Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese




ONLINE
6





                                              

                            

 

 

 


Louco? Quem? Eu?/Conto de Luiz Amato
Louco? Quem? Eu?/Conto de Luiz Amato

   Conto:  Louco? Quem? Eu?      Autor:  Luiz Amato

 

Louco? Quem? Eu?

 

Num canto de seu exílio, a insanidade insiste em tomar-lhe os últimos momentos de lucidez, mas mesmo assim ele reage, chora e grita:

– Louco? Quem? Eu?

 

 

♣♥♣

 

 

– Doutor, penso que é melhor dar-lhe o sedativo, colocar a camisa de força e deixá-lo no quarto acolchoado.

O médico, de olhar fundo e nariz proeminente concorda:

– É, acho que é o jeito. Mantenha-o em observação pelo menos até amanhã no almoço.

– Perfeito doutor, pode deixar que eu cuidarei pessoalmente.

– Então até amanhã.

 

 

♣♥♣

 

 

O Sanatório Lar dos Campos Silvestres, também conhecido pela vizinhança como Sanatório Lar dos Lelés, já tivera sua época de pompa, com ilustres hóspedes (assim eram chamados os pacientes com dinheiro, na década de cinquenta).

Os quartos pareciam mais ricos aposentos de hospedarias serranas, a cozinha digna de um hotel de luxo. Porém com o passar dos anos e a tomada de seu controle por um órgão governamental, transformaram-lhe no que é hoje.

 

 

♣♥♣

 

 

João sentiu uma coceira na cabeça. Meio zonzo tentou levar a mão, mas não conseguiu. O que estava acontecendo?

Forçando os olhos e a mente a acordar, balançou a cabeça, percebendo que estava imobilizado por algo parecido com um blusão, com correias e fechos. Quis soltar-se, mas seu esforço foi inútil.

Arrastou-se sobre o piso, revestido de colchonetes presos entre si, encostando na parede, também acolchoada do mesmo modo.

O teto era de um cinza estranho, indefinível, com uma única lâmpada pendente no centro. Uma robusta porta de ferro com janelinha encerrava o sombrio aspecto do quarto.

 

 

♣♥♣

 

 

Ele olhava a lâmpada.

A bolsa no oriente caíra. Nova reunião do grupo dos países ricos.

João continuava olhando a lâmpada.

O Congresso adiou a votação. Novo escândalo na previdência.

João dormiu.

O verde do gramado estendia-se por quilômetros, imensos canteiros de flores multicoloridas.

João sonhava.

Países no Golfo se enfrentavam, mais uma criança pequena morria subnutrida.

João abriu os olhos. Desperto, chorou.

 

 

♣♥♣

 

 

– Bom dia doutor.

– Bom dia Jorge, como está nosso paciente?

– Foi medicado nos horários estabelecidos. Manteve-se calmo a maioria do dia, gritando um pouco à tarde, mas logo parou.

– E a alimentação?

– Almoçou feito uma criança, comida na boca. A noite não quis o jantar. Hoje cedo pediu só água. O doutor acha que já podemos tirar a camisa de força?

– Não, ainda é cedo para isso. Bem, já vou indo.

– Até amanhã.

 

 

♣♥♣

 

 

João, sentado com as costas na parede, sentia o gosto horrível da medicação.

– Estranho, não tenho fome. Parece que fora minha mente, nada mais em meu corpo funciona.

– Nada sinto, somente penso e vejo. Sim, vejo vocês, os inquisidores. Às vezes não tão nítidos, mas todos aí, esperando para começarem com as perguntas.

– Todos tão tolos, com perucas encaracoladas e essa presunção no olhar.

– Venham, estou preparado. Sempre estive pronto para o momento da confrontação.

Sua cabeça doía.

– Acham que conhecem tudo sobre o ser humano e podem decidir sem errar?

– Hahahaha. Como não errar, se é próprio da natureza humana o erro. Assim como a tragédia e a comédia se complementam, sem o erro não existiria o acerto e muito menos a possibilidade da dúvida.

– São tolos em querer julgar-me pelos atos que cometi, mas mesmo assim aí estão prontos para determinarem:

– João, você é culpado de ser louco.

Fios de saliva escorriam pela sua boca.

– Como disse, estou preparado senhores. Pronto e totalmente seguro para contestar.

 

 

♣♥♣

 

 

– João, você é acusado, pelos padrões atuais da sociedade, de ser louco.

 

– Mas o que é ser louco senhores inquisidores?

– É não concordar com as regras sociais estabelecidas, com base em formadores de opiniões?

– Não agir como determinado pelos ditames da sociedade?

– Viver como lhe aprouver, do jeito que se achar melhor, sem grilhões nas pernas e na mente, sem o domínio do relógio, sem mídia de qualquer espécie a fundir-lhe conceitos de certo e errado, bom e ruim ou do politicamente correto?

 

– Bem, e quanto a total desobediência aos conceitos e normas?

