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Ler não é pra mim!
Ler não é pra mim!

 Ler não é pra mim!

Voltando aos meus relatos de vida... Vida é pra ser vivida e sentida na pele, no coração e na alma. E, muitas vezes, o que vivi e senti foi tão forte que... Duvidei. Deveria ou não seguir em frente? Pra ser professor tem que ter coragem.

Era uma linda manhã quente de início de março. Volta às aulas. Alunos novos, alunos já conhecidos. Pátio ensolarado e eu lá, dentro de uma sala de aula a falar. A ensinar e a aprender. Naquela manhã eu decidi que já era hora para apresentar a minha caixa de livros aos novos alunos do quinto ano do ensino fundamental. Para mim, aquele seria um dia mágico. Muita expectativa! Independente dos anos anteriores, das turmas que eles já estiveram. O importante para mim era valorizar aquele momento. Fui para o pátio ensolarado, levei a minha linda caixa de livros e...

Cláudia (usei o meu nome para a aluna em questão, não apresentando o nome verdadeiro da menina), uma menina miúda, alta, cabelos lisos, longos e pretos, olhou-me com ar de deboche e desprezo. A princípio eu não dei bola. Ela era uma menina repetente, mas era nova na escola. Recém havia chegado, fazia uns 10 dias. Voltando ao caso, a aluna, passou toda aquela manhã olhando-me como se dissesse: “Ah, sei... Então eu devo ler? Vá sonhando...” E, na verdade, eu fui sonhando. No geral, sei que a minha caixa de leitura desperta alegria, medo, curiosidade e ansiedade. Alegria por ver uma caixa repleta de ‘coisas’ novas, medo por pensar que teriam (pensavam eles) que fazer trabalhos para todos aqueles livros, ansiedade por não saber direito o que eu iria pedir sobre os livros e curiosidade por descobrir o que todos aqueles livros tinham a contar.

Naquela manhã, correu tudo como eu havia previsto. Tudo não... Cláudia não estava para ‘bons amigos’. Nem naquele dia e nem em nenhum dia em que a minha caixinha mágica de livros era destaque na sala de aula. Estranhei a atitude, uma vez que ela ‘não torcia o nariz’ para qualquer outra aula, mas quando eu vinha com a proposta de ler... Os livros a assustava.

Qualquer outro tipo de leitura não tinha problema, HQs, por exemplo, ela adorava, revistas também, mas livros e, depois percebi também que jornais, tiravam a guria do sério. Mas por quê?

Cheguei a perguntar para ela o motivo, mas ela simplesmente respondia: “Ler não é pra mim.” Eu tentei várias vezes saber o porquê dessa resposta, mas ela baixava a cabeça e ficava muda. Não dizia mais nada. E eu ficava com aquela resposta martelando a minha cabeça: “LER NÃO É PRA MIM”.

Chamei os pais várias vezes, mas eles não vieram. Mandei vários bilhetes e nenhum veio com alguma resposta ou sequer assinados. Nada. “Ler não é pra mim”.

Foi na entrega das avaliações do primeiro trimestre que eu tive o primeiro contato com os responsáveis pela guria. Veio a mãe. Eu, ansiosa para falar com a responsável. A surpresa foi quando descobri que a mãe nunca assinara os bilhetes que eu havia mandado porque não sabia ler e nem escrever. Nem assinava o próprio nome. De qualquer forma, conversar era possível e foi aí que veio a segunda surpresa: A mãe olhou-me do mesmo modo que a filha. Olhar de desprezo. Eu fiquei sem reação. A mãe mal pegou a avaliação da filha e foi-se embora. Nem quis saber das minhas angústias. Das minhas perguntas. Nada. Deixou para mim apenas aquele olhar.

Então, parti pra ‘guerra’. Não podia deixar aquilo continuar. A aluna sem querer saber dos livros. Não lia. Simplesmente ficava com os livros fechados. Eu apresentei livros ilustrados. E nada. Levei livros para criancinhas bem pequenas. Nada. Contos de fada. Nada. Histórias de terror, suspense, aventura, fantasia... Vários tipos. E nada. A guerra tinha que continuar. Chamei o pai. Já que a mãe ignorou minha fala, fuzilando-me com o olhar. Mas eu estava convencida de que tinha que continuar a minha busca pela verdade (eu e meu sangue de luta que corre em minhas veias).

O pai veio. Um homem grande, forte, de passadas firmes. Eu diria (eu baixinha que sou): um homem de meter medo. Relatei os fatos e pensei cá com os meus botões: “Será que ele agora vai me xingar?”. E então veio a terceira e maior surpresa que tive em relação ao fato. O pai falou-me com frases duras e de um jeito grosseiro. Foi curto e grosso: “Ler pra quê?” Eu tentei responder: “Ler é muito importante na vida das pessoas. Quando aprendemos a ler podemos fazer muito mais coisas, podemos...”. Fui cortada com a resposta brutal: “Minha filha não precisa saber ler pra trabalhar. Ler é pra rico. Coisa de novela, de gente desocupada que já tá com a vida ganha”. Tentei argumentar, dizendo que ler era importante para qualquer tipo de trabalho que poderemos escolher para a nossa vida, mas ele deu o golpe fatal: “A mãe dela não lê. Mulher não precisa ler. Mulher tem que lavar, passar, cozinhar, parir e cuidar dos filhos e ‘dar ‘ pro homem dela’ (desculpa aqui as palavras usadas, mas estou reproduzindo a fala usada pelo pai). Minha filha já tá criando corpo. Logo ela vai pra rua ajudar no sustento lá de casa. Pra fazer a vida, professora, não precisa saber ler, basta ter corpo pro homem botar a mão.”

Fiquei quieta. Ele nem me deixou tentar responder ou dizer qualquer coisa. A aluna, que eu cheguei a pensar que não iria mais à aula, foi na segunda-feira. E como sempre, estava quieta. Eu me aproximei dela e perguntei, suavemente, o que ela queria ser quando crescesse (nessa hora eu nem queria mais falar sobre os livros) e ela terminou de vez com o assunto: “Vou ajudar lá em casa”. E eu perguntei (que coragem) de qual forma ela ajudaria e ela respondeu calmamente (aquela era uma resposta e uma vida normal para ela): “Vou pras ruas”. E, antes que eu falasse ou perguntasse qualquer coisa ela falou-me com olhar de desprezo, o mesmo olhar que lançou para mim em seu primeiro dia de aula: “Vou fazer a vida pra levar comida pra casa. Pra senhora ver que ler não serve pra nada. Ler é coisa de gente poderosa. Ler não é pra mim”.

Aquele foi o último dia em que a aluna foi pra aula. Encaminhei o caso à direção da escola. Nem direção e nem conselho tutelar conseguiram trazê-la de volta. Ainda não sei qual foi a minha parte de culpa nessa história toda. Ainda me pergunto se, eu não tivesse insistido tanto (aquele sangue que corre em minhas veias...), talvez a guria tivesse continuado a ir à escola. Não sei. Será mais uma pergunta que não terei resposta. Somente aquela frase da guria ficou martelando até hoje: “Ler não é pra mim”.