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Liberdade, Libertários
Liberdade, Libertários

LIBERDADE, LIBERTÁRIOS

 

Ah, se as palavras falassem!  Mas não falam, somos nós que delas nos servimos, ora para dizer com clareza, ora para castiga-las sem piedade; se pudessem, agradeceriam aos poetas, dicionaristas, professores, literatos e demais devotos do bem falar.  Outro grupo, todavia, iria no encalço dos ideólogos, que surram as palavras e lhes amarrotam em sentidos obtusos, com as metas hediondas de ocultar, enganar, violar.  Embusteiras, as ideologias tentam inverter e manipular a imagem verbal da realidade para que esta reflita seu mundo particular e interesseiro.  Palavras mal usadas, eis a pior das confusões.  Para nos salvarmos, o fio de Ariadne terá que vir do respeito ao sentido das palavras, da clareza na dicção e da atenção na compreensão do que se pode dizer com o bom uso de cada verbo.  Iluminar a sociedade limpando o mundo comunicativo, eis a meta de Jürgen Habermas, sempre necessária como antídoto e profilaxia social.

Liberdade, isonomia paz e felicidade estão entra as palavras mais valiosas para qualquer sociedade, igualmente surradas pelas ideologias.  Vejamos o caso de liberdade, conceito que surge no mundo antigo, em sociedades escravistas.  Ser livre, na Grécia e em Roma, era não ser escravo.  A servidão poderia advir da derrota na guerra, de captura e tráfico, de obrigações jurídicas que atingiam a família e faziam com que um bebê nascesse posse de outro homem, proprietário de seus pais.  Há aneleutheros, termo depreciativo grego que diz: isto é indigno de um homem livre; em Roma, ars liberalis (artes liberais) são aquelas próprias de homens livres, dado que o escravo, em sua vileza, não pode sequer compreendê-las.  Liberdade, portanto, é a condição resultante da ausência ou superação da escravidão.  Em sentido religiosos, derivado do platonismo, libertação será a superação do corpo, prisão da alma, e eis porque as religiões, o cristianismo em particular, nunca deram combate ao escravismo, antes preferiam fazer colheita entre escravos, prometendo paraíso para a alma liberta.

Modernamente, uma ideologia cresceu em torno da palavra liberdade e não cessa de fazer estragos ao sentido desta, usurpada para expressar uma doutrina econômica, política e social carente de nome objetivo.  Liberalismo, e liberais que defendem acima de tudo a propriedade privada e o fim do estado, e que agora querem chamar-se libertários (!), como se lutassem pela libertação de quem segue escravo, mesmo 127 anos após a Lei Áurea?  Serão os herdeiros de empresas e seus acólitos ideológicos, ou os que nascem vitimados pela pior das servidões, a miséria, a falta de alimento, lar, saúde, higiene e educação em grau elementar, e que serão condenados a vidas inteiras de sequelas e impossibilidades?

No vocabulário (ai, palavras!) do grupo liberal mais atuante no Brasil, educação pública é dita “educação paga com dinheiro roubado” (impostos), e não deveria existir.  Renato Janine Ribeiro fez ver, recentemente, a contradição dos liberais ideológicos, pois a finalidade ética desta doutrina é permitir a realização das potencialidades do ser humano, para o que é mister que este não esteja preso a amarras e limites.  Ora, disse o então articulista deste PrOA (caderno/jornal), hoje ministro da Educação:  como florescer, se a condição original de muitos indivíduos é tal que lhes impede o desenvolvimento?  Para que a meta virtuosa seja lograda, portanto, é preciso, que condições sociais elementares sejam asseguradas, o que ainda não ocorre no Brasil.  Eis o quadro em que o Estado pode e deve atuar, equalizando condições que garantam a liberdade de todos, e, a partir desta base, a livre competição na busca da felicidade.  Estados modernos souberam conciliar esta base socialista com a economia de mercado, pondo fim ao maniqueísmo ideológico gestado nos séculos XIX (liberalismo x marxismo) e XX (guerra fria), em prol de uma sociedade complexa, efetivamente capaz de gerar condições de liberdade e felicidade para todos.

E no verbete “libertário(a)”, será melhor vermos a alegria de Safo e suas seguidoras, a coragem dos contestadores ou a poesia de Victor Jara (1932 – 1973), morto por ditador liberal:  “Caminando, caminhando voy buscando liberdad, ojalá encuentre caminho para seguir caminhando”.

 

Fonte:  ZH/Francisco Marshall (Historiador, arqueólogo e professor da UFRGS em 16/8/2015