 

– Todos os conceitos são passíveis de contestação. Não devem ser aceitos como verdade absoluta. Até a vida, a existência e a morte, podem ser contestadas como verdades absolutas.

– Imaginem senhores: Será que nossa realidade não passa de um sonho dentro de outra realidade desconhecida, sendo a vida um sonho e a morte um pesadelo, do qual você acorda para começar um novo sonho?

 

– E os atos cometidos pelo senhor?

 

– Atos?

– Não são atos, são reações. Todas ditadas por uma ação inicial. Tudo o que se faz são respostas, adquiridas pelo direito de vida.

 

– Sim, mas atendo-nos aos fatos, e solicitando que suas respostas sejam mais claras e objetivas, como o senhor explica o fato de nadar nu em uma praça pública.

 

– Senhores, eu nado nu, da mesma forma que as pessoas se divertem nuas, em praias de nudismo.

 

– Certo, porém essas pessoas estão num lugar específico para isso, e não em local público.

 

– Caros inquisidores, a nudez é, e sempre será a mesma, seja aqui, em Paris ou num prostíbulo. O nu é público, basta entrar numa banca de revistas, cinemas, enfim em nosso cotidiano.

 

– E no dia em que o senhor subiu no último andar do prédio da Santa Casa e ameaçou jogar-se pela janela. O que pretendia? Suicidar-se?

 

– Claro que não. Eu não tinha a menor intenção de pular. Só queria ver a reação das pessoas.

 

– Sim, e o senhor teve bastante tempo para ver. Foram quase seis horas de conversa com o Corpo de Bombeiros e a televisão, até o senhor se decidir a sair da janela.

 

– Verdade. Nesse tempo eu vi o aglomerado de pessoas que se formou lá embaixo. Algumas até com cartazes pedindo para que eu não pulasse.

– E a televisão então. A repórter conversando comigo, tentando convencer-me que a vida é bela. Dizendo que eu aguardasse, pois um político estava sendo contatado, para ajudar nas minhas reivindicações.

– Que reivindicações? Eu não pedira nada.

– Engraçado, todo dia dezenas de pessoas morrem, seja de fome, mal tratos, enfim, de varias causas, e aqueles que deveriam cuidar, ter responsabilidades, nem tomam conhecimento. As pessoas passam a ser números, mera estatística.

 

– Bem, vejamos:

– E quanto à placa que o senhor carregou por dias, com a frase “Abaixo o Brasil”. O senhor não gosta de seu país?

 

– Não, de jeito nenhum, engano de vocês. Claro que eu gosto.

– Amo o Brasil.

– O Brasil da miscigenação das raças.

– O Brasil de um povo, embora sofrido, muito bondoso.

– O Brasil de inúmeras pessoas que lutam pela igualdade e justiça social, mesmo sabendo como é árdua essa batalha.

– Amo o Brasil dos esportes, dos ritmos, das artes, das mentes abertas, daqueles que desejam o bem de todos, não importando níveis ou privilégios.

– Agora, pedi, e peço o fim, para o Brasil corrupto, sujo, indecente.

– Fim para o Brasil que deixa suas crianças e seus velhos morrerem de fome e inanição.

– Fim para o Brasil que contempla uma minoria ambiciosa, em total detrimento da esmagadora maioria que merece mais, muito mais do que lhe é oferecido e permitido.

– Fim para o Brasil, que reprime seus filhos.

– Para este Brasil, sim, eu desejo o fim.

 

 

♣♥♣

 

 

– Bom dia, como está nosso paciente?

– Doutor, ele continua imóvel, olhando fixamente à frente. Não come e não bebe, é como se estivesse em transe.

– Bem, dobre a dose dos medicamentos e submeta-o a uma terapia de descargas elétricas, a cada três minutos durante uma hora. Lembre-se, é importante mantê-lo imobilizado durante o procedimento. Repita tudo amanhã pois não virei, é minha folga. Até segunda.

– Até doutor.

 

 

♣♥♣

 

 

– Onde estou? O que são esses fios no meu corpo? Quem são vocês que tanto me olham? Vejo medo em seus olhares.

– Medo? Como é possível temer-me se vocês estão soltos e eu preso.

– Já sei, é a curiosidade.

– Buuuh... corram, não quero ninguém me olhando.

Todo seu corpo se contraiu.

 

 

♣♥♣

 

 

– Ah! Os inquisidores voltaram. O que vocês querem de mim agora?

– Parem de olhar-me como se fosse um animal. Eu não tenho medo, vocês sim, eu vejo em seus olhares.

– Eu tenho a lógica e a razão. Pode ser a lógica e a razão dos insanos, porém elas me dão a coragem para enfrentar o mundo se necessário.

– O que vocês estão murmurando? Louco, louco, louco, louco, louco........

– Louco? Quem? Eu?

Em um segundo ele reviu a sua vida.

 

 

♣♥♣

 

 

João morreu.