal tiveram a chance de nascer e foram assassinadas por aqueles que deveriam proteger, preservar a vida, dar carinho e amor, mas ao invés disso, sua família matou, assassinou, tirou a vida, a possibilidade de ser no mundo.

Obviamente, estou falando sob forma simbólica, mas é assim que eu e muitos outros professores sentem quando recebem os seus alunos. São crianças “mortas”, assassinadas pela distância, pelo desamor, pela falta de carinho, atenção e educação de seus pais. São crianças largadas no mundo, criadas pela televisão, pelas ruas, pelos amigos, pelos conhecidos de amigos. Criadas à revelia, sob o olhar atento daqueles que estão à procura de um corpo vazio para fazer o que bem entendem. E esses caçadores de zumbis encontram vários corpos vazios de amor, de atenção e de educação, prontos para serem moldados conforme o seus desejos pecaminosos e corruptores.

Chegam às escolas muitas crianças que foram apenas geradas, mas não foram desejadas. Há uma grande diferença entre gerar um bebê e desejar um bebê. Quando um bebê é gerado, ele não traz em sua bagagem genética o sonho da mãe ou do pai em ter um filho. A criança que é gerada é fruto de uma vontade egoísta, muitas vezes com segundas intenções, como angariar fundos financeiros do governo, ou o desejo de solidificar uma relação familiar, constituir uma família, mesmo que seja uma família que nasça da obrigação civil. Por outro lado, uma criança desejada, tanto pela mãe quanto pelo pai é uma criança que é amada desde o pensamento em tê-la.

Quando uma criança é desejada, os pais se programam, fazem planos, idealizam não apenas o quarto, o nome, as roupas, mas idealizam o futuro desse filho, pensam na educação desse ser. Por outro lado, uma criança que é gerada, nasce do incerto, de circunstâncias, muitas vezes impróprias, não é feito um planejamento econômico e familiar de aconchego e seu futuro é comprometido. As crianças geradas são fruto do egoísmo dos pais. As crianças desejadas são a consolidação do amor responsável e comprometido.

Quando a criança gerada chega à escola ela chega morta. Ao contrário da criança desejada que chega viva. A criança morta não tem reação aos estímulos saudáveis da escola. Reage, negativamente, a toda e qualquer interferência do educador. Para esse corpo vazio, qualquer intervenção reflete uma repulsa em seu corpo sem experiência de vida no que diz respeito a hábitos e atitudes. É como se você jogasse água numa planta já morta, o que acontece é apenas estimular a decomposição dessa planta morta. Notamos que as crianças mortas não têm ou pouco têm noção de coleguismo, de amor ao próximo, de respeito ao outro, pois ela não foi respeitada desde o útero. Foi gerada, não foi desejada. Por outro lado, a criança viva, é como a semente que germina ao ser aguada. Obviamente, toda muda tem que ser podada, gera dedicação, atenção, trabalho, respeito e amor.

Gerar, no sentido etimológico da palavra é dar origem à (...). Para darmos origem a algo é necessário que tenhamos a matéria prima o que aqui no caso seria o pai e a mãe, fornecedores do sêmen e do óvulo. Eis o gerar uma criança. Em contrapartida, desejar uma criança é mais do que fornecer os materiais necessários para a procriação, mas ter a vontade em transmitir amor, carinho, experiência e conhecimento.

Temos no início do ano letivo uma quantidade enorme de corpos que foram gerados. Como se fossem madeira bruta, esses corpos precisam ser talhados, moldados para uma convivência harmônica. E, nesse momento, surgem as divergências de interesses.

Num ambiente escolar, ao qual é imprescindível o mínimo que seja de civilidade e de noções básicas de convivência surgem os corpos jogados. São pais, mães, famílias que trazem para a escola os corpos de suas crianças mortas. Há um conflito de desejos e de expectativas. Professores precisam passar experiências e conhecimentos científicos, mas precisam ter uma base familiar bem fortalecida. Pais precisam de uma ‘cova’ para largarem os corpos de seus filhos. São expectativas de um futuro diferente.

Professores querem crianças vivas, querem trocar aprendizagens, querem ensinar às crianças coisas sobre o mundo letrado. E toda troca de informação, todo ensinamento gera conflito, gera curiosidade, gera um burburinho. Famílias constituídas por pais assassinos não querem barulho. Querem que os corpos de seus filhos fiquem ilesos, imunes, imersos na terra. Não querem burburinho.

