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Linguística - Parte 8
Linguística - Parte 8

 

Vamos iniciar com um desafio. Analise os dois enunciados abaixo:

 

Você é bonita.

Bonita é você.

Você acha que podemos usar o enunciado (1) e o enunciado (2) em qualquer contexto ou que há contextos que vão favorecer a utilização de (1) e não de (2)?

O desafio é criar dois contextos distintos: um em que, certamente, usaríamos o enunciado (1) e outro em que usaríamos o (2). Vamos ao trabalho?

 

Cena 1

Minha nossa! Não sei com qual roupa irei ao encontro de hoje com o João. Além disso, meu cabelo está horrível!

Você é bonita. Não se preocupe! Você ficará bem com qualquer roupa.

 

Cena 2

Menina! Sua pele é ótima! Seu cabelo é incrível! Adorei o seu visual! Você é bonita!

Que nada! Bonita é você.

 

Você, provavelmente, criou contextos muito próximos dos apresentados aqui. Intuitivamente, perceberam uma diferença nas sentenças, já que não tiveram dificuldades de pressupor em qual situação comunicativa o enunciado (1) seria utilizado e não o (2), ou vice-versa.

 

A tarefa nos leva a pensar se devemos tratar esses enunciados como sentenças diferentes ou como versões alternativas para dizer a mesma sentença. Vamos refletir sobre isso com base no Funcionalismo?

 

Um breve histórico do Funcionalismo: o funcionalismo europeu e o surgimento do funcionalismo americano.

 

O Funcionalismo surge como um movimento da corrente estruturalista. Muitos autores (CUNHA, 2009; CUNHA, OLIVEIRA & MARTELOTTA, 2003) atribuem aos linguistas do Círculo Linguístico de Praga, fundado em 1926, as primeiras análises de cunho funcionalista, pois, para eles, a língua é um “sistema funcional” e, por isso, deve ser usada para um determinado fim. As ideias dos funcionalistas de Praga foram fundamentais para os trabalhos de orientação funcionalista que surgiram posteriormente.  

 

Círculo Linguístico de Praga

“O nome da Escola de Praga é associado frequentemente ao de F. de

Saussure, embora ela não tenha sido reivindicada pelo linguista genebrês. O laço estabelecido entre ambos se explica mais pelos traços comuns desencadeados a posteriori do que por um parentesco genético. A atividade da escola de Praga se estende de outubro de 1926 a Segunda Guerra mundial; se os participantes dos Trabalhos foram numerosos (contam-se entre eles Français L. Brun, L. Tesnière, J. Vendryès, É. Benveniste, G. Gougenheim, A. Martinet), os protagonistas foram incontestavelmente S. Karchevski, R. Jakobson e N. S. Trubetskoi. As teorias (chamadas “teses”) da escola de Praga, apresentadas em 1929, se encontram ilustradas principalmente nos oito volumes dos Trabalhos do Círculo de Linguística de Praga, publicados de 1929 a 1938.

A metodologia do Círculo de linguística de Praga se fundamenta sobre uma concepção da língua analisada como um sistema que possui uma função, uma finalidade (a de se exprimir e de se comunicar) e, em consequência, com os meios próprios a este fim. Sem considerar intransponível a distinção entre método sincrônico e método diacrônico, os linguistas do Círculo de Praga se preocupam mais com os fatos da língua contemporânea, porque só estes últimos constituem um material completo nos quais se pode ter um ‘sentimento direto’. A comparação das línguas não deve ter por único fim considerações genealógicas; com efeito, ela pode permitir o estabelecimento de tipologias de sistemas linguísticos sem parentesco algum. Estabelecem-se, assim, as leis que dão conta do endeamento de fatos, já que, no domínio da língua, existia a tendência de explicar as mudanças isoladas e produzidas acidentalmente.” (Praga (Escola de). In: Dubois, J. et al. Dicionário de linguística. São Paulo: Cultrix, 2006.)

Os linguistas de Praga focalizavam as funções associadas à organização interna do sistema linguístico como na fonologia. Os modelos funcionalistas mais recentes ocupam-se em investigar “as funções que a linguagem pode desempenhar nas situações comunicativas, dando maior ou menor peso aos aspectos cognitivos relacionados à comunicação.” (CUNHA, 2009, p.159)

 

 

Na década de 70, na Costa Oeste dos Estados Unidos, como uma reação à linguística formalista, realizada pelos estruturalistas e pelos gerativistas, surge o Funcionalismo norte-americano:

 

“É por volta de 1975 que as análises linguísticas explicitamente classificadas como funcionalistas começam a proliferar na literatura norte-americana. Essa corrente surge como reação às impropriedades constatadas nos estudos de cunho estritamente formal, ou seja, nas pesquisas estruturalistas e gerativistas. Os funcionalistas norte-americanos advogam que uma dada estrutura da língua não pode ser proveitosamente estudada, descrita ou explicada sem referência à sua função comunicativa (...)” (Cunha, 2009, p. 163)

Tendo como foco uma liguística baseada no uso, os linguistas Sandra Thompson, Paul Hopper e Talmy Givón se destacaram como funcionalistas. Em seus trabalhos, é possível perceber a tendência em considerar o contexto linguístico e a situação extralinguística nas análises. Acesse o link e veja as informações SOBRE A OBRA “FUNCIONALISM AND GRAMMAR”, DE TALMY GIVÓN.

No Brasil, estudos de base funcionalista começam a se destacar na década de 80, a partir dos trabalhos de pesquisadores preocupados em investigar os fatores comunicativos e cognitivos para entender o funcionamento da língua falada e escrita.

Os Conceitos de Língua e de Linguagem Segundo a Proposta Funcionalista

Tendo como base o Funcionalismo, vale refletir sobre o modo como a língua e a linguagem são concebidas. Deixa-se de lado a ideia de que a linguagem é a forma de expressão do pensamento, já que os funcionalistas a concebem como instrumento de interação social. Segundo eles, é preciso investigar a motivação para os fatos da língua, ou seja, explicar as regularidades observadas no uso interativo da língua, uma vez que ela é concebida como uma estrutura maleável, adaptativa.

Assim, estuda-se a língua em situação real de comunicação, verificando o modo como os usuários da língua se comunicam eficientemente. Esses usuários são vistos como os responsáveis pelo estado e forma da língua.

Para os funcionalistas, em um contexto comunicativo real, não há dois modos distintos de dizer exatamente a mesma coisa. Por isso, deve-se ter como ponto de partida, em um estudo linguístico, a função.

Você é bonita.

Bonita é você.

No desafio proposto no início, reconhecemos a importância do contexto de uso. Se observássemos apenas o caráter sintático, não conseguiríamos entender por que um indivíduo utilizaria “Você é bonita” ou “Bonita é você”. Percebemos que o segundo enunciado só poderia ter sido produzido em um contexto de “réplica”. Por isso, segundo o Funcionalismo, não podemos ignorar o contexto, pois, no caso apresentado, a organização sintática do enunciado é motivada pelo contexto discursivo em que ela ocorre.

 

Nesse sentido, segundo a visão funcionalista, “a gramática de uma língua natural nunca é estática e acabada (...). A gramática é entendida como o sistema formado pelas regularidades decorrentes das pressões do uso. Essas pressões estão relacionadas a um complexo de interesses e necessidades discursivas/pragmáticas fundamentais que podem compreender os propósitos comunicativos do falante de ser expressivo e informativo ou o fenômeno da existência de lacunas nos paradigmas gramaticais ou no universo de conceitos abstratos.” (MARTELOTTA et al., 1996, p. 11)

 

O Papel dos Marcadores Discursivos

Amigos, como vão? Sabe, estou muito preocupado com uma coisa!

Uai, o que está acontecendo? É difícil, né, quando ficamos preocupados assim...

É sim, mas sabe o que é? Não sei se troco meu carro ou guardo o dinheiro para uma viagem...

Pois é, dúvida cruel, né!

É sim, mas vou pensar direitinho!

Vocês já devem ter percebido que as pessoas, em contextos de fala espontânea usam uma série de elementos, tais como “né?”, “sabe?”, “entende?”, “tipo assim”. Pois é, a visão tradicional costuma rotular esses elementos como “vícios de linguagem”.

No entanto, o Funcionalismo já que busca, no contexto discursivo, a motivação para os fatos da língua, mostra-nos que esses elementos, chamados “marcadores discursivos”, são usados para “reorganizar a linearidade das informações no nível do discurso, quando essa linearidade é momentaneamente perdida por diversos motivos como insegurança ou falhas de memória, e, apenas subsidiariamente, para organizar as relações textuais. Sua função em nível do discurso se motiva na medida em que a natureza fluida da fala impede uma perfeita linearidade das informações”. (MARTELOTTA et al., 1996, p. 61)

 

Exemplo:

Entrevistador: Rosilda, agora conta pra mim uma história que tenha::/ que alguém tenha contado pra você... que você tenha achado interessante...

 

Informante: bom... a colega minha... Neide... falou pra:: Lenira... que descobriu que eu estava saindo com o namorado dela... né? mas... isso é mentira... porque eu não saí com o namorado de ninguém... entendeu? mas eu nunca... nunca me atrevi a sair com o namorado de ninguém... com::/ ou paquerar namorado... de colega minha não... eu acho (covardia)... quer sair com o cara ou com o namorado... a gente mesmo tem que arranjar... né? concorda comigo? ((riso)) eu acho isso... mas... olha... elas deixaram de falar comigo... por causa dessa bobeira... né? ontem mesmo a professora perguntou por que o motivo da... fofoca... que a garota falou pra mim que ela tinha falado... aí eu falei pra ela que... eu nunca tinha saído com o namorado dela não... e se ela deixava de falar comigo... problema dela/

(Narrativa recontada, página 289, Corpus do Grupo Discurso & Gramática supletivo)

Em um contexto de fala espontânea, o discurso é planejado no momento da interação, diferentemente do que ocorre em contextos de língua escrita, em que temos tempo para organizar as informações. Daí a dificuldade que temos em manter a linearidade. Segundo Martelotta et al. (1996, p. 62), “a fala, portanto, é marcada por constantes pós-reflexões, reavaliações e adendos, ou seja, por uma frequente reorganização. Os marcadores são usados para viabilizar o processamento das informações na fala, no sentido de marcar para o ouvinte essas reformulações e de ajudar o falante a ganhar tempo para reorganizar suas ideias”.