Filhos gerados acarretam em incomodação. Filhos desejados proporcionam orgulho. Essa é uma das diferenças básicas. É um incômodo ter que ir à escola em dia de reuniões. É um incômodo ter que sentar com o filho, ao final do dia para ajudar no tema de casa. É incômodo colocar o filho para dormir. É incômodo olhar o caderno do filho. É um incômodo estar com o filho nos finais de semana. É um incômodo ter que ser responsável pelo o que seu filho fará quando estiver sozinho em casa. É mais fácil a televisão entreter o corpo, é mais fácil a rua educar a massa corporal morta. É mais fácil os amigos, os conhecidos, ou qualquer criatura viva ficar com o corpo gerado.

Pais que desejam seus filhos sentem prazer em estar com eles. Sentem que são responsáveis pelo florir e desabrochar de um ser desejado. Querem saber com quem seus filhos ficam quando não estão em casa. Providenciam que um adulto fique com eles nos momentos que precisam sair para trabalhar. Comparecem às reuniões escolares. Sabem que seus filhos precisam de atenção, como qualquer ser que esteja vivo.

Toda planta precisa ser regada. O filho é uma plantinha que precisa de água e adubo. Porém, muitos pais vão, aos poucos, matando seus filhos. Geram os bebês para receberem auxílio financeiro de governos. Vão tendo filhos e mais filhos mesmo sem terem condições para sustentá-los decentemente, pois são egoístas. Eles querem gerar um bebê. E ponto final. Depois surgem os problemas. É a falta de comida, falta de água, de moradia, de grana e com tanta falta, acaba por faltar amor. Um ser sem amor vai morrendo. E, dessa forma, chegam às escolas os corpos das crianças assassinadas pelos pais.

Triste de ver crianças chegando ou apáticas ou elétricas nas escolas. Enquanto umas trazem além do corpo uma alma morta, sem desejos, sem vontades, sem expectava de uma vida, outras trazem a inquietação do descompromisso. São frutos do “tô nem aí” dos pais. Parece que os pais jogaram uma pá de cal no filho. Enterraram o bebê e esse bebê foi-se criando sozinho. Suas aprendizagens são frágeis, sua experiência de vida com o convívio com a família assassina em nada colaborou para o progresso do ser. Portanto, esses corpos chegam repletos de marcas de dores provocadas pelo contato frio das pás em suas cabeças e em seus corpos. Não reconhecem o amor, o respeito, a solidariedade, a higiene ou a atenção, por mínima que essa atenção seja. Qualquer tentativa de proximidade é considerada uma agressão. Todo passo dado pelo professor em direção ao corpo morto é visto como outra pá de cal vindo em sua direção. Tão acostumadas essas crianças estão em serem maltratadas pelos pais que não reconhecem o amor e o respeito. Em suas casa, não há diálogo, mas gritos. Não há o colo, o aconchego do abraço, mas são brutalmente tocados ou sumariamente ignorados. São filhos apenas gerados.

A criança desejada aceita a intervenção do professor, pois já está acostumada a ouvir e a respeitar. Dessa forma, as trocas e as aprendizagens acontecem com mais naturalidade. Há nesse momento a germinação do ser, enquanto no outro caso, o que ocorre é o apodrecimento do corpo já morto.

E o vício do assassinato se perpetua dentro da escola. Crianças mortas não precisam aprender e, assim, continuam mortas de amor, conhecimento, carinho, atenção, orientação e respeito.

Por fim, triste de um povo que ainda tem em suas escolas corpos de crianças mortas. Qual futuro esperar de uma geração sem vida? Quais frutos essas sementes não germinadas darão? Quais ações poderemos esperar desses filhos de assassinos? E assim, vai-se seguindo, sem atenção dos pais, do governo e de todos que poderiam fazer ou tentar fazer renascer esses seres. Dessa forma, as famílias seguem sem orientação no que diz respeito ao ato de gerar uma criança, não tomando como sua responsabilidade a criação de seus filhos e tomam ao seu modo, a melhor atitude que pensam que poderiam ter, a família, simplesmente, mata o filho e manda o corpo para a escola. Dá menos trabalho e ninguém da família é punido, pelo contrário, é fornecida a essa família assassina auxílio financeiro para a sua pobreza de amor.